DIARIO DA CRISE
Muitas vezes usei esse título Diário da Crise para enfeixar um conjunto de artigos e reflexões. Volto a ele agora num contexto em que não só a crise é dramática mas minha mobilidade foi reduzida radicalmente pelo isolamento social. Sou do grupo de risco.
Dois artigos me estimularam a iniciar essas reflexões. Um deles o de Yuval Noah Harari no Financial Times, o outro de Demétrio Magnoli, na Folha de São Paulo.
Harari adverte para a possibilidade da epidemia aumentar o controle cibernético dos governos sobre a vida do indivíduo. Ele acha que o esforço central deve ser feito no sentido de aumentar o controle do indivíduo sobre as ações do governo.
Já existe hoje na internet um nível de controle sobre nossas decisões: escolher uma emissora de tevê, comprar um produto, pesquisar sobre determinado tem – tudo são dados que levam a um controle maior sobre nossa intimidade.
Harari lembra, no entanto, que tosse e febre são elementos biológicos cujo controle pode levar o governo para dentro do nosso corpo, inclusive de emoções como raiva, empatia.
Ele vê uma diferença nítida entre o controle autoritário e um processo em que pessoas informadas cooperam com o governo num momento de crise epidemiológica. Cita, como possível alternativa, o que se passou em Taiwan, Singapura e Coreia do Sul.
E adverte, usando o exemplo de Israel, que governos quando adquirem poderes especiais numa crise, relutam em descartá-los uma vez passado o perigo.
Demétrio Magnoli além de criticar o possivel flerte com o Grande Irmão, o controle eletrônico de nossos passos, questiona também o fundamentalismo científico e as medidas radicais que dele decorrem, como o lockdown, a interrupção da esmagora maioria das atividades econômicas.
Magnoli teme que essas medidas expressem apenas o interesse das classes médias que têm cartão de crédito, pode trabalhar em regime de home office, mas esquece garçons, motoristas, pedreiros e a multidão de informais.
São artigos que me fazem redobrar os cuidados sobre o que penso e escrevo e advertem para perigos que não podem ser subestimados: o controle profundo de nossas vidas pessoais pelo governo e também as injustiças sociais e potencial de revolta que uma escolha elitista de lockdown implica.
São artigos que na verdade me apontam para mais deveres de casa, antes de chegar a ter propostas. Um deles é examinar como as coisas foram conduzidas realmente nos países democráticos da Asia, uma vez que o exemplo chinês, desde o princípio, teve um caráter autoritário.
O outro é examinar alternativas que combatam simultaneamente o coronavirus mas não acentuem as dificuldades econômicas de um amplo setor da população que já está mergulhada nelas em tempos por assim dizer normais.
O artigo de Harari não responde, creio que não era essa a sua intenção, uma pergunta importante para mim. Como, numa epidemia devastadora, investir melhor os limitados recursos do governo sem ampliar seu nível de informação? Quais são os limites que precisam ser respeitados nessa esforço necessário?
No Brasil, duas pessoas contaminadas fugiram depois que souberam do resultado de seu exame positivo para o coronavirus. Controlar seus movimentos pelo celular seria uma invasão de sua privacidade?
Da mesma forma, haveria alternativas para reduzir um grande número de mortes sem o lockdown? A Alemanha seguiu um caminho diferente, mas tem uma disponibilidade grande de respiradores e UTIs.
Aqui, dizem os epidemiologistas, que se não conseguirmos atenuar a curva do crescimento da doença o colapso dos serviços de saúde será devastador.
Sou contra também falar de guerra. No entanto, alguns dispositivos que foram utilizados em guerra poderiam ser colocados em funcionamento.
Nessa semana por exemplo, algumas empresas vão alterar sua linha de produção para garantir mais sabão. Parte da indústria textil deve se voltar para as máscaras e outros equipamentos como aventais descartáveis .
Nada disso, no entanto, resolve a questão do grande número de pessoas que ficarão sem renda. Na Escandinavia a proteção é mais ampla. A Dinamarca, por exemplo, está garantindo os salários.
Terminei um artigo no Estadão enfatizando a necessidade de um amparo aos trabalhadores informais. Logo em seguida, a proposta do governo brasileiro de oferecer R$200 por mês foi frustrante.
Estamos diante de terríveis opções. Em caso de colapso do sistema de saúde, escolher quem deve morrer. Em caso de lockdown arrasar a vida de milhões de trabalhadores sem os recursos da classe média.
Só um profundo processo de transferência de renda poderia responder de uma forma mais ou menos satisfatória a esse dilema.
Ele existe no momento em forma de doações de empresas ou mesmo de alguns milionários. Mas isso arranha apenas a superfície do problema.

