Esse é o texto da coluna de hoje no jornal Metro.
As cenas de corrupção, apresentadas ao vivo na tevê, dominaram o debate da semana. Para os mais experientes era algo previsível; para milhões de expectadores foi um espetáculo chocante.
Os governos agora dizem que vão apurar todos os contratos. Como encontrar algo errado, se tudo foi feito legalmente, com carimbo e papel timbrado, como disse uma das participantes do programa, Renata Cavas, da empresa Rufollo?
Ela foi a figura dominante no imaginário dos expectadores. Os jovens autores de novela deveriam estudar sua performance para compreender como se estrutura um personagem.
Renata Cavas manteve uma unidade em todas as suas falas. O público a considerou irônica e ela se tornou a vilã da novela.
Qual a foi a linha de suas respostas? Ela parecia impaciente com a ingenuidade do repórter que se fazia passar como comprador do hospital universitário. Zombou da ignorância sobre a corrupção e com isso ofendeu também o grande público.
Ao afirmar que os contratos seriam legais, ela afirmou que teriam papel timbrado, carimbo e até tipo sanguíneo..
Adiante, Renata fala dos lugares onde o dinheiro da propina poderia ser pago. Menciona a Floresta da Tijuca, se o funcionário corrompido desejar um ponto sofisticado para receber o dinheiro.
E, finalmente, quando o repórter que se passava por comprador pergunta em que moeda receberia a propina, ela diz: qualquer uma que você queira, até iene.
O que ela dizia para o comprador em potencial foi entendido pelo público como uma espécie de mensagem para o próprio expectador.
Tudo direito, bonito, com papel timbrado, carimbo e até tipo sanguíneo. Ela simplesmente falava a verdade, carregando num ou outro detalhe absurdo para enfatizar a ingenuidade do interlocutor.
Nesse movimento, mostrou um traço de sua personalidade: a irritação com as pessoas que não conseguem ver o mundo real em que ela e seus semelhantes construíram um esquema perfeito para roubar dinheiro público.
É a ética do mercado- diz numa de suas falas mais pedagógicas..
Tipo sanguíneo num contrato, propinas pagas na Floresta da Tijuca em moeda japonesa são elementos que um bom autor de novelas usaria na boca de seus personagens.
Ninguém gosta de ser roubado, mas fica furioso quando além de roubado torna-se um objeto de gozação.
Deram apenas 10 por cento em todos os seus contratos? E as outras empresas que não aparecem na tela, também não deixam os 10 por cento nas mãos do governo?
Renata teria boa resposta para essas perguntas.




2 Comments
Como fazer com que o povo não esqueça destes absurdos nas próximas eleições??? Que pena que a massa embriagada com futebol e novelas, não tem mais a capacidade de armazenar informações a longo prazo… Os verdadeiros culpados destes roubos serão reeleitos e depois deles virão seus filhos… Resultado da ausência de ideologia da massa.
SOU FILHO DO EX-DEPUTADO BIRA.NÃO DÁ