Eis o texto e algumas fotos que publicamos hoje na página de cultura do Diário do Comércio de São Paulo:
Marco da arquitetura moderna no Brasil, o Palácio Gustavo Capanema, construído no centro do Rio, entre 1936 e 1945, para ser o Ministério da Educação, vai para o estaleiro.
O governo resolveu investir R$12 milhões para sua reparação e possivelmente, além do estaleiro, o Palácio Capanema vai também para o sofá: o que fazer com esta herança cultural do modernismo no Brasil?
Ao ser construído no governo Getúlio Vargas, o Ministério era dirigido por Gustavo Capanema um intelectual que pretendia também impulsionar a arte moderna no Brasil.
Embora, pessoalmente, não fosse um adepto do modernismo, Capanema considerava sua tarefa mais ampla do que dirigir programas escolares.
O próprio Getúlio Vargas, a julgar pelas recentes revelações de seus discursos carbonários da juventude, talvez se identificasse com a irreverência do movimento.
O Palácio Capanema inspirou-se nos esboços do pioneiro da arquitetura moderna, o franco-suiço Le Corbusier e acabou agregando além dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, pintores como Candido Portinari e escultores como Bruno Giorgio e o paisagista Burle Marx .
Nos 27 mil m2 de construção há os pegadas dos maiores talentos do movimento modernista que, apesar de tender para esquerda, apoiou-se no governo Vargas para realizar seu projeto estético.
O elo entre Capanema e os intelectuais era o poeta Carlos Drummond de Andrade, seu chefe de gabinete. Abria uma janela que o próprio governo Vargas estava buscando para entrar no mundo moderno.
Lúcio Costa afirmava que o projeto, além da preocupação social, contribuía com o a vida introduzindo formas límpidas numa cidade dominada pela monotonia conservadora.
Como suspeitava Mário de Andrade a arte não iria mudar o rumo do pais. Tanto que as formas límpidas foram rapidamente envolvidas pelo crescimento caótico da metrópole.
Visitar o Palácio Capanema num calor de 39,6 graus no Rio revela um dos maiores desafios do projeto de restauração. Como climatizar um prédio de 14 andares, sem desfigurá-lo?
Há outros problemas como os elevadores que devem ser substituídos em 300 dias, segundo o projeto de restauração.
Le Corbusier parece antevisto os detalhes climáticos. Sua proposta inicial era a de que o prédio fosse construído à beira mar, onde alem da vista há a brisa. Ele introduziu também pela primeira vez o brise-soleil, placas destinadas a proteger a fachada norte do edifício.
São placas de cimento amiantado que na época de sua introdução representavam a vanguarda. Um dos participantes do projeto, Carlos Sroebel propôs que fossem acionados por células fotoelétricas.
Hoje o amianto está em via de ser proibido e os brise-soleil pouco podem contra as altas temperaturas do Rio
Logo na entrada do prédio, envolvido na penumbra há um busto de Vargas. O lugar de honra é destinado ao presidente da época.
O prédio foi construído sobre pilotis e a ideia era de ocupar todo o quarteirão mas, ao mesmo tempo, permitir que as pessoas transitassem com liberdade entre as colunas.
O grupo que projetou o edifício mais tarde levaria algumas das ideias para a construção de Brasília.
Pé direito alto, sem paredes divisórias, o prédio acabou sendo utilizado pela burocracia do Ministério da Cultura. Hoje é uma repartição. Rachaduras nas colunas, insetos, elevadores enguiçados, imensos espaços vazios lembram algumas instalações de países socialistas na fase mais decadente.
O Governador do Rio, Sérgio Cabral, chegou a anunciar, no exterior, que o Palácio Capanema seria usado como sede da coordenação da Copa do Mundo.
Seria um pisada da chuteiras na arte moderna brasileira mas a reação dentro da própria instituicões culturais do governo detonou a sugestão de Cabral.
Hoje, o mezanino do Palácio Capanema é usado para exposições de arte. Encontrei em plena instalação de sua obra o pintor Paulo Paes, com balões de papel. Como alguns funcionários que encontrei na escadas ele reclamou do calor:
-O lugar é ótimo, mas muito quente.
O calor esta presente também em outras opções da época :pela primeira vez no Brasil, construíam-se fachadas de vidraça.
Mais tarde, surgiram as vidraças em Ray Ban, que detêm mais ainda o calor e são contraditórias com o projeto modernista de fazer uma arte que não mimetize a européia, adaptada às condições locais.
Se um dia, o Palácio Capanema deixar de ser um espaço burocrático pode se transformar num museu vivo uma introdução à arte moderna moderna no Brasil. Fará melhor à Copa do que se tornar sede administrativa. Seria programa para os estrangeiros.
Para quem passa na Avenida Graça Aranha , as laterais do prédio tem alguma coisa ver mais eleborada que os grafites urbanos: azulejos de Portinari.
São temas marinhos. O prédio estava relativamente perto do mar. E não se imaginou que o mar ficaria distante quando o crescimento o envolvesse.
O mar nas paredes é uma espécie de saudade antecipada.
No interior, os painéis de Portinari tentam reconstruir o desenvolvimento econômico do Brasil. Capanema era muito simpático com os artistas mas a correspondência entre ele e Portinari mostra que os painéis foram encomendados nos detalhes.
Era preciso que Portinari pintasse o gaúcho, o sertanejo, que lesse antes os Sertões de Euclides da Cunha, enfim que seguisse a orientação de Capanema.
Ao longo dos andares que percorri há bustos de vários modernistas, como o próprio Lúcio Costa e mesmo Mário de Andrade. Os jardins de Burle Marx também um pouco imprensados na paisagem urbana, são uma espécie de antevisão do que ele faria adiante na Pampulha, no Aterro do Flamengo, no Rio, e em Brasília.
Tudo no edifício lembra a aurora do modernismo e enfatiza as relações ambíguas dos intelectuais com o governo Vargas.
Se um de lado, Capanema tirou proveito político do movimento, de outro, os artistas encontraram uma forma de mostrar seu talento e se preparar para novos projetos.
Dizem que no princípio havia peixes a cara de Capanema nos azulejos. Era uma espécie de homenagem ao Ministro. Com os tempos os peixes-Capanema foram retirados e podem estar arquivados no acervo do Ministério da Cultura.
Mais do apenas um edifício, o Palácio Capanema, que seus grandes salões empoeirados na penumbra é uma história do choque do idealismo dos modernistas com a realidade.
Deixá-lo decair longe de nossos olhos é quase tão triste como transformá-lo em sede administrativa da Copa do Mundo. No entanto, sacrificá-lo ao futebol ou à falta de imaginação burocrática é um falso dilema.
As pessoas deveriam andar pelos seus corredores com a mesma liberdade com transitam entre suas colunas .









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É isso aí. A gente não quer só comida. A gente quer a vida como a vida quer. Você tem fome de quê? Mais estadistas e menos quadros nos cargos públicos. Logo logo sentiremos muita falta disso.