Grosseria presidencial

Num dos momentos mais infelizes – e olha que foram muitos… -, o presidente Lula fez ontem, num discurso, uma grosseria com a Secretaria de Estado americana, Hillary Clinton. Lula disse que a recebeu apenas por deferência a Celso Amorim, uma vez que por uma questão hierárquica não tem nada a discutir com ela. “Quando o presidente Obama vier ao Brasil, então discutirei com ele”, concluiu.

E olhem que o discurso de Lula começou exatamente tratando do chamado completo de vira latas brasileiro. Lula se apresenta como a própria superação desse complexo, mas acaba com seu gesto demonstrando exatamente o contrário do que queria afirmar: um ressentimento que só pode brotar de uma sensação de inferioridade.

Um presidente do Brasil, sempre que possível, deve receber chanceleres e aprender alguma coisa com eles. Jamais deve fazer referência pública depreciativa a um desses encontros. Mandela recebe até hoje jogadores de futebol do Brasil, reservas ou titulares.

É muito raro, quase impossível, um Presidente da República ser descortês em público com um dignatário estrangeiro, seja ele norte-americano, suíço ou guatemalteco. Só um processo psicológico muito especial pode explicar esta vontade de se vangloriar em público, depreciando o outro, no caso a mulher que é recebida com seriedade por qualquer dirigente mundial.

Clique e leia:  “Lula diz que imprensa foi subserviente com Hillary” (Estado de São Paulo)

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A campanha nos jornais

O Globo anunciou que a senadora Marina Silva lançou minha précandidatura ao governo do Rio, no sábado. Era apenas uma reunião do Partido Verde. Potencial candidato de uma coligação, como deixaria de fora os outros partidos?

No dia anterior, O Globo afirmou que Marina Silva lançou sua précandidatura à Presidência em São Gonçalo e notou minha ausência. Claro que não estava lá. Não sabia que iria haver lançamento. Nem a própria Marina  sabia, pois estivemos juntos duas horas antes da cerimônia na Câmara de Vereadores em São Gonçalo.

Como uma candidata a presidente iria lançar sua candidatura sem comunicar ao aliado que disputará o cargo de governo? Interessante acompanhar a cobertura das eleições, desde o princípio. É um bom documento para a história do jornalismo brasileiro.

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O Rio e as chuvas

Se os cariocas pararem para pensar na chuva de sábado vão ficar preocupados. Vulnerabilidade urbana é a palavra para definir o que aconteceu. O Túnel Rebouças com inúmeras familias aprisionadas, o rio Maracanã transbordou, a Praça da Bandeira submergiu. Foram inúmeros carros perdidos, seis vidas levadas pelo desabamento, ônibus parados despejando passageiros na torrente de água suja e possivelmente contaminada.

Não choveu uma fração do que tem chovido em São Paulo. Mas ficou evidente que a cidade não está preparada para as chuvas nem está se preparando adequadamente.  As obras que atenuam o impacto das águas, limpeza de bueiros por exemplo, são invisíveis e praticamente nulas em termos eleitorais ou de imagem.

No mês passado, uma pesquisa da própria Prefeitura indicava que 98 por cento das ruas do Rio têm problemas, ou estão simplesmente esburacadas. Isto um ano depois da posse de Eduardo Paes. Creio que reside nesses pequenos detalhes a diferença na política. Quando apenas imagem e carreira estão em jogo, a tendência é se concentrar nelas, deixando de lado questões estratégicas como a preparação para mudanças climáticas, ou mesmo na ausência delas, temporais que acontecem sob qualquer temperatura.

A cidade deveria apresentar um plano  para suas áreas de risco, encaminhar urgentemente o trabalho de preparação. As Olimpíadas estão longe, a Copa do Mundo nem tanto. Mas os olhares do mundo já nos focalizam e o que vêem não é nada animador.

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Um desastre ambiental

Manhã de domingo na Lagoa. Já se contavam quase 70 toneladas de peixe morto. Uma pena. O pior é que não consegui, depois de falar com muita gente, saber exatamente a causa desse desastre ambiental. Velhos pescadores dizem que faltou oxigênio por falta de renovação das águas. Alguns técnicos falam na proliferação de algas. Acho difícil esta hipótese. As algas não matariam de uma só vez. A súbita falta de oxigênio sim.

Creio que as fotos falam por si. Não explicam a causa mas dão a dimensão da tragédia. Numa delas, o estádio de remo está no fundo, lembrando das Olimpíadas.

Será preciso rever essa história da recuperação da Lagoa. Não pode se limitar à limpeza. É preciso contratar biólogos que a monitorem com freqüência, é preciso administrar a troca das águas. Preservar a Lagoa é algo mais sério que puro marketing.

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Triste dia na Lagoa

Foi triste caminhar pela Lagoa na manhã de sábado. O cheiro insuportável e superfície da água coalhada prateadas e brilhantes, 35 toneladas de peixe sendo recolhidas gradativamente pela Prefeitura.

Ainda há dúvidas sobre a causa. Fala-se em mudança brusca de temperatura, em proliferação de algas e até de despejo de esgotos. De fato, houve uma súbita proliferação de algas. Mas o monitoramento deveria ter previsto esse processo. Às vezes nunca se pode evitar mas é possível fazer alguma coisa para atenuar o impacto do desastre ambiental.

A Lagoa estava em processo de recuperação. Um barco limpeza percorre suas águas. Mas até que ponto, estamos nos dotando dos instrumentos exatos para monitorar e prever? Esta questão fica em aberto e seria interessante respondê-la bem antes da Olimpíadas. A área da Lagoa diante do Estádio de Remo foi atingida. Numa semana como esta, dificilmente poderia haver algum tipo de competição. Seria devastador para o espírito olímpico.

É preciso avaliar os instrumentos disponíveis e ver o que é preciso mais para que certas mudanças sejam acompanhadas de muito perto e o sinal amarelo aceso no momento exato. A Lagoa melhorou mas há muito o que fazer ainda. As manchas prateadas com centenas de peixes mortos, o cheiro que dominou toda a orla são um clamor por avanços no tratamento da Lagoa.

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Uma posição indigna do Brasil

A reação do presidente Lula à morte do prisioneiro cubano Orlando Zapata é indigna do Brasil. Lula afirmou que ele se deixou morrer e que não mediou o caso porque nenhum pedido foi protocolado no Planalto. Um absurdo esperar que prisioneiros morrendo em greve de fome, protocolem pedidos. O mais absurdo é a defesa do presidente de sua “alma solidária”.

Na entrevista, concedida em Havana, algumas horas depois do encontro com Fidel Castro, Lula afirmou que já intercedeu para acabar com a greve de fome dos sequestradores de Abílio Diniz. E intercedeu ligando para o presidente Fernando Henrique com o argumento de que FHC não poderia manchar sua biografia com a morte daqueles prisioneiros.

Implicitamente, admite que Fidel e Raul mancharam suas biografias com a morte de Orlando Zapata. Lula jamais chegaria a esta conclusão. O erro de Zapata foi não tê-lo procurado adequadamente. A morte dos sequestradores de Abílio Diniz manchariam a biografia de Fernando Henrique, mas as de Fidel e Raul são inatingíveis porque a morte de um prisioneiro de consciência não tem esse poder.

Vidas humanas diferentes, valores diferentes na opinião de Lula. Sequestradores de Diniz ao morrer deixariam um rastro de vergonha sobre o governo brasileiro; um prisioneiro de consciência ao morrer em Cuba deixa um rastro de vergonha sobre sua própria biografia. Orlando Zapata resistiu 62 dias. Foi assassinado pela insensibilidade do regime cubano.

Este Brasil em nome do qual Lula falou em Cuba não é o país com que me identifico. Ele ganhou as eleições, é verdade, mas não para fazer uma política externa de partido, no caso o PT, mas fazer uma política externa em nome de todos os brasileiros. Os que, realmente, consideram os direitos humanos uma luta sem fronteiras ideológicas, sentem-se envergonhados com a posição de Lula.

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Silêncio brasileiro em Cuba

No momento em que Lula e sua comitiva desembarcam em Havana, morre numa greve de fome o prisioneiro político Orlando Zapata Tamaya.

É um fato gravíssimo que coloca em suspenso a posição brasileira sobre direitos humanos. Lula deve silenciar sobre o tema? Deve ouvir o apelo de 50 presos políticos que pedem ajuda ao Brasil?

Na minha opinião, independente da esquerda e da imprensa brasileira, é um fato escandaloso. A própria mãe de Orlando Zapata, Reina Tamaya afirmou que seu filho foi assassinado na cadeia, pois, uma longa greve de fome poderia ter esse desfecho somente com a indiferença do governo.

É a segunda vez, desde 1972, que um prisioneiro morre fazendo greve de fome em Cuba. O primeiro foi Pedro Luis Boitel, que fez oposição à ditadura de Batista e, depois, ao governo de Fídel Castro.

O silêncio brasileiro diante da morte de um prisioneiro em Cuba reflete apenas uma longa distorção no modo como se aborda o problema de direitos humanos. Numa ditadura de direita, qualquer violência é denunciada; numa ditadura de esquerda qualquer violência é apenas uma necessidade histórica.

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O real começo de ano

Por um erro de link, o post publicado ontem, dia 22 de fevereiro, estava errado. Segue abaixo o texto correto.

No Brasil, o ano começa mesmo depois do carnaval. O que vai determinar 2010, em condições normais, é a eleição. Nos anos eleitorais tudo passa a ser visto sob esta ótica. O mosquito da dengue, por exemplo, é o mesmo. Mas suas aparições em anos eleitorais são banhadas por uma nova luz, com promessas de lado a lado. A prevenção é anunciada como grande política, mas, apesar dela, a dengue avança em vários pontos do país, inclusive com tipos novos para os quais ainda não há imunidade.

Outro aspecto que o ano eleitoral coloca  é a necessidade de ver os atos do governo com novo olhar. No Estado do Rio, por exemplo, vai se criar um tribunal só para contas dos municípios. De um modo geral, são cargos novos criados para atender a políticos que não se acomodaram nas coligações eleitorais.

Portanto, o ano que começa não é igual aos outros. E um ano eleitoral, igual aos anos eleitorais, com muita demagogia, movimentos suspeitos. O fato de o governo do Rio ter previsto uma verba de R$180 milhões para publicidade é um bom indicativo de como se movem as máquinas no principio de uma campanha. Vamos estar atentos a tudo, tentando entender e explicar. Nesse começo, basta levar em conta este detalhe: os movimentos políticos estão voltados para a escolha de outubro.

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Choque e xixi

choquexixi

O chamado choque de ordem no Rio é algo que deveria ser um pouco mais discutido. Não e possível alterar a ordem urbana sem pedagogia e infraestrutura, contando apenas com a a repressão. A cidade parece ter entendido isto no carnaval ao colocar os banheiros químicos à disposição dos foliões. Mas os colocou em número tão pequeno e em condições tão precárias que o xixi acabou sendo um personagem do carnaval, com mais de 300 prisões e inúmeros artigos de jornal.

Construções como os Arcos da Lapa parecem ameaçadas pelo ácido da urina e, como se não bastasse, pelo ácido dos detergentes aplicados para neutralizar o xixi.  A hora, antevéspera da Copa do Mundo e Olimpíadas, é de tentar resolver este problema de uma forma durável e adulta, sem esse espetáculo de guardas correndo atrás de mijões e banheiros químicos que horrorizam os transeuntes com seu cheiro.

É preciso uma política que passe pelo desenho de banheiros públicos que possam ser construídos e patrocinados por empresas, por um estímulo aos bares e restaurantes, sobretudo os primeiros, para a construção de banheiros adequados. Interessa a algumas empresas patrocinar banheiros limpos, assim como uma ligeira dedução do IPTU para efeito de remodelação dos banheiros em bares, restaurantes e lojas.

Só  um processo planejado de médio prazo poderá superar, duplamente, a desordem urbana e a limitação mental dos que a combatem . Não  é bom para o Rio que as pessoas façam xixi na rua; mas é  ruim também para nossa imagem nacional e internacional que a prática seja combatida de uma forma tão desastrada. Por que não apresentar um projeto mais amplo? Por que limitar-se ao espasmo do carnaval, tornando o desejo de limpeza numa galhofa?

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O caminho de Brasília

bsbponte

Desde o inicio do escândalo, a solução para o problema de Brasília era clara. O governador Arruda estava envolvido, o vice Paulo Otávio citado em inúmeras gravações, a Câmara Distrital tem um número muito reduzido de deputados confiáveis. A crise iria se desenrolar passo a passo. Depois de Arruda, a pressão se faria sobre Paulo Otávio e quando este caísse, o país acabaria conhecendo melhor a Câmara que existe em Brasília.

Interessante no Brasil como as soluções mais simples demoram a chegar. Lula teria de indicar um sucessor e o PT ganharia, indiretamente, as rédeas do Distrito Federal. E daí? De certa meneira, o PT já é vitorioso pois ganhou uma bandeira de luta contra a corrupção que o remete aos velhos tempos e também lhe dá uma possibilidade de mascarar os novos tempos, os oito anos de governo.

Se não houver intervenção federal, a mobilização em Brasília vai ser permanente, entrando no ano eleitoral. O único problema é encontrar candidatos que não tenham se envolvido, de uma forma ou de outra, com o processo de degradação da política na capital.

Arruda está preso durante o carnaval. Há quatro pedidos de impeachment contra o vice, Paulo Otávio. A solução da crise está muito distante e só a proposta do Procurador Geral da República, a intervenção federal, abre um caminho realmente novo. Mas dada a qualidade da vida política em Brasília, a força do populismo que se baseia na legalização de terrenos ocupados, talvez a solução seja apenas de uma crise. Outras virão no horizonte e, dessa forma, lenta e sofrida, a democracia vai amadurecer no Planalto Central.

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