Gostaria muito de analisar este carnaval, do ponto de vista da capacidade do Rio em abrigar grandes festas de massa. É difícil. Leio hoje meu amigo Arnaldo Jabor descrevendo o carnaval brasileiro como uma grande maravilha, exaltando as multidões que dançam e insinuando que no Brasil o povo é alegre e a elite deprimida. Jabor chega a atribuir a AIDS às festas de granfinos em Nova York, esquecendo sua origem histórica. Tudo bem, ele vive uma fase de paixão pelo Brasil e um deslumbramento pela nova presidente, chamada por Sérgio Cabral, de “a presidente Lula”.
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, que está com a mão na massa, tem posição mais realista. Assim como alguns visitantes mais observadores, ele constata que a cidade está no limite. No transporte coletivo, isto fica evidente pela ação dos taxis bandalhas, pela insuficiência dos ônibus e metrô. Este ano, nos dois primeiros dias, foram detidas 606 pessoas fazendo xixi na rua, o dobro do ano passado. Jabor pode achar que o sexo coletivo no mato é mais emocionante que nas grande metrópoles, mas o cheiro de xixi é universal.
Quando você olha as coisas de um certo jeito, acaba parecendo os europeus que nos visitavam nos séculos passados e registravam os cheiros: dendê, peixe frito, suor, urina. O trabalho pode ser confundido, realmente como Jabor o descreve, com uma démarche do indivíduo reprimido pela educação, querendo colocar freios na realidade incontrolável da vida.
Mas esse novo e grandioso país que Jabor exalta, é o mesmo que aumentou a produção de carros em 20 por cento ao ano, o mesmo que os vendeu em até 70 prestações. Grande movimentos de massa sem preparação adequada significam o caos urbano.
Tudo bem, diriam os defensores de um carnaval selvagem. São apenas quatro dias, um feriado maior que os outros. Acontece que nesses feriados prolongados, há gente que precisa trabalhar, ir ao hospital, visitar amigos. A grande maioria esbanjando felicidade e vertendo nas ruas litros e litros da cerveja consumida, não precisa conter sua alegria: apenas abrir caminho para uma organização que garanta os direitos da minoria.
Fala-se tanto em alegria popular, mas as páginas de jornais estão repletas de celebridades, as mesmas que Jabor afirma serem parte das elites deprimidas; os blocos da Zona Sul do Rio, inseridos na geografia da depressão, foram os mais animados.
O ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nquema, se divertiu muito. Ele é acusado até de canibalismo, além de monopolizar com sua família, o dinheiro do petróleo do pais. No camarote, serviam-se champagne e caldo de feijão. Diante dele, um deprimido mandatário com US$600 milhões no bolso, as massas populares festejaram sua inesgotável alegria.


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