Passei o dia em Porto Real, acompanhando os acontecimentos pelo rádio. Fui examinar a experiência de passe livre na cidade, a única que faz isto no Rio.
Constatei que Porto Real tem apenas 16 mil habitantes e a segunda renda per capita do pais.
A Prefeitura dispõe oito ônibus gratuitos que fazem seis linhas na cidade que tem apenas 50 km2.
Falei com os passageiros e com o secretário de planejamento de Porto Real para compor minha crônica para a Band.
Os ônibus são bons com dispositivos para portadores de deficiência. No entanto, os moradores de Porto Real, com quem conversei, acham que ainda é muito pouco para uma cidade que tem um orçamento de R$ 212 milhões. Vi cartazes nos pontos de ônibus com os dizeres corrupção, revolução.
Mesmo aí, a ideia do passe livre que nasceu no governo passado surgiu da vontade de atrair as grandes empresas, que garantem o orçamento de Porto Real. Entre outras, a Coca Cola e a Pegeout Citroen.
Tive de interromper o trabalho por causa do futebol que esvazia as ruas. Conclui que Porto Real é uma exceção porque paga apenas R$180 mil por mês à empresa que aluga o ônibus.
A relação entre os custos e o orçamento da cidade muda de acordo com o tamanho e recursos.
De qualquer maneira, a anulação do aumento no Rio, em São Paulo e outras cidades do Brasil foi uma vitória.
Como escrevi num artigo, a composição do preço não pode levar em conta apenas a inflação mas a qualidade dos serviços: conforto, pontualidade, condições de trabalho dos motoristas que aqui no Rio as vezes enlouquecem no trânsito.
Era apenas pelos 20 centavos ou há mais temas agitando o Brasil?
Em Fortaleza houve um choque na porta do Castelão. Os gastos da Copa eram o tema, e na verdade, este é um problema sério para o governo.
O Brasil se ofereceu para sediar a Copa na suposição de projetar a imagem de sua nova situação mundial. A mensagem que as ruas estão enviando é a de que grande parte do país não concorda com essa prioridade.
E com o impacto dessa mensagem,
o Brasil passa nesse momento, ao contrário dos planos oficiais, a ser visto não pelas suas virtudes mas pela precariedade dos serviços públicos e pela revolta contra a corrupção.
A frase de Garrincha se aplica a esta aventura: faltou combinar com os russos.
A esta altura a Copa já fracassou como instrumento de manipulação política.
Leio na noticias on line que o Ministro Luiz Fux autorizou o bloqueio do Mineirão pelos manifestantes. Não conheço o texto mas espero que esteja garantida a mobilidade dos torcedores.
Ao mesmo tempo, a Força Nacional será deslocada para Belo Horizonte . Talvez a tensão com o aumento das passagens se desloque agora para a melhoria dos serviços em geral, daí a importância da Copa: tornou-se o símbolo do uso equivocado do dinheiro público, por razões político eleitorais.
E também uma visão equivocada sobre o Brasil. Dilma sempre disse que o Brasil vai muito bem e que os críticos torciam contra o país.
Os críticos estavam apenas ressaltando uma realidade que ela não queria ver.



