Pensei em escrever um artigo sobre multiculturalismo, tema central no manifesto de Anders Bhering Breivik, o atirador norueguês que matou 76 pessoas, na novas contas da policia.
Queria falar um pouco desse movimento que vi crescer na Europa, de alguns fundamentos teóricos, inspirados por filósofos como o alemão Jürgen Habermas ou o canadense Charles Taylor.
Hoje, os excessos dessa política são criticados por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, lideres de dois fortes países do continente.
Antes de abordar o tema, que seria melhor desenvolvido nas generosas dimensões do jornal, acabei encontrando no manifesto do terrorista uma interessante referência ao Brasil.
Ele acha que a miscigenação brasileira tornou nosso pais disfuncional. Apenas repetiu alguns argumentos colonialistas e, na verdade, argumentos que sempre estiveram presentes em muitas cabeças nos trópicos.
Tive a oportunidade de participar de alguns debates, aqui e fora, e afirmar que a miscigenação era uma qualidade da cultura brasileira. Aliás, quase todos aqui são mestiços. A própria Luci, a pessoa mais velha encontrada em nossas terras, aparentemente, era mestiça e viveu há milhares de anos.
A Semana de Arte Moderna ficou famosa também por levantar o tema da antropofagia. É uma característica de nossa cultura embora miscigenação cultural seja melhor que antropofagia. Significa não devorar tudo, mas fixar-se nas qualidades desejadas.
Num mundo globalizado, a experiência brasileira é uma das mais reverenciadas. Isso não impede que os teóricos da pureza cultural invistam contra ela.
O próprio Cícero em Roma, que tinha estradas abertas, falava do perigo da chegada de estrangeiros e como isso enfraqueceria a cultura local. É uma discussão muito antiga.
Algumas ideias do terrorista norueguês são comuns entre alguns conservadores e podem ser defendidas por partidos de direita na Europa. Culpar os defensores dessas ideias pelo desatino de Bhering Breivik é que me parece equivocado.
Buscar aqui e ali as influências que ele teve, não deve representar um álibi. Manifestos de terroristas de esquerda estão repletos de acusações ao capitalismo e ao imperialismo. Isso também não significa, necessariamente, que os críticos teóricos do capitalismo, sejam responsáveis pelos seus crimes.
O terrorista não queria ver a Noruega como o Brasil. Mas é exatamente uma Noruega com brancos, pretos, mulatos, e amarelos que emergiu nos últimos anos.
As bombas não fazem a história retroceder. Embora um atentado dessa dimensão, assim como foi a morte de Olof Palme, na Suécia, seja o prenúncio de uma sociedade mais atenta, com uma polícia mais severa.
A Noruega, de forma mais traumática, vive o drama que a Suécia viveu com a morte de Palme. Como se tornar uma sociedade segura sem se tranformar numa sociedade policial?



2 Comments
[…] Published O terrorista e o Brasil. […]
Excelente texto para reflexão.
Parabéns.