As demonstrações do 7 de Setembro colocaram o problema da corrupção no topo da agenda. Um pouco contra a vontade do governo.
De acordo com o discurso oficial, os principais temas são desenvolvimento econômico, distribuição de riqueza e combate à miséria.
Os dados sobre a corrupção são tão onipresentes que acabam comprometendo o próprio discurso oficial.
Em sete anos, o Brasil perdeu R$40 bilhões com a corrupção, o equivalente ao produto da Bolívia. Um desenvolvimento que perde uma Bolívia em sete anos, poderia ser muito mais homogêneo.
Uma riqueza que deixa R$40 bilhões nas mãos de corruptos está muito longe de ser distribuída racionalmente.
Apesar disso, o Brasil cresceu e milhões de pessoas foram incorporadas à classe média. Resta o argumento que esse foi o preço pago para estruturar um governo de coalizão, para colocar a imensa máquina do governo em movimento.
Mas também sobre esse preço, é possível argumentar. Ela significa o desprezo de grande parte da juventude pela política e pelos políticos brasileiros. E repercute até na imagem internacional do país.
Documentos vazados pelo Wikileaks, revelam uma correspondência do embaixador americano, Thomas Shannon, afirmando que o governo anterior estava minado pela corrupção em todas as suas esferas.
Quantas correspondências semelhantes não encheram as malas diplomáticas? Apenas um embaixador percebeu?
Não adianta afirmar que o movimento contra a corrupção é de direita. Não é de direita nem de esquerda, e sim espontâneo, apartidário.
A divisão entre esquerda e direita tinha mais rigor no século passado, dominado pela Guerra Fria. Olhar o século XXI com esta divisão única na mente é deixar de ver muita coisa.
O PSOL por acaso é um partido de direita? No entanto, apóia a luta contra a corrupção. É algo que, simplesmente, restaura o mínimo de confiabilidade em governos.
Exstem outras demandas latentes. Uma delas é a responsabilidade dos governantes. Relutam muito em aceitá-la, quando cometem erros evidentes. O próprio relatório da CGU (Controladoria Geral da União) registra um desvio de R$682 milhões em 17 projetos do Ministério do Transportes. Mas não aponta os culpados.
Caso mais dramático aconteceu com o bonde de Santa Tereza. As autoridades fluminenses apontaram o motorneiro do bonde como o culpado do acidente, que matou seis pessoas.
Em outros países seria caso de demissão. Mas será também, nos próximos anos no Brasil.
Como quase todos os povos que protestam no mundo, a juventude brasileira tem acesso a meios de comunicação, sem controle de ninguém. Alem disso, a própria imprensa tem conseguido escapar das tentativas de controle, isolando a proposta.
Não sei que ritmo, nem que recuos nos esperam. Sei apenas que algo está em movimento. Se todas as forças políticas se dessem conta, o caminho seria mais fácil.
Mas haverá resistência , como houve contra a ideia de eleições diretas. A luta contra a corrupção, que deve se desdobrar numa reforma política, é uma continuidade do processo democrático.
Não desviar dinheiro, nem culpar o motorneiro, uma rima para o começo de conversa.



Comment
Como, e o que, fazer para mudar esta situação?
Não importa quem esteja no poder – contanto que tenha o Brasil e não o partido em mente.
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A classe política está chegando a uma perigosa baixa na opinião geral do povo.
Uma generalização que é MUITO perigosa.
Mas que “eles” fazem por merecer.
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A descrença nos mecanismos democráticos como solução para o problema está levando o país para um retrocesso e desfecho potencialmente perigosos.
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Já ando até com medo de citar, a sério, o que para mim sempre foi uma piada (que tomei por empréstimo de uma charge do Millôr): “Saudades do Médici e da Gonorréia”
Mais e mais pessoas que sempre considerei ponderadas vêem um retorno aos anos de chumbo como a única solução possível.
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E o mais triste, é que algo que poderia ter sido tão bom para o país e para o povo brasileiro – um governo do PT – tenha acabado neste novo “oceano de lama”.
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Lamentável.