EDITORIAL PUBLICADO EM O GLOBO (17/06/2010)
Rio sofre com a dependência aos ônibus
Juntos, trens, metrô e barcas transportam apenas 8% dos usuários do Rio
Números do Plano Diretor de Transportes Urbanos dão conta da grande, preocupante e injustificável dependência da população da Região Metropolitana do Rio aos veículos sobre pneus. Neste cenário, em que se misturam constantes engarrafamentos, desconforto e poluição, além de perda de tempo e poder aquisitivo, os ônibus têm um peso desmesurado, transportando diariamente nada menos que 70% dos passageiros. As vans — que, longe de resolver o problema, contribuem para sobrecarregar um sistema perverso para a qualidade de vida da população e para a cidade — rodam com um naco de 18% dessa calamidade urbana.
As causas do caos são conhecidas, mas timidamente enfrentadas — quando são.
Entre outros fatores, estão a desorganização no planejamento das linhas (que nunca foram licitadas), a falta de corredores expressos e, especificamente no que diz respeito à preponderância dos ônibus, a acanhada participação de outros meios no sistema de transporte de massa.
Trens, metrô e barcas respondem juntos por minguados 8% do mercado, embora operem numa faixa na qual é enorme a concentração de usuários. A relação é desproporcional, principalmente no que tange aos trens urbanos: apesar de rodar sobre uma malha significativa, com cinco ramais e 225 quilômetros, a ferrovia transporta apenas cerca de 505 mil pessoas por dia, contra 4,5 milhões que usam ônibus.
A comparação com São Paulo, cujo perfil de usuários é semelhante ao do Rio, dá a medida da dimensão da discrepância e leva água para a tese de que a solução da equação dos transportes fluminenses passa por método e vontade política. Ambos têm praticamente o mesmo número de linhas de trem (o Rio tem cinco, São Paulo, seis), tamanho da malha equivalente (225 quilômetros contra 260 quilômetros) e igual quantidade de estações (89), sendo que a frota fluminense é maior (160, contra 120). No entanto, a ferrovia paulista transporta 2,2 milhões de passageiros/dia, quatro vezes mais do que a malha do Rio. No metrô, o quadro não é muito distinto.
Ajuda a explicar o cenário bem mais favorável a São Paulo a decisão de investir mais no sistema ferroviário e na metrolização dos trens urbanos, processo que sequer engatinha no Rio. Decorre de tal quadro que, ao passo que a malha ferroviária paulista tem participação efetiva na rede de transporte público, a ferrovia fluminense está longe de cumprir um papel realmente eficaz no sistema. Deve-se acrescer ainda às insuficientes ações de otimização dos trens urbanos a má qualidade dos serviços prestados à população, com o registro de constantes falhas, também no metrô — mal de que igualmente padecem as barcas.
Deste quadro resulta que o poder público precisa desenvolver ações para melhorar a qualidade dos transportes públicos no Rio, de modo a reduzir a dependência aos ônibus e vans e, de forma global, oferecer serviços de mais qualidade à população.
O desafio não deve ser empurrado para o próximo governo. São problemas crônicos, cuja solução passa por medidas concretas, inadiáveis, em lugar de promessas.
Foto: Marcus Veras http://www.flickr.com/photos/gabeira-43/



3 Comments
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Candidato uma coisa não ficou clara p/ mim: O que falta para o sistema de trens do Rio transportar tantos passageiros como o de São Paulo, já que ele pretensamente é mais eficiente (tem mais trens e menos linhas a serem cobertos por um número de trens que é maior aqui no Rio)? Concordo com tudo que vi nos seus vídeos. O sistema ferroviário fluminense é lento, caro, desconfortável e impontual. Abraços e sucesso. Meu voto já é seu!
O projeto original do Metrô carioca previa a linha 1 em anel. Se a linha 1 fosse concluída, as pessoas teriam 2 opções para chegar ao seu destino.
Outra coisa que ninguém toca no assunto, mas seria muito importante para a mobilidade urbana no Rio de Janeiro seria a conclusão do Plano Doxiadis (também conhecido como Plano Policromático). A conclusão das demais linhas: verde, azul, marrom e lilás, ajudaria a desafogar o trânsito, além de criar corredores para a instalação de indústrias nas suas margens, gerando empregos e diminuindo o fluxo de pessoas para o Centro do Rio.
Na minha opinião, a região onde se encontra a Favela da Maré é uma ótima localidade para a instalação de uma indústria, pois tem uma facilidade enorme de escoamento da produção. Margeando a Av. Brasil (BR-101), Linhas Amarela e Vermelha, e tendo ainda o Canal do Cunha, que pode servir como via para escoamento hidroviário.