Teresópolis – Subi a serra esperando mais do que um dia de sol, um pouco de indignação. As manchetes de domingo diziam claramente que o dinheiro para a reconstrução da cidade estava sendo desviado.
Descobri muito rapidamente que o método de desvio de dinheiro público tem tudo para dar certo. A população se cansou de protestar, quando a Câmara de Vereadores aprovou uma CPI para apurar os desvios.
Nesse momento as esperanças de Teresópolis foram por terra. A Câmara de Vereadores é aliada do prefeito e quer negociar com ele. O presidente da CPI, o médico Habibe Tauk ficou mais conhecido na cidade depois que apareceu num vídeo dizendo que cobra tudo dos clientes e ficou rico: pobre tem que procurar o INPS, concluiu.
O prefeito Mário Jorge chegou a convocar uma coletiva. Leu uma nota dizendo que todas as acusações contra ele eram falsas e que iria processar o jornal que as publicou, sem mencionar o nome do Globo.
Antes da coletiva, ele concedeu uma entrevista exlusiva à rede Globo para falar do trabalho de reconstrução. São os primeiros seis meses da tragédia.
O prefeito fingiu que não sabia que há um inquérito no Ministério Público e que uma testemunha afirmou que se pagava uma propina de 10 por cento no princípio e 50 por cento nos últimos tempos.
No mesmo dia em que dava a entrevista, surgiu a notícia de que o Ministério do Turismo vai injetar R$10 milhões no setor para que ele se reorganize, apos o desastre.
As irregularidades são muitas. Pelo menos R$5 milhões estão sendo questionados. Esse dinheiro foi pago à uma empresa chamada RW e à uma filiada da Queiroz Galvão.
Ambos os contratos parecem dívida de campanha. No caso da RW a empresa simplesmente funcionava num apartamento e só tinha experiência como casa de vídeo.
As obras que construía foram realizadas por funcionários da Prefeitura, algo que o Sindicato dos Funcionários documentou com fotos.
Nada disso abalou o esquema. O prefeito e sua equipe contam com outro fator. O Procurador Paulo Barata e o juiz federal Alcir Lopes Cordeiro são adversários. Quase tudo que um pede, o outro tende a negar-.
Embora as ações populares contra o prefeito continuem a surgir, a tendência do movimento pela renúncia do prefeito é dar a resposta nas eleições. A cidade sente-se desamparada, apesar de seus esforços. Até cruzes os moradores de Teresópolis enterraram nas areias de Copcabana para protestar contra o ritmo das obras.
Uma CPI que deve resultar em quibe, pois Habibe é o presidente, um processo que esbarra na rivalidade entre autoridades judiciais, e, sobretudo, uma capacidade de enganar mesmo aos jornalistas com uma falsa entrevista, tudo isso faz do desvio das verbas em Teresópolis um caso difícil para resolver.
O prefeito já foi expulso do PT. O deputado petista de Teresópolis, Nilton Salamão, o critica abertamente mas ainda assim não houve uma intervenção externa para corrigir o manejo das verbas . Os mortos que vimos naqueles dias e os destroços que visitamos com freqüência, assim como vitimas isoladas e indefesas, são a lembrança da tragédia na serra.
Precisamente onde se mais sofreu é onde ficou mais difícil lutar. Mas Teresópolis precisa continuar resistindo, caso contrario , escândalos mais volumosos de corrupção, em escala nacional,acabam enterrando sob a incrível massa de pedras, as chances de ver o restante do dinheiro melhor empregado.





2 Comments
Será que não há cadeia pra esses porcos!! Já são décadas violentando essa pobre cidade!!!
Verbas e doações que serviriam para amenizar o desespero de muitos são desviadas através de esquemas que nem se preocupam em disfarçar a roubalheira. Este descaso para com o pouco cuidado dos gatunos da coisa pública tem um nome: certeza da impunidade. Qual o problema de um prefeitinho roubar descaradamente, se a justiça deixa todos impunes, como a dar um repetido recado: “pode roubar que não vai acontecer nada”. Aliás, o máximo que pode acontecer é perder o cargo, cadeia… nem pensar. Acredito que está chegando a hora em que a polícia vai ficar desmoralizada para prender os ladrões de galinhas… Afinal, conforme a população testemunha diuturnamente, roubar não é mais crime (já que ninguém vai preso…).
O mais perverso é que estas quadrilhas são formadas a custo zero (para eles), pois que se baseia na divisão do roubo da coisa pública, do butim. Sabe quantos cargos de confiança (salário médio de 10 mil) dispõe um reles presidente de Câmara Municipal de um municipiozinho da envergadura de Teresópolis? E de quantos o prefeito dispõe? Pois é: através de acordo, um juiz indica 2 advogados/laranjas (procurador/secretário para assuntos jurídicos/ etc.) e todo mês fica com metade dos salários. Nada mal aumentar a renda familiar MENSAL (sem pagar impostos) em 15/20 mil reais (isso por baixo). Quando explode o escândalo (com indícios, provas, filmes, depoimentos, confissões, gravações, fotografias, dinheiro em meias, cuecas e calçolas), como é que esse mesmo juiz vai punir o seu colega de quadrilha?
Cada vez fico mais convicto de que tal roubalheira desenfreada só é possível com o acumpliciamento do Legislativo, Executivo e Judiciário, ou seja, os três níveis participando (cada um em seu mister) ativamente da quadrilha (ou das quadrilhas, pois em cada município o quadro se repete sem muita criatividade)
Tem uns seriados na TV que retratam a polícia perita nos USA, chamados CSIs. Os caras são feras em descobrir (cientificamente) provas que levam os bandidos para a cadeia. Aqui na terra do pau de tinta isso tudo é desnecessário, pois mesmo quando as provas são esmagadoras… ninguém vai pra cadeia.
Sei lá. Acho que esses meliantes estão abusando da sorte, esticando demais a corda e tornando a situação insustentável… até mesmo para eles.