Uma das notícias mais importantes da semana foi a divulgação de uma pesquisa da Fiocruz sobre a presença de variantes de coronavírus no Brasil.
Elas foram detectadas em sete estados pesquisados e, em alguns deles, já são francamente majoritárias nos exames colhidos.
Estados como o Ceará e Paraná já apresentam uma presença de 70 por cento dessas mutações, cuja variante mais temida e, infelizmente, mais numerosa, é a chamada P1, a que circula na Amazônia.
Estados como o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul registram, nos exames colhidos, uma presença de 62 por cento das mutações. Alagoas tem um pouco menos, 42 por cento e Minas Gerais 32,3 por cento.
Se minha leitura é correta, os exames revelam que a transmissão nesse nível já é rastreamento teria pouca utilidade para deter o vírus mutante.
O que interessa agora é reforçar medidas de seguranças, válidas para qualquer mutação (máscaras, isolamento e álcool gel) e avançar nas pesquisas sobre os efeitos da vacina sobre essas mutações que, de um modo geral, são mudanças na proteína S, de Spike, aqueles pequenos espetos que aparecem na imagem do coronavírus. Através deles, o vírus se integra às células do organismo humano.
Hoje, o governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, afirmou que essa nova onda da covid-19 faz a do ano passado parecer uma marola.
Muito possivelmente essa rapidez de propagação e intensidade da carga viral podem estar associadas às mutações.
Quando os japoneses sequenciaram o vírus, ele já circulava no Amazonas. Pazuello não deu bola. Seria preciso fechar aeroportos, estimular barreiras sanitárias nas divisas com outros estados, controlar seriamente as rodovias federais.
O que fez na verdade foi deslocar doentes de Manaus para outros estados, sem esquema específico de segurança. Além disso, os pacientes com mais recursos alugavam jatinhos e buscavam socorro nos grandes hospitais do Sudeste.
Não sei se o vírus escaparia de qualquer maneira, se é justo culpar apenas o descaso do governo. Muito provavelmente ele sairia do Amazonas mas daria ao resto do país a possibilidade de detectá-lo e rastreá-lo, como fazem hoje ingleses e americanos. Sim porque o chamado vírus de Manaus já circula por lá, juntamente com as variantes inglesas e da África do Sul.
O Valor Econômico publica matéria dizendo que o Ministério da Saúde prevê 3 mil mortes diárias no final de março. Esta perspectiva coincide com a opinião de alguns cientistas como Miguel Nicolelis. A diferença é que os cientistas acham que é possível evitar com medidas drásticas: o governo, não. Os estados vivem à exaustão de seus recursos médicos e têm dificuldades para impor medidas restritivas de grande alcance.
Não vejo como sair dessa, apenas intensificando a vacinação. Precisamos de mais doses. O governo anunciou hoje um acordo com a Moderna. Mas a Moderna estava trabalhando essa vacina desde o ano passado. Perdemos muito tempo.
Resta-nos apenas pedir socorro internacionalmente. O Brasil aparece nos principais jornais do mundo como uma região perigosa, uma espécie de celeiro de novas mutações, ameaçadoras para a
humanidade.
Se você pedir a Bolsonaro para comprar vacinas, ele vai responder: só se for na casa da sua mãe. Será difícil fazer mudá-lo de estratégia, ele é dessas pessoas ignorantes que ficam zangadas quando alguém indica uma luz. O pior é que muitos brasileiros ainda pensam como ele.

