Andei escrevendo esse artigo para publicar em jornal. Mas a demissão do Sérgio Moro e tudo o mais me fizeram produzir um novo texto, bastante diferente, focado na crise. Este que está aí é um pouco mais leve e também um pouco longo. Desculpem a a sensação de leveza. Já fiz comentários hoje na tevê e segunda sai no Globo um artigo mais sisudo. Entendem como uma digressão, o autor sextou.
O virus da nostalgia
Fernando Gabeira
Devia levar mais a sério tudo isso que está acontecendo no governo. Os teóricos comunistas acham que o vírus é revolucionário. Os bolsonaristas acreditam. Mas o vírus no governo Bolsonaro traz uma onda saudosista: liberais contra estatizantes, tentativa de intervenção na PF, retorno de fantasmas como Roberto Jeferson e Waldemar Costa Neto, abandono das promessas anticorrupção, como Collor e Lula. Na política brasileira, o vírus simplesmente envelhece.
Por falar em velhos, um amigo com quem convivo há mais de meio século, confessou, pelo telefone, que deu uma saída para caminhar.
A coluna, você sabe, o médico recomenda.
Pedi cuidado pois há uma carrocinha recolhendo velhos. Se o levarem, não posso buscá-lo no depósito, pois também ficaria.
Esta semana senti um inconveniente bom humor. Creio que isso tenha acontecido com outras pessoas, num período de guerra. Não me influenciou apenas a beleza dos dias de abril no Rio, indiferente à tragédia.
Um amigo e parceiro de trabalho depois de duas semanas entubado, voltou a respirar sem aparelho. Todos os dias mandava uma mensagem para seu telefone. Dizia apenas a hora e o dia da semana e reafirmava a esperança de que aquilo passaria , ele voltaria à vida , ao convívio da família, ao trabalho. Foi um momento de grande felicidade, mesmo sabendo que, no mesmo dia, morrera muita gente.
Todos estamos enlutados, de alguma forma. Perdemos entes queridos, sonhos, empregos, pequenas alegrias cotidianas.
Eu mesmo sinto que uma parte do meu futuro foi amputada. Mas como aquelas pessoas que usam preto durante algum tempo, começo a olhar o guarda roupa, flertar com alguma discreta cor.
Sei como tudo será muito difícil. As vezes limpo minhas câmeras e tenho a vontade de dizer: meninas, conto com vocês na batalha que virá. Claro que pretendo ser mais atento ao foco, mais preciso na medida da luz, mais original na composição.
Da mesma forma, olho o computador e os pequenos cadernos e penso: terei de ser mais claro, direto, mais essencial nos escritos. Enfim, terei de avançar muito mesmo porque meus planos são terrivelmente anticomerciais, sobreviver apenas, com alguma decência.
No passado, muitos leitores ainda nem tinham nascido, as empresas nos disputavam , pagavam altos salários. Tínhamos a impressão de que quanto melhores fossemos mais generosamente seriamos recompensados. Como jogadores de futebol, guardadas as proporções.
Felizmente para mim esse elo se quebrou. A constante busca por uma melhor qualidade tem menos a ver com dinheiro do que uma sinceridade visceral, trabalhar apenas, limar palavras e imagens, sem medo: avançar enfim para a batalha inevitavelmente perdida.
Espero que os espaços onde trabalho sobrevivam a mim: as editoras de livro, heroicas como os jornais. Para aumentar minha alegria, minha editora deu sinal verde para mais um livro que poucos vão ler, um diálogo imaginário com viajantes no Brasil do Século XIX.
Só eu mesmo me interesso em saber como Rugendas protegia suas telas com a chuva, sem o plástico com que envolvo hoje minha câmera; como o Principe Maxilimiano aguentava aquelas roupas pesadas, se mesmo de bermudas sinto um calor sufocante.
Ah, sim, há o Bolsonaro, Moro, inquéritos policiais. Semana que vem recomeço. Mas dessa vez com o foco nítido. Invejo as pessoas que fazem yoga, aprendem uma língua e trocam receitas na quarentena.
Quase não tenho tempo. É tudo trabalho e voltado para o coronavírus. A frase mais comum é essa: pouco sabemos sobre o coronavírus. Se num estágio em que pouco sabemos, a informação me ultrapassa, imagino quando realmente soubermos algo.
As perguntas me soterram: por que algumas pessoas morrem outras não, em que momento exato é necessário cuidado hospitalar, que peso tem a carga viral na gravidade dos casos, que nível de propagação haveria se todos usassem máscara, o vírus estava no mercado de Wuhan ou escapou do laboratório ali perto? Quais foram as grandes bombas biológicas: as viagens do Ano Novo Lunar na China, a grande manifestação feminista na Espanha, o carnaval em Nova Orleans, a partida entre o Atalanta e o Valência?

