A faixa de 800 quilômetros do litoral brasileiro dedicada à exploração do petróleo na camada pré-sal é o habitat de 47 das 59 espécies em extinção no país.
Esta é uma conclusão de uma pesquisa, realizada por várias entidades, entre elas a Fundação Mata Atlântica.
Por outro lado, cientistas da Universidade de Concepción, no Chile, constataram que o Brasil quase nada sabe de seu litoral, exceto nas pesquisas realizadas com protozoários que anunciam a presença de petróleo.
Um dos pesquisadores brasileiros, Ronaldo Francini Filho, da Universidade da Paraíba, calcula que o Brasil conhece apenas 200 das 1,5 mil que existem aqui.
Paradoxalmente, a prospecção e retirada do petróleo a seis quilômetros de profundidade é uma conquista do conhecimento humano.
Ela vai colocar este pedaço do oceano Atlântico numa situação de stress como nunca conheceu, desde sua formação quando os continentes se separaram.
A camada pré-sal não é chamada assim porque o sal está por cima da terra nas profundezas. A denominação se refere à terra que existia na superfície, antes que se formasse a densa camada de sal, mais tarde encoberta pelas águas.
A faixa da exploração é de 800 km de extensão por 200 de largura, passando por quatro estados, Santa Catarina, São Paulo, Rio e Espírito Santo.
A promessa do pré-sal está mudando a face do litoral do sudeste brasileiro. No litoral fluminense, turismo, pesca e petróleo já convivem num equilíbrio delicado.
No mercado de peixes de São Pedro da Aldeia ainda era possível encontrar pargo, um dos peixes ameaçados de extinção. Eles estão menores do que antes. Da mesma forma, alguns tipos de arraia ainda aparecem com frequência, assim como os tubarões cujas arcadas são uma espécie de amuleto nas peixarias.
Mas entre as arraias, a chamada arraia-serra, e entre os tubarões, o anjo e o listrado, estão na lista dos que podem desaparecer.
A desaparição progressiva desses peixes não tem relação com o petróleo.
Contribuíram para a queda: a poluição em alta escala, a sobrepesca, a pesca do arrastão e o turismo.
Ao lado do cais, de onde partem os barcos de turismo, há o novo Porto do Forno, construído para a logística do pré-sal. As embarcações industriais e de turismo se cruzam constantemente.
Famoso por suas áreas de mergulho e belezas naturais, Arraial já vive alguns problemas. Durante a construção do porto, constatou-se que as ruas eram estreitas para os caminhões que chegariam ali.
Agora, o Porto do Forno hospeda uma barcaça chamada Kugira, que usa uma técnica espanhola para produzir estruturas de concreto para o quebra-mar do Porto de Açu.
Nuvens de poeira erguem-se da área de operação da barcaça. A população já se queixava da poeira do malte, importado por uma fábrica de cervejas do Rio. Os grãos são levados por uma esteira ao ar livre e há sempre vento para dispersá-los.
O desastre com a plataforma da Chevron, em novembro de 2011, foi um sinal de alerta sobre os perigos do pré-sal. Na área do vazamento de óleo causado pela empresa americana passam golfinhos e baleias em busca de seus refúgios.
Como nos EUA, com o vazamento na plataforma Deep Water Horizon, viu-se que a fiscalização ainda precisa avançar muito para estar à altura do desafio.
O Brasil criou um dispositivo para licenciar as atividades no mar. Pertence ao IBAMA e deve ser estimulado pela atual Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Ela é especialista no tema e fez sua tese de doutorado sobre ele.
Outro instrumento com que o país conta é a estrutura da Petrobras, construída pelo Pegaso (Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional), que custou R$1,4 bilhão.
Com dez postos avançados a empresa tem condições de atuar em caso de acidente, não só no Brasil como em outros países da América Latina.
Em Arraial do Cabo há um Museu do Mar, reforçando uma antiga tendência na Marinha no sentido de pesquisar o potencial do oceano.
Excetuando o que interessa ao petróleo, a pesquisa científica nos oceanos avançou pouco. Ela pode apontar os caminhos da preservação e também descobrir potenciais econômicos.
O Brasil terá de discutir os oceanos uma vez que a ONU colocou o tema na pauta da Conferência Rio+20 que se realiza em 2012.
O país prometeu, na Convenção da Diversidade Biológica, proteger 10 por cento dos seus mares. Até o momento, só cobre um por cento da área prometida.
O governo do Rio procura fazer a mediação entre as indústrias do petróleo, da pesca e do turismo. O Secretário de Meio Ambiente, Carlos Minc, conseguiu evitar a ampliação de um terminal na entrada da Ilha Grande, com argumentos a favor do turismo.
O número de turistas que chegam ao Rio está em torno de três milhões por ano, devendo crescer com a Copa do Mundo e Olimpíadas. Os royalties do petróleo rendem R$9 bilhões.
Em cidades como Macaé, o petróleo já domina a paisagem do litoral. Com 206 mil habitantes, a cidade tem favelas controladas por traficantes armados.
Os hotéis que surgem, alguns de cadeias internacionais, são voltados para a indústria do petróleo.
Em Arraial do Cabo, onde o turismo é mais popular, estruturas metálicas e grandes navios coexistem com a beleza das ilhas e grutas oceânicas.
Angra, o lugar de refúgio de veranistas de alta renda, foi marcada pela construção do complexo nuclear. No núcleo urbano tem 146 mil moradores vivendo em área de risco.
A convivência do petróleo, turismo e pesca é dinâmica. Quem viu o litoral fluminense há uma década, fica surpreso com as mudanças. Como será daqui a dez anos, é uma grande incógnita.
Reportagem publicada no Diário do Comércio – 16/01/2012





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