Nas reuniões de antigamente, costumávamos brincar dizendo que a agenda era essa: quem somos, onde estamos, para onde vamos.
Ficarei apenas com a segunda pergunta: onde estamos? Com as revelações de uma das viagens do governador Cabral a Paris, ficou claro a relação estreita entre ele e o dono da Delta, Fernando Cavendish.
Governo e empresa fizeram negócios no valor de R$1,5 bilhão. Em qualquer pais do mundo, esta relação íntima seria questionada, mesmo porque muitas das obras foram contratadas sem licitação.
Ao lado do governador, entre outros, havia o secretário de saúde, Sérgio Cortes, que enriqueceu nos últimos anos, sob acusações de corrupção no setor.
A imprensa não falará mais nisso, em breve, exceto quando aparecerem novas evidências. A Assembléia, com o pequeno peso da oposição, não conseguirá fazer uma CPI. E o PMDB em Brasília decidiu fazer tudo para blindar Cabral, na CPI do Cachoeira.
Estamos num estado em que essas coisas acontecem e não trazem consequências institucionais. Isto não significa que não serão descobertas e reveladas. A história será escrita, de uma forma ou de outra.
As imagens de Cabral, Cavandish e o grupo de guardanapo na cabeça, foram divulgadas e comentadas em profusão. Creio que, no futuro, o exame dessas imagens poderão trazer novas descobertas.
Lembro-me de um livrinho que ensinava a ver quadros e seu título era: Não estou vendo nada. O autor chamava a atenção para o fato de olharmos um quadro e acharmos que nada de interessante pode ser encontrado ali.
As imagens de Paris podem na verdade suscitar muitas páginas de análise. Em tese, revelam a amizade íntima entre Cabral e Cavendish. Na prática, mostram um certo tédio de jantares de negócio.
Cabral gasta grande parte do jantar acompanhando noticias no celular. Havia no primeiro video um pouco de ansiedade quanto ao tempo, pois faltavam apenas alguns minutos para a meia noite e a primeira dama faria aniversário.
Num certo momento, Cabral decide que Cavendish deve dar um beijo na boca da futura esposa. E exige que ela abra bem a boca, num tom grosseiro.
O tédio num restaurante vazio e com um grupo de garçons dedicado apenas à mesa dos milionários brasileiros, fica mais claro quando surge um fragmento de video já no final da festa:
-Lets win (sic) some money – diz Cavendish, propondo uma ida ao cassino. Aquilo parecia a saída para o impasse. Já que não conseguiam um diálogo interessante, por que não apelar para a única coisa que realmente os mobiliza: ganhar algum dinheiro.
O fragmento é muito rápido. Tenho a sensação de que, diante da proposta de Cavendish, uma das mulheres diz: só se for muito (dinheiro) pois dá trabalho.
Se minha percepção for verdadeira, a autora da frase considera o dinheiro ganho em jogo como muito trabalho. Imagino o que não acharia da vida comum do assalariado, longas viagens em transporte coletivo, oito horas na empresa.
Um dos pontos que destaquei no debate sobre o livro de Alan Riding, Paris, a festa continuou, que trata de vida cultural da França durante a ocupação nazista, era o fascinio que a cultura francesa despertava nos alemães.
Tanto Hitler como outros dirigentes nazistas eram os maiores compradores e ladrões de quadros. Os oficiais alemães frequentavam galerias, iam ao teatro e ao cinema e, de certa forma, garantiam plateia numa Paris ocupada.
Ao mesmo tempo em que era fascinado pela cultura francesa, Hitler pensava em impor a hegemonia da cultura alemã. Queria que as peças de teatro fossem leves e, de preferência kitsh. E destinou grandes verbas para introduzir a cultura alemã em Paris.
A sedução pela cultura francesa ainda existe em milionários do novo mundo. Um estilista que produz sapatos como Christian Louboutin é também um produtor cultural. Um chefe de cozinha que tem restaurantes em todo mundo também é um fato cultural.
São produtos que você pode consumir, se tiver muito dinheiro, sem grande esforço mental. E são produtos que se compram para anexar à própria imagem o prestigio que eles desfrutam.
Goering escondeu 60 quadros roubados no seu sítio. Queria apenas contemplá-los em segredo. O nazismo representa um momento de bárbarie na história da humanidade. Não serve como parâmetro para definir erros em governos democráticos. Eles queriam dominar o mundo.
Nossos protagonistas queriam apenas fazer parte da elite mundial, frequentar os mesmos lugares que os milionários, usar o mesmo sapato que as estrelas do mundo pop.
É apenas uma patética tentativa de inclusão numa aristocracia cujas bases começam a ser moralmente sacudidas por uma crise econômica de grande dimensão.
Cavendish parecia o mais sensato no final da festa: vamos ganhar algum dinheiro. É tudo que sabem fazer. É tudo que continuarão a fazer num estado que perdeu as referências elementares de respeito as regras de uma democracia social. É estado dos mais espertos, dos malandros e hipócritas em todos os poderes, totalmente alheios ao sofrimento do povo.



4 Comments
A impressão é de chegamos a um estágio de degradação moral que nos coloca diante, à mercê e reféns de falanges de psicopatas perigosíssimo, insensíveis, apaixonados por dinheiro e poder e que fazem qualquer coisa para conseguí-los, sem noção das consequências sociais decorrentes das suas atitudes doentias. E daí, com as nossas críticas, resta-nos a sensação de que estamos trantando apenas com leite câncer bravo instalado na espinha dorsal do Estado. À evidência, o sistema político-partidário-eleitoral está literalmente falido, esgotado, superado, démodé, um instrumento que se tornou imprestável e inservível para com ele chegarmos à Democracia de verdade, posto que restou encalhado na bandidocracia donde jamais arredará pé a depender da vontade, dos interesses e da iniciativa da caciquia partidária de plantão, que só pensa na próxima eleição. E o pior de tudo, é as “novas” eleições já estão aí, sob a égidde das mesmas regras e do mesmo sistema apodrecido. E pior ainda, não serão as útlimas, desgraçadamente. Tem mais jeito não. Agora, a Revolução Pacífica do Leão , a Mega-Solução, com o PNBC e a Meritocracia Eleitoral, é a libertação.
Vai criar um partido político?
Responder
Imagem do avatar Por Luiz Felipe, em 01/05/2012 às 18:22.
@razumikhin . São tantos os partidos, que só em falar em criar mais um já soa como mais picaretagem. Mas o que fazer se todos os que aí estão não dão sequer um que se preste a instrumento do Projeto Novo e Alternativo de Nação e do novo sistema político-partidário-eleitoral ? Ao que parece, estamos sendo obrigados a criar mais um partido, nem que seja um partido-bomba, para implodir essa mervda desse sistema podre que aí está. Onde que arrumariamos Políticos para encabeçar o Partido Novo ? Gostaria de poder contar numa sigla nova com pessoas do quilate de Marina Silva, FHC, Cristovam Buarque, Pedro Taques, Reguffe, Marta e Eduardo Suplicy, Ciro Gomes, Pedro Simon, Gabeira, Heloisa Helena, Fábio Feldman, entre outros do mesmo naipe, mas ainda não sei qual é a desse povo, a que vieram, se estão dispostos a abraçar bandeiras tão inovadoras, corajosas, contundentes e grandiosas como o PNBC e Meritocracia Eleitoral, que de fato resolvem o Brasil, posto que nunca opinaram sobre esses temas. Qual é a sua, opinião, vale a pena criar mais um partido , ou é melhor esquecer tudo isso e cuidar só da própria família ? COMENTÁRIOS FEITO NO SITE OBSERVADOR POLÍTICO, DO FHC.
É preciso que se investigue tambem esta fúria predatória do Eduardo Paes. Qual é o negócio? Destuir para reconstruir e ganhar das empreiteiras? por que não pergunta à população o que ela quer? Tá achando que tá tudo dominado? Um dia a casa cai.
É preciso que o Rio se junte e pergunte ” QUE ME@DA É ESSA? ”
O senhor Paes não termina a obra que veio do antecessor por picuinha e torra o dinheiro em obras que o Rio não precisa. Tem que investigar ele tambem. É tudo cria do Lula.
Não podemos mais ficar calados enquanto estes bregas assaltam o nosso estado.
Fala Garotinho!
[…] por Fernando Gabeira […]