O mundo não vai acabar em 2012, como acreditam alguns. Isolada esta corrente do pessimismo, todas as outras devem ser levadas em conta. O horizonte é dos mais sombrios para a Conferência Rio+20.
Duas grandes nuvens escurecem o panorama do encontro no Rio: o relativo fracasso das negociações em Durban e a crise econômica europeia.
Embora as emissões de CO2 tenham crescido nos últimos anos, a Conferência de Durban reunirá apenas 10 por cento dos 120 chefes de Estado que estiveram em Copenhague, em 2010.
As esperanças foram reduzidas a uma continuação do frágil Protocolo de Kyoto. Ainda assim, a Rússia, o Japão e Austrália ameaçam saltar do barco.
O drama central está na própria vanguarda do esforço de redução das emissões de carbono: a Europa em crise.
Responsável por 15 por cento das emissões globais, a Europa, através de alguns paises como Inglaterra e Alemanha, se moveu para reorientar a produção rumo à economia de baixo carbono.
O Protocolo de Kyoto libera paises emergentes de reducões de emissões obrigatórias. E os europeus afirmam, com razão, que alguns paises como a China e a Índia cresceram muito e deveriam estabelecer suas metas obrigatórias.
No encontro realizado em Pequim, o grupo de emergentes, BASIC, não chegou a um acordo para responder à demanda europeia. Brasil e África do Sul concordam com ela.
A Índia apareceu com uma posição diferente, bem mais radical no ceticismo quanto ao aquecimento. E a China manteve-se um pouco distante e é compreensível.
Desde a década dos 70, que a China tem os EUA como a grande referência no diálogo internacional. Juntos EUA e China produzem 40 por cento das emissões planetárias. Dificilmente a China avançará se os norte-americanos não o fizerem.
E os americanos não podem ser avaliados pelo discurso de Obama, como não o foram pelo de Clinton. A decisão sobre o caminho do país sempre esteve no Congresso.
Por que ser apenas moderadamente pessimista em relação à Rio+20 ? Ela trata de temas mais diretamente ligados ao cotidiano das pessoas: economia verde, erradicação da miséria.
A experiência diplomática mais complexa que pode nos inspirar agora, talvez seja da aproximação da China com EUA, no relato de um dos atores: Henry Kissinger.
Os chineses com sua longa história tinham uma percepcão generosa de tempo. Mao dizia que não era um grande problema se as negociações fracassassem, pois haveria novas tentativas.
Com mudanças climáticas não podemos nos guiar apenas pela sabedoria milenar chinesa. Há limites propostos pela ciência . Se forem transpostos, podem inviabilizar a propria continuidade humana.
Ainda dentro da experiência diplomática dos chineses e americanos, deve se levar em conta a habilidade de deixar grandes impasses , momentaneamente,de lado, para avançar um pouco.
Um debate planetário sobre a abertura de empregos novos pela economia verde não é bom apenas para quem precisa de renda. Na prática é uma contribuição aqui na planície, enquanto não se fecha um acordo nas alturas.
O Brasil tem exemplos a mostrar, como o da reciclagem de latas de alumínio, onde alcançamos o melhor índice mundial: 98%.
E tem muito que aprender também com o avanço da produção de energia solar, em todas as suas formas, até nas baterias que se levam em mochilas.
Na erradicacão da miséria, que é a proposta central do governo, será inevitável incluir um debate sobre a produção de alimentos. São 80 milhões de bocas novas para alimentar por ano. Basta olhar as revoltas populares que, associadas à luta pela democracia, derrubaram e vão derrubar governos. O peso do aumento do preço dos alimentos foi significativo.
Como encontrar os caminhos da sustentabilidade humana aqui e agora, mesmo que nos aproximemos da placa proibido ultrapassar que a ciência sugere: mais 2 graus centígrados, 450 ppms?
Conferência internacionais com temas tão abranjentes não são fáceis, muito menos para o pais anfitrião. Observadores brasileiros em Pequim notaram o empenho dos sul-africanos, entre os emergentes, para que Durban saisse com algo positivo.
Ninguém quer hospedar um fracasso coletivo. No caso brasileiro, as chances são maiores porque a Rio+20 tem uma agenda que coincide com o tema principal do governo.
O país não só é um dos maiores produtores de alimentos do planeta, como ocupa o cargo de direção da FAO, (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) com José Graziano.
Terá de usar todos os seus recursos para que a Rio+20 seja uma reparação do anticlimax de 2011. Avancando em alguns temas, é sempre mais fácil retornar ao grande impasse, com chance de superá-lo.
Quem pensava que as mudanças climáticas seriam equacionadas a partir de uma contradição norte-sul ficará confuso diante das alianças ocasionais que se formam.
Mao Tse Tung dava segurança aos interlocutores afirmando que a busca do acordo seria permanente, à prova de fracassos. Estamos diante de problemas que não dependem de impasses momentâneos ou modas passageiras.
A natureza do problema, contudo, desafia a visão maoista de que a contradição é o motor de todas as coisas.Nesse caso de ameaça planetário, a cooperação é o dínamo do processo.
O Brasil tem um papel em Durban e outro na Rio+20. A síntese dos dois grandes temas, mudanças climáticas e erradicação da miséria pode definir objetivos permanentes, uma base minima de unidade nacional, atravessando governos e façcões políticas .
Para quem teve a oportunidade de ver a Rio-92 ,um ciclo histórico vai se fechar em 2012. Naquela época, os temas eram mudanças climáticas, florestas tropicais, destruição da câmada de ozônio.E s africanos conseguiram impressionar, levantando o problema da desertificação.
Não sei o que nos espera na Rio+40 ou mesmo na Rio+60. Com todas as suas contradições, é importante que a cidade seja associada à essa tentativa planetária ,para o que der e vier.



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[…] Rio+20, tema do meu artigo de hoje no Estadão, temos alguma chance de obter progressos em dois pontos da agenda: economia […]