Texto escrito no caminho, ao longo de demoradas escalas. A propósito, parodiando Vinicius de Moraes, nossos aeroportos, Guarulhos e Galeão, como são feinhos, coitadinhos.
A chegada ao Brasil entristece. Nos aeroportos de Lima e Santiago a conexão com internet é muito fácil. Em Santiago, você compra uma laranjada e ganha uma senha para navegar.
Precisei de conexão em Guarulhos e só havia na Telefônica, como nos tempos em que não tínhamos celular e íamos lá para fazer interurbanos.
A Telefônica também é bem caída. Há alguns monitores novos e o os teclados são dos primórdios da informática.
Não se trata apenas de conexão. No aeroporto de Santiago há coleta seletiva de lixo, indicando papéis, vidros e outros. Pelo menos revela uma outra mentalidade.
Fiquei surpreso com Santiago. A cidade cresceu e se sofisticou nos últimos anos. Tive pouco tempo para caminhar nas área que percorri , um trecho da avenida Vitacura e adjacências, revela a explosão das grandes torres envidraçadas. Não sei se em termos de consumo de energia são recomendáveis num pais quente como o nosso.
As placas indicando número de andares e recordes de altura estão por lá. A surpresa com mudanças físicas é comum em qualquer cidade que você não visita há muito tempo.
A outra surpresa é mais rara: depois de um ano do terremoto, os chilenos parecem ter superado tudo e olham para frente com muita segurança, apesar da crise política.
Motoristas, funcionários de hotéis e restaurantes, dizem que os brasileiros são maioria entre os turistas. Chegam a apontar um índice de 80 por cento. Não pude confirmar esse dado. Apenas constatei que nosso avião veio lotado. Brasileiros do nordeste, do ABC paulista, de Minas e de muitos outros lugares voltavam de suas férias.
Na chegada ao Brasil, ao ver a situação de Guarulhos, que me lembra a do Galeão, li que o Ministério do Transportes destinou R$6,2 milhões para um convênio com os cartolas do futebol, que iriam cadastrar torcidas organizadas. O dinheiro foi pago e o trabalho não foi feito.
Pensei: se resolvessem instalar o wifi nos principais aeroportos brasileiros seria um investimento de mais utilidade. Desde que fosse realmente realizado.
Não se pode nem criticar a hierarquia de certos gastos. A critica é anterior porque são gastos secundários que nem se transformaram em resultados práticos.
Leio também que as pesquisas revelam uma sinistra expectativa na população: a de que esta será a Copa do Mundo da ladroagem.
Aqui no Rio, o bonde de Santa Teresa virou, matando cinco pessoas. O prefeito Eduardo Paes espera a maior epidemia de dengue de todos os tempos, no verão que se aproxima.
Tenho amigos que já contraíram a doença duas vezes. Será que suportam mais uma?
Viajar pelo continente revela como em alguns pontos de infraestrutura, Chile e Peru se adiantaram. Mas explica também, pela euforia dos turistas brasileiros, porque essas notícias negativas batem na trave.
Mas não se enganem: as pessoas estão sabendo e registrando em suas mentes todos esses episódios negativos, sobretudo os que envolvem corrupção.
É impensável um modelo perene de desprezo aos anseios mais elementares de decência na política. Já vi, quando exilado, a classe media brasileira eufórica na Europa, no tempo do chamado milagre econômico. Mesmo assim, a ditadura acabou.
O desprezo perene e ostensivo por alguma decência nas coisas públicas também não será eterno. Esta Copa do Mundo será pedagógica. Aliás, tem gente já preparando documentário sobre como o Brasil vai mudar com ela. Principalmente, se não for campeão, como desejamos.








3 Comments
Só não concordo com:
“Mas não se enganem: as pessoas estão sabendo e registrando em suas mentes todos esses episódios negativos, sobretudo os que envolvem corrupção.”
As últimas eleições mostraram que eu estou certo quanto a isto.
Belo texto, Gabeira! Mas eu achei que ficou um pouco pessimista. Quando vejo o neto do ACM como paladino da oposição e ninguem procurando a caminho das pedras, que seria uma prevensão ao que vc citou, aí sim é preocupante.
Nós não aceitamos mais os corruptos.