Pensei em escrever algumas histórias de velhos amigos nesses tempos. Algumas engraçadas, outras épicas como a sobrevivência depois de semanas de entubamento. Aliás, escreve-se também intubamento. Vivendo e aprendendo ou melhor sobrevivendo e aprendendo.
Mas o virus revela sintomas nostálgicos e, realmente, inesperados: transformou o governo superliberal de Bolsonaro num aparato de maior intervenção do Estado. E como se não bastasse mandou para os ares a cruzada anticorrupção, aproximando Bolsonaro dos velhos cavaleiros do apocalipse: Roberto Jefferson, Waldemar Costa Neto, Gilberto Kassab.
No momento em que escrevo, ainda não se sabe se Sérgio Moro também foi para o espaço no mesmo foguete que levou Mandetta e ainda tem um lugar para Paulo Guedes. Mas tudo indica que o diretor da Polícia Federal será demitido.
Alguns teóricos que não conseguiram emplacar nem a classe operária nem o lumpenproletariado como agentes revolucionários, contam agora com o vírus para mudar o mundo, no sentido que querem.
Quem ainda acredita neles é o Ministro das Relações Exteriores que vê o coronavírus como o comunavírus, que projeta a globalização em níveis maiores, aprisiona as pessoas em suas quarentenas domésticas.
Mas o que o vírus está fazendo com o governo Bolsonaro não é de nada de novo para quem segue a política brasileira. A discussão entre liberais e estatizantes é uma velha conhecida.
Da mesma forma, a quimera da luta contra a corrupção estava presente nos projetos de Collor e Lula.
Seria algo novo presidentes buscarem os deputados de Centrão para garantir seus projetos no Congresso?
Por acaso é a primeira vez que ouvimos sobre a tentativa de um Presidente mexer no comando da PF para neutralizar investigações que o incomodam? Nesse momento, incomodam a Bolsonaro as investigacões sobre os grupos que pedem o AI5, com quem se encontrou diante do QG do Exército, no domingo.
De um modo geral, presidentes envelhecem rapidamente no exercicio dos cargos. O governo Bolsonaro parece que contou com um maquiador e resolveu acentuar mais ainda o lento trabalho do tempo.
Dito isso, voltarei a trabalhar nos artigos de sempre.

