No momento em que deixo o Atlântico pelo Pacífico, o Rio por Lima, olho com alguma preocupação para Copacabana, a praia que é muitas vezes confundida com própria imagem da cidade.
Rubem Braga escreveu a célebre crônica Ai de Ti Copacabana, uma visão apocalíptica do bairro que seria tragado pela sua dissolução moral.
Copacabana, embora ainda visitada por estrangeiros e com algumas área boêmias, o bairro é principalmente habitado por pessoas idosas.
O que se esperava nas crônicas do passado não vai acontecer: os problemas agora são a corrente de ar, os buracos na rua, o atendimento aos idosos que não podem sair de casa -algo bem diferente do previsto por Rubem Braga.
Nesse fim de semana, entretanto, exatamente porque o bairro é povoado por idosos, a ressaca foi causa de inquietação.
Recebi algumas ligações de gente que viu a água entrar na garagem dos prédios. Oito quiosques da orla foram fechados e o próprio projeto que os desenhou terá de ser repensado porque os subterrâneos inundaram.
Um morador disse que nunca viu ressaca tão forte os 20 anos de observação. Tudo isso mostra como estamos ainda um pouco atrasados na formulação de uma preparação do litoral para o futuro.
Os cientistas prevêem uma elevação de quase meio metro no nível do mar, ao longo dos anos. Há dois anos, cheguei a contatar os holandeses e formular um projeto de pesquisa em Pernambuco, depois de visitar as praias de Boa Viagem, Jaboatão e Paulista. Ali, o avanço do mar é inquestionável.
Foi apenas uma ressaca, eu sei. Mas é importante usar esta experiência para reavaliar nossa cultura litorânea. Os quiosques do Rio foram construídos, por exemplo, como se tudo isso não fosse acontecer. E, acidentalmente, aconteceu.



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