Confrontando todas as informações que vêm do Japão, podemos concluir que há problemas de resfriamento em todos os seis reatores do complexo de Fukushima. Até aí nada demais, pois concluímos também que os geradores adicionais, submersos pelo tsunami, não estão funcionando.
Trava-se pois uma batalha em toda a linha para resfriar os reatores e evitar um derretimento. Acontece que o derretimento parcial já aconteceu em Fukushima 2 e foi liberada uma grande quantidade de radiação. Se ficar impossível para os trabalhadores, dado ao perigo de contaminação, prosseguir com o trabalho de resfriamento, a batalha pode ser perdida.
As autoridades japonesas estão pensando em utilizar helicópteros mas acredito que mesmo tripulantes de helicópteros estarão sob perigo de contaminação. Se não fosse assim, como explicar o governo ter decretado área de exclusão aérea em torno do complexo de Fukushima?
Essas considerações não são de todo inúteis. No caso de Chernobyl, os trabalhadores que ficaram para evitar o pior e cerrar a usina não sobreviveram para contar a história. Agora, as circuntâncias são outras, os equipamentos melhores, a assistência internacional mais sofisticada. Os EUA, por exemplo, enviaram dois especialistas em resfriamento de reatores.
Mas o Japão foi traumatizado com explosões de Hiroshima e Nagasaki. O aumento do nível de radiação em Tóquio vai demandar muita calma. Avaliar a situação de longe, baseado nos telegramas, pode induzir a muitos erros. Um exemplo disso foi a notícia inicial de que a temperatura no reator de Fukushima 1 era de 100 graus Celsius. Um leitor atento escreveu que temperatura descrita, num reator desse tipo é normal. Mais tarde, novas notícias afirmaram que a temperatura era de 1900 graus Celsius.
Apesar de todos os erros, é fundamental tentar entender, sem arriscar grandes conclusões. O desastre em Fukushima tinha sido classificado como de nível 5, abaixo de Three Miles Island e Chernobyl. Agora, as autoridades franceses já o avaliam como de nível 6.
Consultado por alguns amigos de Brasília sobre o que fazer aqui, respondi algo que, no momento me parece o mais sensato: não adianta discutir agora a construção dos novos reatores mas focar na segurança dos que já existem. Um ponto vulnerável, por exemplo, é o plano de retirada na Br101. A estrada precisa ser melhorada. Havia até dinheiro para isso, na área do gabinete militar da presidência, que tinha responsabilidades na questão nuclear.
Lembro-me que na simulação que realizamos houve dois problemas assustadores: na estrada precária, o policial rodoviário que daria cobertura à operação, morreu num desastre rodoviário; e a sirene, peça fundamental na retirada, não funcionava bem.
O problema da sirene, que era relativamente barata, foi solucionado. Mas a estrada continua ruim e os deslizamentos em Angra, no verão passado, revelaram isto. Talvez seja preciso até um novo traçado na estrada, para obter a segurança para os dois casos: acidente nuclear e grandes tempestades.
A melhor tática é deixar o governo anunciar quantas usinas nucleares quiser construir, mas exigir um debate sobre as duas existentes em Angra.
Na década dos 80, de Angra estava mobilizada para fiscalizar. Com o tempo, houve uma aproximação entre o setor nuclear e o governo do PT na cidade. Um ex-prefeito do partido, Carlos Castilho, foi empregado pela empresa. As posições que eram divergentes mas não antagônicas acabaram se convergindo.
Chega a um tempo em que a discussão entre nuclear e energias alternativas torna-se repetitiva. O problema central é o seguinte: a energia nuclear, como muitas outras tecnologias, foi desenvolvida para ser usada em circunstâncias também tecnologicamente avançadas. Quem quiser usá-las precisa ter os recursos necessários não só para produzir energia, mas para construir as condições de segurança que envolvem esta produção.
A Áustria, por exemplo, pediu o fechamento de duas usinas no leste europeu, não com um argumento anti nuclear, mas simplesmente afirmando que as condições eram inadequadas. Em termos nacionais, os austríacos decidiram fechar sua usina nuclear de Zwentendorf e transformá-la numa usina de energia solar. No fundo, é o caminho possível: quem puder passar para a energia solar, ótimo; quem insistir no nuclear que procure aprofundar suas medidas de segurança.
Acho que colocar a discussão nesse nível, pode ser um aprendizado sobre o complexo de Fukushima, que tinha 40 anos, mas sobreviveu ao terremoto. O tsunami é que inundou os geradores e impediu o resfriamento com uso de energia elétrica. Era portanto uma usina segura. O comissário europeu para energia nuclear, Gunther Ottinger afirmou que seriam discutidas novas condições de segurança, contra terremotos, terrorismo e vírus nos computadores. Ele concluiu seu discurso com uma frase enigmática: nem sempre o pior é o inimaginável.
É possível prever os principais problemas potenciais na produção energia nuclear. Acontece que ultimamente o imprevisível tem ganho um grande terreno.


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