Nos 50 anos da renúncia de Jânio Quadros, o tema da faxina ética no governo continua em foco. O símbolo da campanha de Jânio era precisamente uma vassoura.
Jânio usava o tema para suas conquistas eleitorais. Assim como Collor usou “a luta contra os marajás “ para se projetar nacionalmente.
Os velhos temas continuam de pé: denúncias de corrupção, supersalários. A Presidente Dilma Rousseff tem demonstrado um desconforto com a expressão faxina ética.
Pessoalmente, também não gosto da expressão. Com mais um n, a faxina étnica foi uma das piores experiências da humanidade após a fragmentação da antiga Iugoslávia.
Dilma prefere a expressão faxina contra a pobreza, que também não é muito feliz. Mas deixando um pouco de lado as palavras e avançando para os fatos, vemos que Dilma procura descrever o que acontece, com suas próprias palavras: erros que surgem aqui e ali e são corrigidos prontamente.
Nessa descrição repousa uma das divergências entre Dilma e os que tentam conduzi-la à liderança da luta contra a corrupção. Para ela, são fatos isolados, acidentes de percurso no caminho de um governo que reduzirá a pobreza.
Mas tanto a Frente Parlamentar como articulistas e entrevistados vêem a corrupção como algo sistêmico, decorrente das características do chamado presidencialismo de coalizão.
Minha previsão é a de que Dilma não aceitará esse tipo de liderança que atribuem a ela. Governos não aceitam a ideia de corrupção sistêmica, pois teriam de se reformar, como conseqüência.
Mas, as vezes, a sociedade no seu esforço, consegue fazer com o tema entre na agenda de forma decisiva, como acontece agora na Índia.
O primeiro ministro Manmohan Singh tratava a corrupção de forma limitada mas o movimento liderado por Anna Hazare acabou impondo um debate que vai até à criação de uma agencia independente para apurar os desvios.
Dilma jamais aceitou que houvesse um processo de luta contra a corrupção em curso, pois isso mudaria suas prioridades e marcaria a gestão anterior de Lula com o estigma de uma herança maldita.
Ela sempre aceitou as demissões de seus ministros e procurou substitui-los rapidamente. Jamais recebeu os senadores da frente criada para apoiá-la. Da mesma forma, jamais se mostrou orgulhosa, publicamente, de estar desfazendo esquemas corruptos no interior do governo.
A política de Dilma é a demitir ministros e funcionários quando as denúncias se tornarem indefensáveis. Falando francamente, ela não lidera nenhum tipo de luta contra a corrupção, apenas reage quando não há mais outro caminho.
No entanto, jornais e tribunas continuam cheios de entrevistados apoiando a “a faxina da Presidente Dilma”. Por mais que pareça uma reação da sociedade, no fundo é uma forma de se resignar.
Toda a energia está sendo concentrada numa líder que não se interessa em realizar a tarefa desejada pelos liderados.
Estamos todos nos enganando, ou é isso mesmo? A sociedade apoia Dilma na sua faxina e ela, por sua vez, rejeita a palavra e diz que não há faxina.
Talvez seja esse o arranjo ideal. Ele nos dá a possibilidade de apoiar o governo e, simultaneamente, combater a corrupção com nosso discurso.
Dilma deixa bem claro que não há luta sistemática contra corrupção e sim contra a pobreza. A insistência em envolvê-la não resultará em grandes progressos.
A luta contra a corrupção na Índia, com forma que não vingam em nossa cultura, como a greve de fome, vem da própria sociedade. Não há esperança de converter Singh, como se espera converter Dilma.
A luta na Índia é canalizada para a aprovação de uma lei e a criação de uma agência independente.
Toda vez que alguém escreve sobre a faxina da presidente Dilma, ficará sempre a interrogação: que presidente, a da sua fantasia, ou a Dilma real que vemos nos discursos públicos?
Fantasiar uma Dilma de mentirinha, significa também levar uma luta de mentirinha contra a corrupção.
Há 50 anos, Jânio renunciava e mostrava como era falsa sua disposição de ir até o final com a bandeira que o elegeu.
Agora, Dilma é bastante clara ao rejeitar essa bandeira. Parte do Brasil consegue concentrar sua esperança, meio século depois, numa presidente que não considera o problema algo digno de suas prioridades.
Em matéria de esperança, somos imbatíveis.Para curar nossos males confiamos, há meio século, num charlatão; agora, desviamos nossos anseios, para alguém que afirma que não é médico e além do mais não gosta da profissão.



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