Com algumas propostas utópicas mas algumas populares, como o combate à repressão, milhares de jovens espanhóis estão colocando um fato novo na disputa bipartidária.
Não se trata de uma terceira força disputando os votos com o PSOE e o PP, os dois maiores partidos. Eles apresentam apenas um programa de renovação da vida política do país, incluindo uma abertura legal para pequenos partidos.
O movimento se intitula M-15 e atraiu milhares de simpatizantes na Espanha. Feito nos moldes da revolta islandesa, uma das táticas é se concentrar diante de um parlamento e abrir o microfone para manifestações dos que se aproximam.
No caso de Madri, Porta do Sol, importante praça da capital espanhola foi escolhida para desempenhar o papel que a Praça Tahir desempenhou no Egito.
Duas praças dois discursos. Na Praça do Sol, os jovens criaram uma espécie de parlamento alternativo, com mesa, ordem de inscrição e também comissões temáticas.
O princípio do movimento foi apenas uma manifestação, no 15 de maio, com alguns milhares na Praça. Era um pedido de democracia mais ampla e algumas palavras de ordem que lembravam o movimento contra a globalização.
As articulistas do El Pais , Patricia Dolz e Ines Santaeulalia, comparam a trajetória do acampamento na Praça do Sol com o episódio de um conto de Júlio Cortazar, intitulado Na autopista do Sul. Um enorme e inesperado engafarramento acaba se tornando um mundo com vida própria.
Na Praça do Sol, embora os porta vozes do movimento terem o seu programa, populares se apresentam para dizer como querem que a democracia aconteça.
São propostas que revelam uma grande diversidade de anseios, embora uma das bases da revolta está no alto nível de desemprego da juventude espanhola, que gira em torno de 40 por cento.
El Pais num dos seus títulos chamou o movimento de revolução, registrando seu crescimento no interior e suas repercussões fora da Espanha.
Os jovens espanhóis, mesmo desempregados, não são pobres como os árabes e nem vivem numa ditadura. Na véspera das eleições conseguiram a abalar a confiança num sistema bipartidário.
Na Praça Tahir havia um claro objetivo: a queda de Mubarak. Na Espanha, o horizonte são as eleições. O M-15 está votar nulo, em branco, ou em pequenos partidos. É possível que escolha a última alternativa.
E depois das eleições? O movimento vai se transformar em partido? Caso o faça perderá grande parte de sua atração.
A presença dessa revolta difusa é tão forte na Espanha , no momento, que passa ser uma das importantes variáveis no jogo político.
É provável que continue num crescendo, como fizeram os islandeses, até obter algum tipo de reforma política.
Mais democracia direta, usando os recursos da internet e a denúncia do modo atual de fazer política podem ser os elementos
de continuidade, bandeiras para o momento pós eleitoral.
No campo da economia remam um pouco contra a maré, pedindo aposentadoria mais cedo e a recuperação pelo estado de empresas privatizadas.
Mas é uma proposta com apelo popular também nos tópicos da reforma fiscal, destinada a fixar um imposto maior para os ricos. Além disso, os estudante defendem a taxa Tobin, um imposto sobre as transações financeiras internacionais, retomando um dos temas de protesto contra a globalização.
Ao ler um debate de sociólogo espanhóis, cheguei à conclusão de que há muita diversidade na intepretação do M-15. Pode ser um vento de mudança ou apenas uma grande festa na rua. Todos parecem ter sido pegos de surpresa.


Comment
Que ótimo, só a juventude pode mudar o rumo das coisas.
Uma pena aqui no Brasil estarmos dormindo na ilusão de que tudo corre muito bem.
Parabéns aos espanhóis!
Abraço Gabeira!