Reportagem que escrevi para o Diário do Comércio em São Paulo e publicada no final de semana
Uma guerra silenciosa entre a expressão artística e a lobotomia percorreu todo o século XX no Brasil. Os troféus da vitória da arte serão mostradas ao público, no Museu Artur Osório, em São Paulo, a ser inaugurado no Complexo do Juqueri.
Cerca de 360 mil obras já estão disponíveis, desde 1952, no Museu das Imagens do Inconsciente, no Rio, onde o combate foi comandado pela Dra. Nise da Silveira.
Juntos, os dois acervos representam não apenas o registro vitorioso da batalha mas revelam ao mundo, artistas que, apesar da doença mental, impressionaram exigentes críticos de arte brasileiros, como o próprio Osório Cesar, que era psiquiatra, Mário Pedrosa e Ferreira Gullar.
Osório Cesar começou seu trabalho em 1923 e se inspirou nas teorias do critico Herbert Read sobre a educação pela arte.
Nise da Silveira, uma estudante franzina, que veio de Alagoas começou em 1925 e foi interrompida por uma prisão durante a ditadura de Vargas. Ela se apoiou na psicanálise, através de seu contato com Karl Jung, ao lado de Freud, um dos nomes importantes na disciplina.
Ao examinar os desenhos de seus pacientes, Nise encontrou um grande numero de formas circulares. Escreveu para Jung , perguntando se essas formas não eram as mandalas, que, no universo simbólico, representam a unidade e o equilíbrio.
A resposta chegou em menos de um mês. Sim havia forças de reconstrução no inconsciente daqueles artistas e elas se manifestavam através das formas circulares.
Nise sentiu-se fortalecida em seu caminho. No início da carreira, condenou as aulas de psiquiatria em que os pacientes eram exibidos como cobaias. E recusou-se a rodar a manivela do choque elétrico, comum na prática psiquiátrica..
A pergunta que Nise da Silveira fez a Karl Jung é um bom roteiro, embora não o único, para se abordar o conjunto dessa obra inspirada pelo inconsciente dos loucos.
Antes mesmo encontro de Nise e Jung, o tema já era discutido na Europa. Luiz Carlos Melo, o sucessor de Nise da Silveira, no comando do museu do Rio, afirma num artigo que um novo modo de ver a loucura foi estimulado pelo romantismo, no final do Século XVIII.
Na Inglaterra e Escócia os doentes desenhavam e pintavam, apenas para efeito de facilitar o diagnóstico.
Segundo Melo, o surgimento do livro de Hans Prinzhorn, em 1922, falando das obras dos loucos de Heildberg vislumbrou também o potencial estético de seus trabalhos.
Artistas como Paul Klee concordaram com a tese. O nazismo, alguns anos mais tarde, por ordem de Joseph Goebels fechou a clínica, associando a produção dos loucos com a pintura moderna, como prova de decadência .
Curiosamente, , Artur Osório associou os loucos com o surrealismo para acentuar o contrario de Goebels a vitalidade da expressão artística dos internos do Juqueri.
Os conhecimentos do psiquiatra paulista no campo estético permitiram estabelecer a unidade entre o que se fazia dentro e fora dos hospícios.
A luta entre unidade e fragmentação é também uma presença constante na obra dos loucos. No pintor Otávio Inácio, um dos mais destacados entre os pacientes do Rio, é o tema central.
Ele achava que o ser humano tinha uma parte animal e pintava figuras com patas e pés. Sentia-se dividido entre o lado masculino e feminino e pintava figura com duas faces.
Otávio Inácio, segundo conta Luis Carlos Melo, tinha medo de expor suas obras porque achava que todos ressaltariam seu lado feminino, que tentou suprimir na vida cotidiana, casando e tendo filhos.
Nise da Silveira não usava a arte apenas para ajudar aos pacientes. Ela gostava de animais e os acolhia, facilitando o contato dos loucos com cães e gatos.
Ela recebeu um cachorro doente que foi adotado por um louco. Na medida em que o cachorro melhorava, seu dono também dava sinais de melhora.
Num tempo de violência contra os pacientes, o carinho humano mostrou-se também inovador no caso de uma paciente considerada agressiva.
No dia em que alguém foi buscá-la para as aulas de pintura, abriu um guarda chuva para protegê-la da garoa que caia. Não deu mais sinais de agressividade..
Uma das estrelas do acervo no Rio é a pintora Adelina Gomes. Ela não cumprimentava Nise da Silveira. Mas alguém a viu jogando um beijo, quando a a psiquiatra passou por ela.
Nise soube da história e passou a beijar Adelina, ao invés de apenas cumprimentá-la. Isto contribuiu para que se expressasse melhor e pintasse quadros admirados em vários lugares do mundo.
Quando Nise introduziu animais domesticos no tratamento, os adversários de seu método usaram até o envenenamento de cães, para sabotá-la.
O caso mais conhecido de um louco que se tornou artista é o de Artur Bispo do Rosário. Ele era interno da Colônia Juliano Moreira, no Rio.
Não teve a ajuda de médicos extraordinários como Nise ou Artur Osório. Sozinho, durante sete anos que estava trancado num cubículo, tentou reconstruir o mundo com materiais que obtinha ali. Desfiava uniformes dos internos e recompunha bandeiras e os lugares por onde passou.
Sua obra mais conhecida é o manto que teceu para usar quando entrasse no céu. O conheci na década de 80 e o entrevistei longamente. Nossa entrevista foi realizada ao longo de um tabuleiro de xadrez que ele mesmo concebeu, criando as figuras e as regras do jogo.
Quando o entrevistei, não estava mais trancado. Podia sair para o pátio, onde desfilou com seu manto, diante de pacientes imersos no seu mundo, alheios ao homem de barbicha com a roupa pesada e colorida.
O trabalho de Artur Bispo do Rosário é mantido à parte na Colônia Juliano Moreira e representa também uma nova frente das imagens da loucura. Não é aberto ao público mas já foi exposto na Bienal de São Paulo.
Tanto os museus do Rio e São Paulo, que levam o nome de Nise da Silveira e Artur Osório, artífices dessa revolução silenciosa, foram concebidos como museus vivos: os ateliês continuam a funcionar e produção de obras de obras de arte continua pelo Século XXI.
Os adversários agora não são mais a coma insulínica, o choque elétrico e a lobotomia, mas o excesso de medicamentos que mantêm os pacientes dopados.
A vitória nunca foi completa. Mesmo porque,no passado, alguns dos grandes artistas como escultor Lúcio, no Rio, a pintora Aurora, em São Paulo, foram lobotimizados, depois de revelarem seu talento.
Novos artistas sugiram, alguns trabalham até hoje, como Enio Sérgio, cujas imagens serão usadas na camiseta do bloco de carnaval do Centro Psiquiátrico Nise da Siveira que desfila todos os anos, mesclando pacientes enfermeiros e museólogos e amigos do Museu.
Este ano, o desfile está marcado para 16 de fevereiro. Há sempre o que comemorar, sobretudo depois dos tempos sombrios, descritos assim por Lúcio, o escultor lobotomizado:
“Enfiaram uns ferros na minha cabeça e transformaram a luta do bem contra a mal numa luta de cachorro e gato”.
Nise da Silveira, morta em 1999, e Artur Osório, morto em 1980 conseguiram impedir que os grandes conflitos mentais se transformassem, pela cirurgia, numa luta entre gato e rato.
Esses conflitos produziram museus vivos que, ao lado da obra de Artur Bispo do Rosário expressam um testemunho brasileiro do sofrimento humano e sua transfiguração em arte.









5 Comments
Amei tudo que li.Aprendi muita coisa…De onde menos se espera…é que vem….Arte é vida…vida é arte…A dr*Nise da Silveira aderiu ao método do amor,acima de tudo…O amor é uma energia muito poderoza…
Cara!!!!!!!!!! cada vez que eu leio um texto como esse, eu fico imaginando como seria este nosso País, se uma boa parte da população tivesse acesso e compreendesse o quanto este nosso Brasil é abençoado, em abril estreará Xingu falando dos personagens extrordinários, os Irmãos Villas-Bôas, quem sabe poderão um dia Homanegear esta extrordinária Mulher a Dra Nise da Silveira e fechando este círculo de Humanistas Brasileiros o Marechal Rondon. Bravo! Grande Gabeira e agradeço por este maravilhoso, estupendo texto!
Porque não consigo Compartilhar no facebook, vcs podem verificar senão tem alguma coisa impedindo, pois em outros sites consigo compartilhar!
Os loucos somos nós quando negamos que existam outras lógicas e outras racionalidades além das que nos são comuns. Aqui mais um artista para adicionar a este pequeno acervo maravilhoso: http://en.wikipedia.org/wiki/Adolf_W%C3%B6lfli
Olá,
Sugiro uma visita ao Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro para conhecer o trabalho excepcional do Grupo Harmonia Enlouquece.
Lançaram no dia 10 seu 3º CD.
Saudações.