
Como avaliar a viagem de Dilma Rousseff à China? As interpretações são contraditórias e, pelo tom de algumas emissoras, conquistamos duas vitórias: exportar carne de porco e receber um parque de montagem de tablets.
O editorial do Estado de São Paulo lembra com propriedade uma presidente não viaja apenas para vender costeletas e lombinhos. E José Serra revela em seu artigo que importamos 97 por cento de manufaturados da China e exportamos apenas 7 por cento. Isso constitui segundo ele o que chamávamos no passado uma relação de centro e periferia.
Os tablets no Brasil, registra Carlos Alberto Sardenberg, têm pelo menos a virtude de criar empregos, embora continuem a serem desenhados na Califórnia, berço da Apple. E a construção de aviões brasileiros na China já estava acontecendo, mas a partir de agora tem mais garantias.
Observando o discurso da presidente Dilma, vê-se que ela tentou mandou algumas mensagens para os chineses. A mais importante delas, referindo-se possívelmente ao valor artificial da moeda chinesa, é de que o interesse coletivo deve predominar sobre o interesse nacional.
Os chineses ouvem e concordam. Mas isso não os modifica. O historiador brasileiro Eric Von Bussche, da Universidade Stanford, mas no momento vivendo em Taiwan, tenta explicar os chineses, afirmando que suas promessas não valem muito.
Na opinião dele, a China se considera uma potência mundial e o avalia o Brasil como uma potência regional. Ela só levará a sério o Brasil na medida em que sua influência se estender aos outros países do continente. No momento, os chineses querem do Brasil o que buscam na África: materia para seu crescimento, alimento para suas grandes massas humanas.
O historiador lembra que numa viagem de Lula à China foi prometido apoio à entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Mas logo em seguida, a China atuou para conservar as estruturas do órgao internacional. Portanto, não se deve levar a sério a promessa chinesa.
O grande impasse na China para mudar o Conselho de Segurança é a entrada do Japão. As autoridades chinesas temem que o Japão se associe aos Estados Unidos e que o próprio povo chinês considere uma traição permitir a entrada do antigo rival asiático.
Viagens não costumam ser milagrosas. O Brasil quer exportar mais manufaturados; a China quer importar alimentos e material prima. Cada traz uma cenoura para atrair o outro. A cenoura brasileira é reconhecer a China como uma economia de mercado; a chinesa, é admitir a entrada do Brasil no Conselho de Segurança.
O problema é que a cenoura brasileira é mais substancial porque trata de economia; a chinesa é política e mais abstrata. O Brasil já reconheceu a China como economia de mercado, falta apenas formalizar. Isto quer dizer que parte da cenoura brasileira já foi comida pelos chineses, extremamente habilidosas nas negociações internacionais.
Dilma fez o discurso correto e obteve aquilo que poderia obter nas circunstâncias. Tudo muito mais modesto que nos faz crer a propaganda oficial.


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