Entrei na Disney russa atrás da única diversão possível: uma boa água gelada
No restaurante do hotel, tocava “Mas que nada”, no café da manhã. Mas estava cheio de uruguaios. Eles se enfrentam no sábado com os portugueses. Entre vizinhos e ancestrais, meu coração balança.
Meu programa de ontem foi conhecer o Sochi Park, chamado de Disneylândia da Rússia. Não sei se é correto denominar tudo aqui com referências ocidentais. Com medo de me entediar num parque infantil, procurei uma aventura matinal: ir de ônibus, numa viagem que demora um pouco mais de uma hora. Custei a achar o ponto e o número do ônibus que me levaria lá. É o 124. Precisava saber o preço — 120 rublos, cerca de R$ 8 — para não criar confusão na entrada.
Os ônibus que fazem a linha são pequenos, levam umas 30 pessoas sentadas. E muitas de pé. No intenso calor, consegui um lugar perto do motorista, naquela parte que separa sua cadeira do corredor. Havia uma senhora sentada ali, e ela me convidou para partilhar o espaço, meio incômodo, sem encosto, mas ao menos sentado.
O problema é que não há trocadores nem cartões. As pessoas pagam direto ao motorista. Elas me passavam o dinheiro, e eu o repassava a ele. Virei uma espécie de trocador. O motorista era experiente: as notas deslizavam facilmente dos meus dedos para os dele. O difícil era repassar as moedas do troco para pessoas de pé, equilíbrio precário, as mãos trêmulas.
Creio que cumpri minha função, às vezes apertando a pequena câmera entre as pernas. Era um trocador de bermudas e sandália havaiana. Lembrei-me do PSOL e sorri. O partido apresentou um projeto revivendo a profissão de trocador nos ônibus do Rio. É isso aí, companheiro. Pelo menos alguém se lembrou de nós.
De vez em quando, perguntava à vizinha se não estava longe. Depois de algum tempo, as costas doem e é preciso manter a postura. Não estávamos longe. Vi a estação de Adler, reconheci parte do roteiro que estudei na internet.
Ao chegarmos ao Sochi Park, próximo ao estádio de futebol onde uruguaios e portugueses vão torcer amanhã, espantei-me com o preço do ingresso. Eram mais ou menos 30 dólares. Busquei o dinheiro na carteira. O sol era violento. A moça do caixa perguntou minha idade: 77. Ela balançou a cabeça maternalmente e disse: “o senhor não paga. Passe-me o passaporte”.
Ato contínuo, me deu um formulário, enquanto levava o documento para o interior de sua barraca. Lá estava eu, sol na cabeça, formulário em russo, sem caneta no bolso. Quase implorei para pagar. Afinal, já tinha economizado o táxi, trabalhara a manhã inteira como trocador do 124.
Finalmente, ela saiu triunfante com uma cópia do documento, um sorriso e o ingresso: “tenha um bom dia”. “E o documento?”, perguntei. Ela bateu com a mão na cabeça e voltou rápido para a máquina, onde ficara o passaporte. “Aqui está.”
Entrei no parque procurando a única diversão que poderia me ajudar: uma boa água gelada. O Sochi Park é uma construção imponente. Todos os canteiros são floridos. Vê-se que não havia vegetação por ali, tudo foi plantado com carinho. Deparei-me com dois grandes ursos feitos de grama e percebi que boa parte das diversões envolvia água. Felizmente.
Havia também brinquedos que excitam: uma espécie de foguete que sobe vários metros com as pessoas amarradas, carrinhos que deslizam numa alta estrutura em espiral. Toda a superfície é de cimento, e realmente o calor que vinha de baixo não era de brinquedo. Resolvi fotografar os garotos que navegam num pequeno barco cheio de canhões de água. Eles me viram, não deu outra: apontaram os canhões em minha direção. Protegi a câmera e saí agradecido.
Só visualmente seria possível mostrar o volume de investimento e a sofisticação das construções do Sochi Park. Talvez não seja justo chamá-lo de Disneylândia. É outra coisa, algo singular deles.
Essa história da oposição Ocidente-Oriente é um pouco cansativa. Fala-se muito aqui em decadência ocidental, mas as pessoas fazem seu discurso na tevê com roupas de grife. Em quase todos os restaurantes e hotéis, rola música americana, um pouco raramente a brasileira. As camisetas têm inscrição em inglês. Todos os toldos dos bares na Sochi Park são anúncios da Coca-Cola.
Mas agora é hora de voltar ao hotel, antes que os uruguaios devorem todo o bufê. Lembro-me da tristeza de termos perdido para eles em 1950. Era menino e sofri muito. Ao contrário da morte de Getúlio, em 1954. Suspenderam as aulas, e gritamos “oba”.
Artigo publicado no O Globo em 29/06/2018



