A prisão de 65 PMs na Baixada Fluminense , na semana passada, teve repercussão nas ruas. Houve quem achasse que revel um processo de depuração natural e o fato é animador.
Mas houve também quem tenha se desolado com as prisões, reagindo com a frase: está tudo dominado.
O êxito de uma investigação desse alcance é positivo. Mas a quantidade de PMs envolvidos nos faz indagar se não existe algo de errado com a corporação no Rio.
De um modo geral, encaramos esses casos de corrupção como consequência dos baixos salários, um problema real que precisa ser resolvido, com ou sem a chamada PEC 300. Esta medida iria igualar o salários dos PMs de todo Brasil aos de Brasília, cujo piso é R$3.200.
Mas os baixos salários não explicam tudo. Alguns oficiais também foram acusados: eles ganham mais. Deputados ganham muito bem e volta e meia são colhidos vendendo votos e outras maracutaias.
O contato de policiais com traficantes é um perigo em toda parte. Na Colômbia, onde andei fazendo reportagem, o chefe de combate ao grupo de Pablo Escobar acabou aderindo a ele e dirigindo sua segurança pessoal.
A capacidade de coptação do tráfico de drogas é muito grande. É preciso mais do que um salário digno para enfrentá-lo. É preciso também um processo de formação adequado.
Ainda assim, com essas duas condições resolvidas, a capacidade de fascínio do tráfico de drogas e outros crimes rentáveis continua sendo alta.
Recentemente, foi denunciada corrupção em vários projetos sociais, inclusive Minha Casa e Minha Vida, infiltrado pelo tráfico de drogas.
A sensação que se tem é uma corrupção generalizada, uma espécie de salve-se quem puder. A descoberta de uma quadrilha que negociava pareceres da Advocacia Geral da União reforça essa percepção.
Para que um processo renovador alcance os policiais militares é preciso que comece nas altas autoridades da república.O clima de tolerância e até de simpatia com os corruptos aliados, acabou reduzindo o poder do governo de combater a corrupção em escalões mais baixos.
Uma futura melhora na polícia com melhores salários e melhor treinamento é uma esperança. Mas temo que essa esperança não vingue, enquanto o governo tiver uma atitude complacente com o desvio de recursos públicos.
O curioso é que um fato tão conversado na rua não tenha despertado um debate à altura nos lugares onde a missão das pessoas é precisamente debater.
Dizia a escritora francesa Simone de Beavouir: é assustador um fato assustador ser tratado como banal.
Artigo publicado no Metro



2 Comments
E a imagen da torre de Babel.
Onde ja nao da mais pra subir e tudo cae.
A corrupçao e ja invisivel
os olhos ja nao ven.
E um tunel laberintico e apocaliptico.
Os grandes estao preferindo deixar essa terra.
Caro Gabeira,
Concordo com vc em tudo o que escreveu. E gostaria de enfatizar sua observação, que vale para todos os tipos de fatos assustadores que tem havido de assustador em nosso pais e não somente a corrupção, o alto atrativo do tráfico, baixos salários etc. Por exemplo, o decaso e/ou despreparo dos técnicos de enfermagem que tem matado dezenas de pessoas ao injetarem alimentos na veia de pacientes, das cuidadoras que espancam pessas da terceira idade, das creches que tb espancam crianças de meses ou poucos aninhos de idade. Apenas para finalizar os exemplos, cito os cursos de medicina cujos alunos, acho que 80% , não obtiveram a nota mínima (5,0) na prova de avaliação (que segundo médicos, professores e outros alunos de medicina q a consideraram de baixissimo grau de dificuldade) de sua formação universitária mesmo assim receberão ser CRM, como todos os demais formandos em medicina.
Esses fatos são comentados nas ruas, na web, seja via e-mails, blogs ou redes sociais, com centenas de comentários repudiando tais atitude e no entando, providências não são tomadas tampouco os fatos são debatidos e analisados pelos órgãos ou entidades competentes, para verem aonde nasce o problema e possam tomar providências para que deixem de acontecer.
A web e redes sociais são ferramentas poderrosíssimas para divulgação, para organizar movimentos, mas
não mudaremos absolutamente nada se não formos para as ruas, de forma pacífica, ordeira, porém firmes e decididos a não parar enquanto não tomarem providências emergenciais (para estancar o sangue) e depois de forma mais consistente para evitar e se repitam. A web é necessária mas não é suficiente, não se muda nada, sentados em casa em frente aos computadores apenas escrevendo, comentando, repudiando. Ah e ao irmos pras ruas temos que ter reporteres fazendo a cobertura para que tudo seja divulgado nos jornais e telejornais: Me veio agora a mente: talvez a maior dificuldade seja essa, conseguir o apoio da imprensa, que tem sido mínimo e miutas vezes mentirosa, manipulando números e imagens.
abraços,
Gilda – RJ