Quando os americanos invadiram a casa de Bin Laden talvez já pressentissem que estavam disparando mais debates do que balas. Era delicado fazer uma operação secreta e, simultanemente, relatar sozinho como os fatos aconteceram .
A própria Casa Branca foi corrigindo sua versão. Bin Laden não estava armado. Sua mulher não morreu, apenas recebeu um tiro na perna. O terrorista não usou a mulher como escudo, ela é que se precipitou quando os soldados invadiram o cômodo da casa onde estavam.
Um oficial paquistanês declarou, sem revelar o nome, que a filha de Bin Laden disse que o pai foi morto depois de tomado prisioneiro. Muito possivelmente, o choque de versões vai continuar por muito tempo.
Líderes espirituais como Martin Luther King e o Dalai Lama também acabaram sendo arrastados para o debate. King num dos seus discursos disse que não se alegrava com a morte de inimigos. Na internet americana, há um debate sobre o texto exato do discurso, numa tentativa de negar a posição cristalina de um líder religioso que, ao contrário do Dalai Lama, não está mais aí , para se explicar.
O Dalai Lama entrou na dança porque afirmou que perdão não significa esquecimento.” Se algo é sério e é necessário tomar medidas de contenção, então devemos tomar medidas de contenção”- disse ele.
Num caso, o debate queria tirar de Luther King sua posição contra o rejogizo pela morte de inimigos. No outro, o movimento era indicar o apoio do Dalai Lama à operação em Abbottabad.
Um outro debate se criou em torno do nome da operação: Gerônimo. Netos do apache do século XIX protestam contra a identificação do avô com Bin Laden.
No Brasil, Jerônimo com J, era o nome de um herói de uma série radiofônica que se tornou novela de televisão. Seu criador foi Moysés Weltman, em 1953.
Fídel Castro falou que era um fato detestável matar um ser humano diante da família. Rubinho, na feira de Ipanema, expressou essa posição. Prefiro-a na boca de um feirante do que na de Fídel Castro que matou centenas de pessoas, algumas fuziladas em praça pública, outras apodrecendo nas prisões do regime.
A morte de Bin Laden representou uma escolha. Os debates surgidos em torno dela são muito mais amenos do que os que surgiriam com sua prisão e julgamento. É o tipo de cálculo que governos, movidos por razão de estado, fizeram com frequência na história.
Ainda assim, não cairam bem as idas e vindas da narrativa oficial. Para mim, algo que não acredito mesmo é que as fotos dos homens mortos na casa foram vendidas por um oficial paquistanês. Câmeras hoje estão nos telefones, podem ser adaptadas aos capacetes, usadas como caneta. Duvido que os americanos tenham deixado a casa sem filmar a cena, em ângulos diferentes.
Diante do fato consumado, tudo se transforma em debate secundário. O que talvez valesse a pena lembrar é que os Estados Unidos têm uma posição singular sobre as leis internacionais. No caso de Bin Laden, depois da morte de milhares de pessoas, consideram que é uma questão entre os EUA e seus adversários. Um das implicações dessa escolha é a recusa de um Tribunal Internacional, como o que funciona hoje na Holanda. Enquanto equacionarem seus problemas dessa forma direta, num confronto entre eles e os inimigos, os norte-americanos dificilmente aceitarão esse tribunal pois temem que seus cidadãos, mesmo cumprindo missões importantes para o país, possam ser detidos e julgados por leis não americanas.
Isso não é uma posição para a eternidade. Bush invadiu o Iraque contra a advertência da ONU. Obama só assume novos confrontos, como no caso da Líbia, depois de criar uma base de apoio.
No caso de Bin Laden, Obama fez o exatamente o que governo Bush faria se o tivesse encontrado. E com isso resolveu também uma série de dúvidas a seu respeito, atraindo independentes e republicanos para sua futura campanha.
Passada a agitação da morte de Bin Laden recomeça a grande e cotidiana batalha pela recuperação da economia.


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