Situação difícil no Rio. Vão decretar o lockdown, sem que a querentena de fato tenha sido muito respeitada.
Cerca de mil pessoas esperam leitos nos hospitais. Noventa por cento das UTIs estão ocupadas. A situação aperta exatamente nos lugares onde há habitações precárias, falta de saneamento básico e deficiência no serviço hospitalar. O epicentro agora é na Zona Oeste.
O Rio é muito complicado. Esta semana foi preso um ex-secretário de saúde por causa de superfaturamento na compra de respiradores. Uma comissão de deputados fez uma ronda nos hospitais e descobriu que há muitos leitos não utilizados.
A cidade é bonita por natureza, mas seus dirigentes e a tradição política aqui são desanimadores.
Quem pode deve ficar em casa. Contrair coronavírus por aqui torna-se mais perigoso. Mesmo aqueles que têm condições de usar o sistema privado certamente ficariam culpados de terem um respirador quando os outros morrem asfixiados.
Num debate chamado para hoje, alguns médicos discutiram o problema. Não pude assistir porque estava trabalhando no mesmo momento.
Percebi pela chamada do encontro que o problema não se resume a leito de UTI. Há falta também de pessoal especializado.
Não adianta comprar respiradores sem ter quem os controle com maestria. Boris Johnson, o primeiro ministro inglês, agradeceu os emigrantes que cuidaram dele no hospital, dizendo exatamente que souberam dosar na hora certa o oxigênio que o salvou.
Na verdade, o oxigênio não salva, pelo que ouvi de um médico paulista. Ele apenas nos mantém vivos para que o corpo consiga expulsar o virus, ou pelo menos sua carga letal.
Isso que nós estamos vivendo é uma tragédia silenciosa. Muitos ainda não acreditam no poder maligno do coronavírus e acham que estamos apenas com medo.
De fato, a tendência geral da cobertura é dramatizar. Mas a tendência do presidente da República é minimizer. A polarizicão entre o medo e o descrédito não é uma boa saida.
Vejo os países europeus e asiáticos saindo da crise mais aguda, vejo os novos tempos como via aqueles momentos pós ataque terrorista. Naquela época, abundavam as medidas de segurança. Agora, acumulam-se as medidas de higiene.
É preciso sair disso de uma forma segura e tranquila. Não estou vendo isto no horizonte. Quem sabe, quando os casos começarem a declinar, pode surgir um debate à altura do desafio.

