Eis o texto e fotos de uma reportagem publicada hoje por mim no Diário do Comércio. Veja também o artigo sobre política no Estadão, também publicado hoje. Mais tarde o comentário na tevê sobre a Chevron e o novo vazamento.
Angra dos Reis- Num pais onde se inaugura até projeto, chama a atenção uma placa vazia na entrada da usina nuclear Angra 2: ela funciona plenamente mas nenhum político se arriscou a inaugurá-la.
Essa é uma consequência leve de Fukoshima. A mais séria é a adaptação das três usinas brasileiras aos padrões internacionais apos o desastre, em projeto que custará R$300 milhões e já foi elaborado por um grupo especial da Eletronuclear.
E tudo isto ao lado da construção de Angra 3 que mobiliza centenas de operários e cujas obras andam num ritmo intenso, mais rápido que as duas primeiras.
O que aprendemos com Fukushima? No primeiro aniversário da tragédia no Japão, grupos de manifestantes contra o a energia nuclear protestaram em algumas cidades brasileiras, pedindo o fim da indústria.
Mas como as usinas vão prosseguir, o é preciso visitá-las. Não é a primeira vez que entro em Angra. Participei dos primeiros protestos no trecho da estrada de onde se pode ver seus edifícios.
Mas ao longo de três décadas, acabei estabelecendo um dialogo com o superintendente Pedro Figueiredo e a confiança mútua permite que possa visitar as usinas, inclusive com as câmeras na mão.
O grande nó de Fukushima foi esfriar os reatores. Faltou energia para bombear a água e os geradores de emergência também foram inundados. Esse é o primeiro ponto nas transformações pelas quais vão passar as usinas de Angra.
Os prédios onde estão os geradores de emergência serão reestruturados para que se tornem impermeáveis. É uma tendência que deve ser internacional, uma vez que a prática, depois do desastre de Chernobyl, é alterar as normas que regem os principais produtores de energia nuclear no mundo.
Nos Estados Unidos, alem da segurança dos geradores de emergência, o Senado discutiu uma lei sobre o tempo o mínimo de carga que precisam ter. De nada adiante, geradores protegidos se não conseguem operar muitas horas.
No Brasil não há lei nem interesse e legislar sobre isso. Mas a própria Comissão Nacional de Energia Nuclear pode interferir nesse campo, ampliando o tempo de
operação dos geradores.
Pedro Figueiredo e o próprio presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, acham que não basta apenas atuar nos geradores que são uma espécie de redundância, para ser acionada quando falta energia na usina.
Para eles, é necessário também mais uma redundância: equipamentos móveis que possam ser usados em auxilio aos geradores. São instrumentos portáteis que garantem uma energia auxiliar para os geradores.
Existe ainda uma terceira possibilidade que não está prevista diretamente no plano: a construção de uma pequena usina hidroelétrica no rio Mambucaba, o que ampliar o potencial da usina, ampliando as salvaguardas.
Este projeto é viável do ponto de vista técnico mas ainda depende de negociações com o Ibama. A presença do rio Mambucaba não é apenas uma alternativa energética, mas uma saída adicional para a captação de água.
Nos próximos exercícios de simulação de um desastre, os moradores de Angra vão receber pastilhas de iodato de potássio. Como em Fukushima. Mas o que pode mudar no plano de retirada é a experiência dos japoneses que deixaram a área em torno de Fukushima a pé.
A proposta da Eletronuclear é a de que sejam abertas trilhas e caminhos para que os quatro mil moradores do entorno de Angra possam caminhar três quilômetros. Aí então seriamm recolhidos pelos ônibus que os levarão para uma distância alem do raio de 15 quilômetros.
Quando monitorei um dos exercícios, ainda na década dos 90, constatei que as sirenes de alarme não funcionaram. Houve solução para isso?
Pedro Figueiredo afirma que as sirenas são responsabilidade da defesa civil federal. A empresa queria tomar conta delas mas não pode haver doações porque a defesa civil não é dona das terras onde estão as sirenes.
Uma das alternativas é montar sirenes em quadriciclos e levá-las para os pontos onde precisam alertar as pessoas da existência de perigo.
A estrada por onde se deve fazer a retirada continua péssima. É a BR 101, construída numa época em que não faziam pesquisas mais profundas sobre o solo. Em certo verões, há mais de mil áreas afetadas por deslizamento.
Enquanto os japoneses reconstroem suas pontes com rapidez, por aqui a solução para a BR-101 pode esperar um século. A saída será construir algumas instalações de apoio para que parte da retirada seja feita por mar.
O Atlântico é a figura dominante em torno dos edifícios de Angra. Não registrou tsunamis e tudo indica que , nesta parte do mundo, não há placas tectônicas tão instáveis como no Japão.
As usinas de Angra ficam numa baia e não expostas como Fukushima, e a primeira delas começou a ser construída em 72. Não se falava ainda de aquecimento global. Nem de elevação do nível dos mares.
A usina está construída numa cota de 5m14cm, quatro vezes mais alta que a maior maré registrada: 1m20m. A previsão do IPCC, em caso de agravamento do degelo, é a subida do nível do mar é de 60 centímetros no máximo.
Esses dados tranqüilizam os dirigentes da usina, no momento. O mais importante, assim como em Fukushima, é monitorar as águas. A experiência da Eletronuclear é de criar algumas fazendas aquáticas de criação de conquilles de Saint- Jacques.
Segundo os pesquisadores, elas são sensíveis à contaminação e quaisquer mudanças na qualidade de água. Servem como índices permanentes avaliação da radioatividade das água na baia.
No dia em que visitei Angra, a primeira-ministra da Alemanha, Ângela Merkel, reafirmou o compromisso de seu pais em encerrar a produção de energia nuclear, em 2022.
Como ficará Angra 3 que é, assim como Angra 2, parte de um acordo com alemães, que agora batem em retirada sobre pressão da opinião pública?
O presidente Othon Pereira da Silva minimizou a ausência alemã. De um lado porque há dinheiro no Brasil para o financiamento do restante da obra. De outro, grande parte dos instrumentos são comprados aos franceses, por enquanto, adeptos do nuclear.
Há ainda a pressão dos ecologistas sobre Angra 3. O Greenpeace divulgou um documento afirmando que a usina estava sendo construída num lugar inadequado e inseguro.
A construção de Angra 3 mostra que está sendo construída numa área rochosa. Seus defensores poderão sempre dizer que estará firme como uma rocha. Mas até que ponto essas rochas são firmes?
Ao lado dessa discussão, a segurança das usinas que existem e a consistência de um plano de retirada em caso de acidente são prioridades que passaram em branco no primeiro aniversário de Fukushima.
A primeira manifestação antinuclear na porta da Angra 1 tinha como slogan a frase Hiroshima, nunca mais. Nos últimos 30 anos, o slogan pode ter atualizado para Fukushima nunca mais. Com ou sem tsunamis.








Comment
O grande problema das Angras é a presença de um grande paredão chamado Serra do Mar. Em caso de um acidente, as proporções poderão ser catastróficas.