As boas intenções estão levando o governo ao inferno, ou vice versa, o inferno ao governo.
A ANVISA decidiu proibir remédios para emagrecer à base de anfetaminas. O Brasil é o mais consumidor mundial. Hoje, cerca de 16 milhões de pessoas fazem tratamento com eles.
A decisão foi tomada contra a vontade dos médicos que ficaram sem opção de receitas.
Existem muitas maneiras de emagrecer e as revistas e jornais estão cheias de novos métodos. Mas se os médicos e seus clientes optaram pelos remédios, por que interferir nessa decisão. Para salvar vidas?
Se radicalizamos nosso desejo de salvar vidas, vamos banir uma série de atividades de nosso horizonte, inclusive as corridas de Fórmula 1.
Os jornais de tevê mostraram algumas mulheres reclamando dor de cabeça e enjôo, apos o uso dos remédios. Isso prova que eles podem provocar efeitos colaterais. Mas a existência de efeitos colaterais é exclusiva dos remédios à base de anfetamina?
Certamente tudo isso será discutido na justiça. Outro tema transcendente a ser discutido não na justiça, mas no Conar é a propaganda das calcinhas Hope com Gisele Bündchen.
A ministra Iriny Lopes, dos direitos da mulher, resolveu combater a propaganda dizendo que era machista e afirmava o clichê da mulher submissa e etc.
Iriny poderia concluir ao ver o anúncio que a Hope tinha feito uma escolha errada. Ao invés de apostar na independência da mulher, procurou outro caminho. Iriny poderia lamentar baixinho: a Hope perdeu uma grande oportunidade com esse modelo maravilhoso que é Gisele.
O que ela fez? Com sua reação acabou potencializando o anúncio, ampliando o interesse pela marca e franquias para venda da roupa.
Iriny com sua cabeça acabou realizando uma tarefa que o corpo de Gisele sozinho não conseguiria realizar.
Se aplicar suas boas intenções à propaganda que é um setor estética e tecnicamente sofisticado, vai acabar louca e voltar para o Espírito Santo.
Quando suspeitar, por exemplo, de estímulos de sado masoquismo num desfile de lingerie, vai botar a boca no mundo. E dependendo do barulho que faça, suas vizinhas vão despertar usando chicotes e algemas, sem necessáriamente entender o que estão fazendo.
Estou lendo um livro chamado Pornland, da Gail Dines, uma senhora que também faz conferências para demonstrar que a pornografia seqüestrou a sexualidade dos jovens americanos.
Ela é tratada com muita hostilidade em alguns lugares. Mas pelo menos descobriu a razão: as pessoas confundem sua luta contra a pornografia com a luta contra a sexualidade.
Ao invés de examinar teses, as pessoas reagem com os dados que têm e sobretudo por um impulso inconsciente. Elas pensam: Gisele tem cara de quem gosta; a ministra tem cara de quem não gosta.
Irany na sua luta contra o machismo acabou confundida como uma adversária da sexualidade. A ANVISA ao probir os remédios para emagrecer, faz aumentar muito a vontade de comprar remédios para não emburrecer.
Num sábado desses de folga, contarei um pouco a história de Stanislaw Ponte Preta, uma figura do jornalismo brasileiro, que escreveu, entre outros, O Festival de Besteiras que Assola o Pais.
Lalau, esse era seu apelido, atuou durante a ditadura militar. Na época, era perigoso escrever contra. E ele o fez de uma forma bem humorada.
Nada contra Iriny nem contra a ANVISA. Ambas são importantes. É preciso combater o machismo e o exagero nacional no consumo de remédios para emagrecer. Se não fizermos com jeito, o Brasil ficará cheio de bocas de anfetamina, ao lado das bocas de fumo. E de mulheres com calcinhas Hope dizendo que estouraram o cartão de crédito.



4 Comments
Assim como eu estou aqui comentando esse post, hoje todos querem se posicionar sobre qualquer coisa e mostrar a total vigilância pelo que deve ser o aceitável. Perdemos a capacidade de observar, contemplar sem a necessidade de fazer um comentário, e que ele seja público. E que o mundo seja poilticamente correto. Ninguém mais chama loira de loira, negro de negro, purtuga de purtuga, não pode atirar o pau no gato e o humor vive dias de obscurantismo. Artistas não podem falar sobre nada que não seja inofensivo, sob pena de serem expulsos, julgados, condenados. Não pode não gostar da Ivete Sangalo, nem dizer que de calcinha a gente é mais influente e que podemos lidar com efeitos colaterais, mas podem ignorar a opinião dos médicos quando o assunto é exatamente esse, porque alguém quer que seja assim. Isso tudo me lembra alguma coisa…
Foi essa a reflexão que fiz no facebook sobre a publicidade da Hope. Ruim, se fosse deixada por sua própria conta, cairia no esquecimento. Existem mulheres daquele tipo? Existem, mas ninguem vai se tornar assim pela publicidade, nem vai enfiar a carapuça. Meu neto de 12 anos disse que é uma sacanagem e explicou: a mulher daquele jeito faz o homem de idiota. Já é outra perspectiva.
Existe outra publicidade burra que me incomodou. Volkswagen. Um pai levando o filho adolescente à escola. O filho pede para parar antes. O pai pergunta: vc surfa? vc toca guitarra? vc já pegou uma garota? Diante da negativa, diz que ele é que poderia se sentir envergonhado em aparecer com o filho! Puta merda! Que cretinice.
O adolescente não tem vergonha do pai, ele quer se sentir adulto! Ser levado até a porta da escola parece coisa de criança. Só isso.
Em tempo. Convenhamos, Gabeira, esses dois episódios não se constituem em um “festival de besteira que assola o país.” Sou do tempo de Sergio Porto, o querido Stanislaw Ponte Preta, ali sim eram mais do que besteiras que assolavam o país. Lembrei agora da velhinha de Taubaté…
Ô Gabeira. Nesses tempos de pt/pmdb é simples. É so verificar quem da famiglia sarney está ganhando com isso, que a equação está resolvida.