Rio Claro – Ao invés de especular em casa sobre a morte do jornalista Valério Nascimento, resolvi percorrer os 300 kilômetros, ida e volta, para ver de perto o que aconteceu com ele. Trabalhava com o modelo do recente atentado contra o blogueiro Ricardo Gama, que faz oposição ao governo.
A situação de Valério Nascimento, editor do periódico Panorama Geral, que foi publicado apenas quatro vezes, é muito diferente. Ele era um governista ostensivo e na janela de sua casa, em Lídice, distrito de Rio Claro, tinha um grande cartaz com Lula, Dilma, Cabral e Picianni, este último candidato do PMDB do Rio ao Senado. Além disso, a cerca da casa de Rogério era feita com restos de cartazes da última campanha eleitoral, mostrando o ecletismo de suas contribuições.
Ele era um modesto cabo eleitoral e não tinha nenhum segredo para contar. Se o tivesse, o segredo continuaria a existir depois da publicação no Panorama Geral, que nem era distribuido regularmente.
Valério é originário de Pernambuco, trabalhou vendendo limão em feira livre, participou de cooperativas de vans e aprendeu comunicação no jornal Maré de Angra dos Reis. Não há nenhuma denúncia nos quatro números de seu jornal, exceto a informação de que a Câmara de Bananal criou uma CPI para investigar o prefeito, David Moraes.
A hipótese de um crime político é práticamente inexistente. Algumas pessoas mencionaram a possibilidade de ter sido morto por pequenos traficantes de droga. Ele distribuia o jornal Maré e no Panorama Geral publicava materias sobre o tráfico na região. Traficante não costumam reagir a jornais nem usar espingardas de caça: ele morreu com espingardas que disparam esses cartuchos de papelão.
A casa de Valério tem muitas teias de aranha, maracujá apodrecendo na escada e o pátio inferior é uma grande desordem. Garrafas vazias de uisque, pacotes de jornais, bicicleta soterrada por entulhos, é dificil imaginar que ele vivia ali.
Segundo um dos seus amigos, vinha apenas para dormir. A casa era uma espécie de depósito do jornal e funcionava talvez como um comitê eleitoral, em época de campanha.
O delegado Marco Antônio é otimista quanto à possibilidade de se descobrir o assassino. No estado do Rio, o índice de êxito na solução de assassinatos é de 7% . Em Barra Mansa, um dos inspetores que trabalham com ele, conseguiu resolver 60 % dos crimes.
Depois de examinar a parte inferior da casa, apesar da profunda desordem, cheguei à conclusão de que não houve luta. Valério foi atingido no pescoço e nas costas. Possivelmente, atendeu a alguém que conhecia, levou o primeiro tiro e ao tentar correr para dentro de casa, foi atingido nas costas.
Os três veículos estavam fechados. Um gol cinza com a inscrição imprensa, um Prisma preto e um ônibus escolar bem velho, que pertenceu a um deputado.
O delegado Marco Antônio passou todas as suas coordenadas e disse que vai manter uma informação permanente sobre as investigações. O tipo de arma e as circunstâncias parecem indicar um crime mais banal do que um atentado à liberdade de imprensa. Mas sem conferir no lugar e sem acompanhar as investigações não dá para concluir nada.



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