Não escrevo para defender nem atacar Adriano. Não escrevo nem para ficar em cima do muro no caso Adriano.
Escrevo apenas para registrar o intenso trabalho técnico da polícia e o interesse da imprensa pelo caso Adriano, numa cidade onde 93 por cento dos crimes não é investigado.
Assim como o espetáculo envolve a política, ele passou a comandar também o trabalho policial. Embora grave, o episódio não foi mais que um tiro no dedo, recuperado pelos médicos.
Era preciso investigar se Adriano atirou em Adriene, esse é o nome da moça que viajava no carro do atleta. Mas os recursos empregados no caso não se aproximam nem de longe dos casos em que as pessoas perderam não só uma parte do dedo, mas a própria vida.
É compreensível que a policia se mova com empenho. Ela depende, assim como os políticos, de transmitir a sensação de que está trabalhando. E um caso desses é ideal: está tudo ali, o acusado, a pistola, a vitima e os holofotes.
Nessa mesma semana, um adolescente foi morto por soldados no Complexo do Alemão, a Miss Brasil 2010 fraturou a coluna num desastre de automóvel e um jogador morreu ao se chocar com um caminhão no Rio Grande do Sul.
Todos os fatos foram registrados de forma discreta. Mas o tiro no carro de Adriano ganhou um destaque especial.
Quando vivia no Rio, Adriano era considerado uma espécie de Papai Noel, pois sempre se metia em pequenas confusões e recompensava generosamente quem os livrava delas.
O episódio do tiro na mão foi uma espécie de “cheiro de sangue” que atraiu vários predadores naturais, desde a moça que levou o tiro até a imprensa que viu o touro ferido e foi conferir se o golpe que recebeu era mortal.
A imprensa é assim porque cada vez mais depende de gente famosa para sobreviver. Mas alguém precisaria se interessar genuinamente pelos crimes que não são investigados, independente da fama dos acusados ou das vitimas. Essa é tarefa de órgão público.
Na tevê, os filmes policiais mostram detetives interessados nos crimes a partir da complexidade da investigação. Na vida real, por mais complexo e intrincado, o crime só ganha atenção se a opinião pública se interessa por ele.
Uma vez, meu apartamento foi arrombado e levaram as câmeras com que trabalhei na Alemanha, na derrocada da Iugoslávia e da antiga União Soviética. Fui ao distrito dar a queixa e ficou por isso mesmo.
Alguém me sugeriu, entretanto, telefonar para as autoridades e pedir ajuda. Quando é gente conhecida, eles mandam perícia e tiram impressão digital, disse o conselheiro. Não há recursos para todos os casos, concluiu. Resolvi me resignar com a perda.
Não há recursos para cobrir todos os casos. A maioria fica na sombra. De que valem vidas anônimas diante do pedaço do dedo de uma carona no BMW de um craque?



9 Comments
Infelizmente é uma grande verdade …… nós que somos ilustres desconhecidos da mídia estamos literalmente FUDIDOS …… agora, fica rico ou famoso para vc ver ………
Obrigada por mencionar o menino de 14 anos que morreu no Alemão. É terrível saber dessas mortes de meninos e nem o modo como são tratadas. Puxa, Gabeira, levanta essa bandeira: Não mais mortes dos meninos anônimos de suas mães anônimas.
Boa tarde ,
O país esta cada dia mais carente de políticos como o senhor ! Tem meu voto garantido em todas as eleições !
Abs
DR. ELE É SÓ UM GAROTO QUE SE ACHA . E QUE NÃO FOI JOVEM E VALENTE?
Oitenta e dois mil reais para consertar um dedo é muito caro. Os policiais correm riscos de serem feridos e não tem como pagar nem um plano de saúde, quanto mais um hospital de elite, porque então trabalhar? Por ideologia, por filosofia, por serem jovens e valentes? O idealismo acabou porque é duro ver mafiosos de negro ou de branco embolsando dinheiro não declarado e fraudando impostos. Como dizia um freqüentador de um bordei sobre a hebilidade de uma profissional: “Dedada inesquecível.”
Querido, vamos acordar! Meus alunos não tem culpa que eu, professora, sou mal remunerada! Faço o meu trabalho com qualidade, para poder cobrar os meus direitos com a razão e com dignidade!
o mais incrível é que a mídia só fala que foi a menina que atirou porém ninguém pergunta se a arma é registrada e se o ADRIANO teria porte! Brasil selebridade é uma piada pobre democracia que se camufla através dos que possuem mais condições financeiras.
“De que valem vidas anônimas diante do pedaço do dedo de uma carona no BMW de um craque?”
É, gabeira, do que vale um quase homicídio ( ou suicídio ) por imprudência? Nada… Sua camera antiga furtada é que é importante…
LIXO DE TEXTO
Os soldados do complexo do alemao ja foram afastados, e falar sobre a discrição dos acidentes de carro com miss e jogador ?? pelo amor de Deus, que péssima analogia!!!
Nossa cara tem certeza que vc leu a noticia? que LIXO de comentário isso sim…..