Revisitar os bairros de Campo Grande e Caleme foi uma etapa importante nesse balanço dos cem dias da tragédia na serra fluminense. A data é na sexta-feira mas este é um trabalho em progresso. Fui diretamente ao objetivo sem tratar ainda da tensão que existe na cidade. Importantes setores acusam o prefeito Jorge Mário Sedlacek, do PT, de inércia, irregularidades e enriquecimento ilícito.
Na semana passada, houve manifestação de 300 pessoas pedindo sua renúncia. Os documentos que apresentam contra o prefeito foram entregues à uma CPI da Assembléia.
Antes de me ocupar dos documentos e os conflitos com o governo, queria rever Campo Grande, um bairro atingido por toneladas e toneladas de pedras. E o Caleme, onde documentei a retirada de um corpo , talvez o último encontrado lá.
Refiz minha caminhada, detendo-me em cada prédio num trajeto que termina no velho ponto final do ônibus, onde quase tudo está como no primeiro dia. Havia um homem com caminhão, retirando ferro velho, um casal de motociclistas e uma menina com seus pais. Ela trazia uma flor na mão e veio ver como ficou destruída a casa de sua tia.
Se há mesmo uma educação pelas pedras, o que aprendi nessa volta a Campo Grande é que as casas dos que ainda têm recursos estão sendo recuperadas num esforço individual. Campo Grande mesmo, a comunidade de umas 800 casas, é hoje um bairro fantasma. Andar por ele, sem os temores da nova tempestade como em janeiro, é quase uma invasão de privacidade. As casas foram destruidas mas é possível ver até a preferência musical de seus antigos moradores. Genival Lacerda aparece numa das capas de disco que encontrei num dos escombros.
O governo de Teresópolis está fazendo muito pouco. Onde vi movimento de reconstrução e limpeza foi no sitio São Francisco de Assis, onde um trator e um caminhão trabalhavam. A ponte, na frente da igreja, está sendo reconstruída por dois moradores. Toneladas e toneladas de pedra estão sendo retirados por dois homens apenas: Neném das Pedras e seu irmão Beto. Nem dez gerações da família serão suficientes para a tarefa. A dupla é paga também por moradores que se cotizam para oferecer um salário de R$750.
Em muitas casas havia gente trabalhando. Rita Ferreira de Lima, dona do sitio Araponga, estava apenas com mais ajudante tentando tirar pedras. Ela passou um longo tempo sem água e luz e vive sozinho com o pai de 88 anos. Sua casa é bonita, branca, no alto de uma colina. Perguntei pela piscina, por onde passei no dia em que subi. Estava cheia de lama. A piscina foi recuperada.
O encontro com objetos e equipamentos coletivos foi estranho. O ponto de ônibus que estava semi destruído no dia das chuvas, tornou-se um monte de metais retorcidos parecendo uma aeronave de outro planeta que explodiu em Campo Grande. O telefone público continua azul mas está cheio de areia. Uma antena de televisão capta o vazio. Um carro capotado está ao lado de um sofá e duas almofadas que não estavam ali antes. As combinações de escombros, as alianças que se formam entre metais panos e pedras se multiplicam.
A luz foi restabelecida. Água no ponto alto não chega. Existem nascentes e algumas pessoas como Rita tem poço em casa. Mas eles foram todos lançados alguns atrás. O ônibus que chegava até no alto já não vai mais lá. Não há passageiros.
Um dos moradores que está reconstruindo sua casa, disse que paga R$1600 reais de IPTU por ano. No vidro do seu carro há o cartaz do movimento contra o prefeito: Renuncia Mário Jorge.
Amanhã encerro a série de visitas com uma ida a Petrópolis, Vale do Cuiabá, e talvez Bom Jardim. Na quinta, trabalharei os documentos sobre a reconstrução e no domingo publico a reportagem, que terá um pouco mais do que esses posts. Em paralelo, documentei visualmente o novo momento e procurei também as imagens da época para reproduzi-las agora. Não sei bem o que farei com tudo. Certamente isso me ajudará a lembrar. Não esquecer já ajuda.






5 Comments
Caro Gabeira;
Sei de sua preocupação com a Regiaõ Serrana do Rio, principalmente com a minha cidade de Teresópolis. Hoje quando falamos em Campo Grande, Posse, falamos exclusivamente de bairros que foram afetados quase que totalmente. Mais de 3 mil pessoas moravam entre a Posse e Campo Grande. Vossa senhoria que é muito mais inteligente que eu, um mero estudante de Jornalismo, pergunto-o: cadê estas pessoas? Valas comuns? Não foram. Há nos “anais” da prefeitura que foram feitos até hoje 389 sepultamentos.
Precisava arrumar um site que me dê um número exato de pessoas que alí moravam, estou montando a minha monografia em cima deste fato trágico que me fez acordar para a vida.
Forte abraço revolucionário!
Geizon Corrêa
Trabalhei em janeiro ai como voluntario e posso dizer que esta a mesma coisa ainda, campo grande e Caleme foram bairros muito afetados, posse tambem ficou muito destruida, não sei se la ainda esta como antes, espero que alguem tome uma providencia
Seria interessante construir uma timeline com Fukushima e comparar…
Gostaria de saber aonde vai ser publicada essa reportagem domingo. Vai ser no Estadão? Gostaria muito de ler. E quero aqui, parabeniza-lo pela entrevista a Marilia Gabriela. Para mim, o Rio perdeu muito. Mas que fazer?
[…] Published Teresópolis, a tragédia revisitada. […]