Hoje é domingo, ou foi domingo, não sei bem. O sol já desaparece e não ouvi os clássicos gritos de gol do passado, quando havia jogos de futebol.
Sei que continuam a aparecer na televisão, mas são reprises, ninguém comemora o que já está cansado de saber.
Saí apenas uma vez na quarentena. Fui tomar vacina num posto na entrada do túnel da Barra. De um modo geral, faço esse trecho pela ciclovia. Mas fui de taxi, com a janela aberta. Na saáda do Posto de Saúde vazio, vi um morador de rua comendo um sanduíche.
Lembrei-me dos moradores de rua de Ipanema. Conheço muitos, alguns fotografo em vários momentos de sua vida. Não sei por onde andam. Dizem que as ruas estão cheias de mendigos.
Não sei por onde anda Ana, uma loira que sempre andou pelo bairro. Ela é conhecida de todos. Teve problemas mentais mas segue, felizmente, no bairro onde sempre morou. Estava magra quando a vi antes da quarentena. Esquelética, para dizer a verdade. Mas sorriu para mim e trocamos algumas frases. Eu a fotografei com duas flores cor de rosa no cabelo, como se fossem gigantescos brincos.
Espero que esteja viva e bem. Sua condição é especial. Moradores de rua mais pobres têm desaparecido muito nos últimos tempos, antes mesmo desse vírus.
Observo pelos números e pela leitura que o vírus está se deslocando em São Paulo e no Rio dos bairros de classe media para as regiões mais pobres.
Todos sabemos que nelas, é mais difícil o isolamento social e mesmo as medidas de higiene. Uma comunidade como a Rocinha tem um índice de tuberculose 11 vezes maior que a média nacional. E lá moram 100 mil pessoas, segundo alguns cálculos, em torno de 70 mil segundo outros.
Em São Paulo está morrendo muito gente em casa, na medida em que a doença se alastra na periferia. Sempre morreu gente em casa. Mas agora são em torno de 120 por dia, o dobro da media.
O Ministro da Saúde parece um pouco perdido, inclusive nos números. E o presidente insensível à tragédia está preocupado com a temperatura da piscina, com o filho que transa com meio condomínio e o controle da PF.
Não quero nem falar da economia: desemprego, salários reduzidos, empresas falindo.
Mas foi um domingo ensolarado e ouço ao longe o grito animado das crianças. Na Espanha, elas voltam amanhã às escolas.
Aos poucos, vamos retomar o cotidiano. Não posso reclamar da quarentena. Prefiro trabalhar andando, subindo e descendo morro, dormindo em hóteis de beira de estrada e comendo em restaurantes sospechosos.
Mas teve que ser assim. E até que estou produzindo na reclusão. Esta semana, num momento vago, escrevi um artigo para a Crusoé para comemorar o aniversário de Brasilia . Trabalhei 16 anos por lá.
Estou compartilhando o artigo, pode ser que interesse a vocês.
Um discreto aniversário
Vivi 16 anos em Brasília e a conheci em círculos como se jogasse uma pedra no lago.
Meu horizonte era apenas um pedaço do Plano Piloto e isso me levou a um grande equívoco. Numa entrevista à Playboy disse que Brasilia tinha apenas putas e lobistas. Foi um pequeno escândalo. Visitei o então governador Arruda e pedi desculpas públicas. Parece bizarro mas era o meu modo de fazer política.
No discurso de Juscelino, sou dos que ainda se lembram da sua figura sorridente, ele afirmou que Brasília era uma ruptura com a rotina e o compromisso.
Não a sentia assim. As cidades povoadas pela burocracia tendem a ser monótonas. Além disso, havia o rígido planejamento definindo as quadras e suas funções.
Acostumado a outros lugares, não compreendia bem que as farmácias estivessem numa quadra, temia uma especialização tão grande que certos objetos singulares seriam impossíveis de encontrar.
Felizmente descobri a Feira do Paraguai que dissolve essa lógica e nela poderia encontrar muito do que procurava.
Fui descobrindo também o pequeno comércio nas quadras, as barracas de quentinha, as costureiras que pregavam botão e consertavam a roupa rasgada.
Usava motocicleta, deslocava-me muito facilmente. Era possível inclusive descansar alguns minutos após o almoço.
No principio, enfrentei a cidade de bicicleta. Havia uma pequena montanha entre a Câmara e meu hotel. Parava na base para tomar fôlego e as putas gritavam: força deputado.
Foi nesses noites meio desertas de Brasilia, lembrando-me também de algumas cidades europeias que tive uma intuição e a audácia de expressá-la num debate em torno do filósofo alemão Peter Sloterdijk em São Paulo: o futuro das ruas será dos entregadores de pizza.
Jamais imaginei que minhas previsões fossem subitamente cumpridas. Não posso imaginar como está Brasilia na quarentena.
Sempre que muda o governo, muda a corte. Costumo ouvir os moradores estáveis sobre a nova corte. Um deles é meu querido amigo Orlando Brito cujas lentes contam para mim as principais histórias da cidade.
Não posso imaginar como está Brasilia nesse aniversário. Meu amigo Orlando Brito continua cobrindo os acontecimentos e temo por ele e outros jornalistas pois a extrema direita resolveu atacá-los fisicamente.
De longe, comemoro o aniversário de Brasilia, cidade que aprendi a gostar e onde vivi bons momentos. Sei que as cortes passam e as pessoas queridas ficam assim como o encanto dos grandes parques e imensidão do planalto.

