Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. É o que ensina a letra do samba. Mas quando a poeira são toneladas de terra despreendidas dos morros, a volta por cima é um problema.
Apesar dos R$450 milhões do BNDES e um empréstimo de R$1 bilhão do Banco Mundial, que deve sair logo, o Rio ainda não tem um projeto de reconstrução da região serrana.
O governo já criou um gabinete de emergência e reconstrução. Será supervisionado pelo Vice-governador, Luis Fernando Pezão contará como enlace local o prefeito de Bom Jardim, Affonso Monnerat, que deixará o cargo para se dedicar ao tema.
“A idéia-diz o Vice Pezão- é reconstruir em novas bases, ouvindo geólogos e ecologistas, mas realizando também um debate mais amplo na sociedade.”
Um grande número de máquinas e trabalhadores de empreiteiras foi deslocado para a serra. As empresas telefônicas reparam suas ligacões e, na tarde de terça feira, era possível dizer que a comunicação pelo celular voltou ao normal. Técnicos da Vivo ainda circulam para pela região serrana para religar a telefonia fixa em áreas obstruidas.
As tarefas de emergência não foram concluidas mas não é supérfluo o debate sobre a reconstrução. Ecologistas afirmam que os rios mudaram de curso e que houve uma alteração nas áreas inundadas. O Exército já está construindo duas pontes provisorias, uma em Bom Jardim, outra em Teresópolis, no distrito de Sebastiana. Mas para construir outras, precisa saber se a posição antiga vai prevalecer.
Um dos grandes problemas da reconstrução é casa para cerca de sete mil famílias. A Prefeitura de Friburgo desapropriou a Fazenda da Laje mas parece consciente de que não bastam as casas: será necessária uma infraestrutura urbana para a criação de um bairro. Técnicos da Prefeitura afirmam que até a construção de escolas será revista, para aumentar a segurança. Deverão ser erguidas sobre pilotis .
A falta de um diágnostico preciso transforma as idéias iniciais em puros palpites. A Secretaria do Meio Ambiente, por exemplo, anunciou que criaria um parque fluvial no Vale do Cuiabá, porque o rio mudou de curso. Proprietários na região argumentam que o rio saiu do seu leito em quase dois quilômetros, mas está voltando ao normal.
O único documento existente sobre os rios é o relatório preliminar do Crea, onde os engenheiros que visitaram a primeira inspeção, defendem obras mais simples: barragens e ondulações para conter a velocidade das àguas.
O Vale, onde o presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouveia, tem casa, é dos lugares que pode ser reconstruido com rapidez. Um grupo de empresários ofereceu terreno para os desabrigados e muitas casas ainda estão de pé. A idéia é manter o Vale com as atividades anteriores, haras de cavalos de raça e pistas de treinamento.
As demolicões de casas em área de risco começaram em Friburgo. No entanto, em muitos lugares, há uma discussão grande sobre o que demolir . No bairro Caleme, em Teresópolis, a Defesa Civil marcou um poste, no meio da rua Canário e afirmou que acima daquele ponto todos tinham de sair. Foi cortada a luz na área considerada de risco, mas muitos moradores afirmam que sua casa é segura, sobretudo depois de resistir ao temporal.
Os 15 mil agricultures da região Serrana terão uma chance de começar de novo, a partir do financiamento do Banco do Brasil, que destinou R$80 milhões. Medidas para atenuar o prejuizo foram tomadas como o prolongamento das dívidas por 18 meses, e gratuidade no depósito de Cobal, onde eles vendem seus produtos. A agricultura em todo o Rio é insignificante: 1% do produto estadual. A região serrana, que já abastece o Rio, tem duas vantagens: está próxima do segundo maior país e explora nichos importantes, como a produçao orgânica.
Embora a coordenação da ajuda ainda não tenha sido assumida por nenhum órgão público, as prefeituras da região criaram um consórcio para ampliar sua capacidade. Projetos como a da construção de centros de saúde especializado em oncologia estão sendo mencionados como um complemento às mudanças.
Um dos temores na região é o da saída de empresas . Muitos pequenos empresários perderam casa e oficina trabalho. No interior de Frburgos ainda há perdas por falta de energia para a irrigação e o tomate colhido está sendo jogado fora, com os boatos de que foi contaminado.
Para alguns especialistas, será necessária, além do uso das forças locais, a instalação de escritórios de arquitetura e planejamento para abarcar as mudanças necessárias.
Dos milhões anunciados, chegaram apenas os destinados à emergencia, que foram distribuidos assim: R$10 milhões pra Friburgo, R$7 milhões para Teresópolis e R$7 milhões para Petrópolis.A reconstrução vai abranjer mais quatro cidades: Bom Jardim, Sumidouro, Areal São José do Rio Preto.
Na segunda feira, começam a ser emprestados os R$450 milhões do BNDES. O governo pretende montar uma estrutura para o empréstimo e outra para orientar os candidatos, de um modo geral pequenos empresários.
O debate sobre os caminhos da reconstrução não está contando, no momento, com a Assembléia e o Congresso, porque a posse dos eleitos só acontece na semana que vem. Houve apenas uma sessão no Congresso, promovida pela Comissão Especial do recesso, e Assembléia constitiu um grupo de acompanhamento, apenas com deputados da serra.
O grande desafio é iniciar o debate antes que a região saia do foco. O Exército distribui salva -vidas para atravessar suas pontes provisorias. Todos aceitam , a passagens já se dá num clima mais cauteloso. No entanto, ainda não foi, oficialmente foi anunciado se o equipamento meteorólogico de Petrópolis será reativado.Para não gastar R$900 mil por ano, o prefeito de Petrópolis, Paulo Mustrangi, os manteve inativos.
Nas conversas, todos afirmam que nada será como antes. Mas será preciso ainda baixar a poeira , para saber se as licões do temporal foram levadas a sério.



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