Demorei algumas horas para comentar a queda do chefe de polícia Allan Turnowski. Precisava dados, estabelecer conexões e confesso que ainda faltam alguns pontos para esclarecer. O importante, entretanto, é que ele caiu e abre-se uma chance da polícia do Rio combater sua banda podre.
A delegada Marta Rocha assumiu o comando. Não se sabe ainda quem a cercará, se serão pessoas comprometidas com o esquema anterior. Ela foi candidata à deputada pelo PSB e, certamente, terá de conter qualquer ambição política para realizar bem seu trabalho.
Uma peça importante para se entender o que aconteceu é o depoimento do delegado Cláudio Ferraz, explicando as razões pelas quais Turnowski fechou sua delegacia e o acusou de corrupção. Cláudio Ferraz participou do livro Tropa de Elite 2. O livro apresenta, em forma de ficção elementos da realidade da polícia do Rio. Um deles, em 2009, a contribuição da policia carioca para que o traficante Ropinal escapasse de uma blitz da PF. O episódio deixa mal Allan Turnowski e seu braço direito, no momento na cadeia, Carlos Antônio de Oliveira. Eram os que sabiam antecipadamente da operação.
Outro problema que levou Turnowski a perseguir Cláudio Ferraz foi sua tentativa de investigar a milícia da favela Roquete Pinto. Oliveira estava comprometido com ela.
O depoimento de Ferraz mostra também como a organização criminosa invadia os morros já combinando com a milícia que ela seria a herdeira do lugar. Um exemplo desses planos completos de expulsão dos traficantes e ocupação pela quadrilha de policiais seria realizado na favela da Coreia.
Além desse interface com traficantes, a polícia do Rio tem problemas em pelo menos mais quatro setores: as termas, onde há prostituição, as clínicas de aborto, o jogo do bicho e bocas de ouro, onde vendem joias roubadas.
Esse esquema no conjunto é que o torna as delegacias atraentes para muitos policiais. O dinheiro é recolhido e da soma total R$200 mil seguem direto para o chefe de polícia. Segundo os conhecedores do setor não é um problema específico do atual chefe de polícia: seria assim há pelo menos 20 anos.
O mais diábolico de tudo é o fato da quadrilha de policiais ter infiltrado um informante no serviço Disque Denúncia, um importante trabalho auxiliar que conta com o apoio da população. Foi esse informante que passou para Carlos Antonio Oliveira a notícia de que estava sendo investigado por Cláudio Ferraz. Antes de qualquer investigação numa comunidade, o delegado pedia ao Disque Denúncia as principais ocorrências registradas no lugar.
Colaborador do Tropa de Elite, em choque com as mílicias e com as quadrilhas desarticuladas agora, Ferraz passou a ser perseguido por Turnowski que designou um delegado chamado Maurício Demétrio para espalhar notícias contra ele. A sorte é que Ferraz anotava os boatos em sua agenda e entrevistava as fontes. Com isto tem um apanhado completo do processo de perseguição.
Turnowski mentiu quando disse que recebeu uma carta anônima contra Ferraz. A história já era conhecida e os documentos que ele mencionou para incriminar Ferraz têm uma das assinaturas que não é de Ferraz e foi forjada, possivelmente, por dois policiais que ele afastou de sua delegacia e foram acolhidos por Turnowski.
A Polícia Federal vai ouvir Turnowski de novo, não mais como testemunha. Parte da estrutura criminosa foi desarticulada, mas outra parte continua de pé. Era um grupo que matou muita gente pois resolvia suas questões internas de forma radical.
Quando todas essas histórias vierem à tona talvez seja preciso fazer um Tropa de Elite 3. O interessante é que o delegado Carlos Antônio de Oliveira foi deslocado para o setor de ordem pública da Prefeitura, o famoso Choque de Ordem. Outra mina de ouro pois em tese é possível apertar os pobres com muito estardalhaço na mídia e assustar os ricos para que paguem boas propinas.
A vereadora Andreia Gouveia Vieira (PSDB) está tentando uma CPI municipal para apurar a passagem de Carlos de Oliveira pelo Choque de Ordem. Toda a história do Choque de Ordem só seria levantada se as pessoas que deram dinheiro denunciassem. A historia da repressão pura e simples deve existir até em CDs pois foi amplamente divulgada pela imprensa.
De vez em quando, voltaremos ao tema.


Leave a reply