Os números sobre a economia brasileira, divulgados ontem pelo IBGE, dão margem a muitas interpretações. Você pode dizer com eles que o Brasil está experimentando um crescimento chinês, com quase oito por cento agora em 2010. Ou. usando apenas o último trimestre, dizer que está havendo uma desaceleração do crescimento e ele vai cair para 7,5 por cento. Ou finalmente afirmar que a média de crescimento no governo Lula, 4 por cento ano, foi inferior aos dos países emergentes e ao crescimento médio na America Latina.
Enfim há material para a euforia, para indicar uma tendência de queda no último trimestre, e também material para combater a euforia: afinal, o crescimento brasileiro, num período de expansão mundial, ficou abaixo dos seus similares, seja no conceito de emergente, seja no espaço geográfico latino-americano.
Tudo isso vale para discursos na tribuna do parlamento. Mas há inquietações que deveriam ser respondidas com estudos discretos e aprofundados. Por exemplo: se o consumo das famílias está crescendo, até que ponto esse dínamo não pode esbarrar nos gargalos de infraestrutura? A produção industrial perde fôlego diante do crescimento das importações? Até que ponto a questão cambial vai determinar nosso futuro? Em outras palavras, como vamos suportar a fragilidade do dólar, facilitando compras no exterior e diminuindo a competitividade nacional? Esta última interrogação é um problema que não depende apenas de nós: é a questão do momento nas conferências internacionais.
No fundo, estamos perguntando se o crescimento é sustentável, entendido aí no sentido econômico estreito: vai ou não continuar? Existe outro tipo de sustentabilidade, a ambiental, que está sendo discutido em Cancún. Lá o Brasil aparece bem, como o país que melhor caminha na proteção ambiental, num ranking mundial em que os três primeiros colocados estão em branco, pois nenhum conseguiu alcançar as condições para ocupá-lo. O Brasil está em quarto lugar, na frente de todos os outros, atrás apenas dos primeiros lugares em branco, figurando estes como modelos que não foram atingidos.
O Brasil é o único país emergente que adotou metas de redução de emissões. Até que ponto nossa redução se fará apenas com o trabalho contra o desmatamento, quando será resultado de mudanças reais na produção?
Enfim, crescer, estamos crescendo. É hora de discutir dois tipos de sustentabilidade. A econômica para evitar o já conhecido vôo da galinha, que sobe e desce alguns centímetros adiante, e a ambiental, que significa mudar também a forma de produzir.
A propósito, hoje estarei na noite de autógrafos de José Roberto Giosa que escreveu um livro sobre a indústria de reciclagem no Brasil.
Clique para ler aqui 0 artigo de Agostinho Vieira sobre o livro e o tema.



3 Comments
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Eu nunca me iludi com o “espetaculo do crescimento”.
Mesmo criticado quando arguia sobre a diferença de crescimeto do Brasil em relaçao ao
de outros paises em condiçoes semelhantes, nao ignorei o crescimento do pais
mas ele nao foi nenhum espetaculo, se comparado ao senario exerno.
Os numeros que este governo[?] apresenta sempre dão margem a varias interpretações afinal não é um governo[?] serio.Não obstante, existe uma defasagem entre os estudos do IBGE e a conjuntura internacional que tb é muito volatil,afinal vivemos em um mundo onde tudo é possivel e sobretudo sujeito a chuvas e trovoadas e etc….etc….
No caso brasileiro é dificil imaginar um crescimento vez que não dispomos de condições de infra estrutura para atingir um crescimento sustentavel.É uma questão de logistica inexistente.Os nossos portos,rodovias,a nossa capacidade de gerar energia são precários e isso gera gargalos que dificultam o crescimento e a competitividade de nossa industria e com isso diminuindo nossa capacidade de expansão!