Foi excelente que tantas pessoas no Brasil se manifestassem, num feriado, contra a corrupção. Já é a segunda vez que o movimento sai às ruas e durante todo esse período prossegue, de várias formas, o debate na internet.
Muitos elogiam porque o movimento, como os outros que acontecem no mundo, é espontâneo. Outros criticam, exatamente, porque o movimento é espontâneo, não tem direção política nem estratégia.
Não se pode esquecer: as pessoas que saem às ruas atravessam uma pesada barreira de descrédito criada na própria internet e com ramificações na imprensa.
O maior argumento de todos, na Espanha, Estados Unidos e Islândia, é sempre esse: movimentos espontâneos levam à dispersão e ao fracasso.
Não foi assim na Islândia, por exemplo. O mais importante é existir um núcleo de descontentes em ação. Quando as pessoas quiserem, já sabem para onde ir.
Alguns críticos afirmam que a revolta no Brasil não avança porque há crescimento econômico. Sem dúvida, é um argumento de peso. Acho que um certo marxismo fez um mal à cabeça de muitos analistas que vêem apenas na economia o motor da história.
Quantas vezes não é repetida a frase do marqueteiro americano: é a economia, estúpido. Reducionismo econômico, desqualificação de outros temas não chegam a configurar um pensamento autoritário. É apenas pobre.
O fato de o Brasil, em plena expansão econômica, motivar manifestações por fatos políticos e morais é um grande avanço. Se o movimento terá ou não sucesso, se a corrupção será ou não atenuada, tudo isso está em aberto.
O que parece ridículo é insinuar que os brasileiros não deveriam sair às ruas, porque o pais vive um momento de prosperidade. A prosperidade, apesar de sua importância, não é o único valor.
Num artigo no Estadão de amanhã, tento mostrar que a luta contra a corrupção e irracionalidade nos gastos do governo é um dos fatores de luta contra a crise econômica que se aproxima. O título já foi usado num dos posts: Nenhum pais é uma ilha.
Aqueles que negam o movimento porque o Brasil é próspero deveriam vê-lo também, ao lado de suas propostas político morais, como uma das maneiras de preservar a própria prosperidade futura.
Infelizmente, para os amantes da inércia, o movimento e a constante transformação são os fundamentos da vida.



Comment
Não há prosperidade na desigualdade.
É só observar o sistema de saúde pública que constataremos o que digo. O dinheiro desviado pela corrupção torna o cidadão mais pobre, mais desprotegido.
É muito importante denunciar e protestar contra os ladrões do dinheiro público e exigir seu afastamento da vida pública com a devida punição.