Estive em São Paulo, participando de um seminário sobre a Rio+20, conferência internacional que será realizada em 2012. O seminário foi realizado pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).
Não dá para sintetizar os debates, mas lembrei que a pauta da reunião do Rio prevê um foco não só sobre a economia verde como também sobre a economia azul.
Os oceanos têm um enorme potencial ainda não de todo estudado. E o desastre na Bacia de Campos deveria nos levar a algumas perguntas fundamentais.
Uma delas é sobre os riscos da intensa busca por petróleo. O geólogo John Amos, da ONG americana SKyTtruth também chamou a atenção para esse perigo. Foi sua organização que disse, pela primeira vez, que o vazamento no Golfo do México era maior do que a BP reconheceu.
Baseado em imagens de satélite, o instrumento mais adequado, quando não há muitas nuvens, para avaliar essas manchas, John Amos afirma que o vazamento no Campo do Frade, em Campos, é de 3.738 barris por dia.
Sua avaliação coincide, mais ou menos, com a da ANP que calcula em 3,3 mil barris dia o petróleo que está vazando do poço da Chevron para o mar.
O período do acidente não é favorável porque passam pela costa do Rio, a partir do principio de dezembro, as baleias jubarte, minke-anã e os golfinhos, todos em busca de água quente para se reproduzir.
O acidente começou no dia 9 e o noticiei aqui no texto sobre a manifestação pelos royalties do petróleo. Uma ONG americana estava monitorando por satélite, mas aqui no Brasil estava tudo muito calmo, como se não houvesse nada.
O delegado da Policia Federal, Fábio Scliar vai fazer o inquérito. Suspeito que vá encontrar algumas dificuldades, típicas desse tipo de acidente: informações desencontradas e dificuldade de avaliar com técnicos independentes o que está se passsando no poço.
A previsão é de que será fechado em uma semana. Isso dito pela Chevron. Esta previsão, para ser avaliada, pede conhecimentos técnicos, assim como a tática para fechar o poço.
Tanto a burocracia ambiental como os políticos não têm o mesmo conhecimento das empresas. Nos Estados Unidos, até a Marinha declarou-se incapaz de fechar o poço na plataforma Deep Water Horizon, da BP.
Num momento em que o Brasil vive a euforia do petróleo, com a descoberta do pré-sal, será essencial um debate sobre a segurança dessas instalações. Com a experiência de alguns desastres ambientais, acho que num teste não passamos bem: a reação inicial do pais foi lenta e a transparência nos primeiros oito dias de vazamento foi mínima. Em síntese, o plano de contingência não apareceu.
As notícias de que a mancha tinha 63 km2 não se confirmaram. E acredito, pelo que vi no sobrevoo de helicóptero de uma equipe de tevê, que as informações da Chevron sobre sua dimensão estão mais próximas da realidade.
No entanto, a diferença entre o que a empresa admite como vazamento diário, 600 barris, e o volume aferido por imagens de satélite, 3738 barris, é muito grande.
Quanto mais precisas as informações, melhor. O óleo está indo para alto mar, mas é uma ilusão supor que o alto mar seja blindado ou que possa funcionar como uma gigantesca lixeira. Além disso, naquela região existem, segundo Carlos Minc, possibilidade de uma rotação das correntes e através dela a mancha atingir o litoral de Búzios e Rio das Ostras.
Neste lugar, Rio das Ostras, a Marinha tem um centro que pesquisa e um pequeno museu que mostra o funcionamento dos oceanos.
Em Rio das Ostras acontece o fenômeno único da ressurgência, encontro das águas quentes que vêm do norte com as águas frias que vêm do sul. O encontro provoca uma subida de nutrientes que atrai a biodiversidade.
Búzios é um centro de turismo. Mas no momento, o perigo de a mancha atingir o litoral é pequeno, embora o monitoramente tenha de ser constante.
No Golfo do México, os prazos anunciados para o conserto estouraram várias vezes. O delegado Fábio Scliar merece uma boa ajuda. Não se trata de desconfiar da Chevron. Mas a prática internacional costuma ser de uma avaliação técnica independente.



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