Uma operação pacífica

A saída dos que não podem mais ficar na área da Raposa Serra do Sol está sendo pacífica. Um ponto importante nessa saída pacífica é a habilidade do desembargador Jirair Neguerian que atendeu a todos os nossos pedidos, inclusive concedendo um tempo especial aos que tem mais de 80 anos. Sairão de qualquer maneira, mas num ritmo que respeita suas raízes e sua vulnerabilidade.

Só o tempo poderá responder a algumas questões que coloquei nessa rápida visita à Raposa Serra do Sol. De um modo geral, consideramos cultura indígena intocada a dos Yanomamis. Cheguei a participar de um grupo de deputados brasileiros que discutiam com seus colegas venezuelanos o destino dessa etnia que está nos dois países, cruzando livremente a fronteira. Mas nosso grupo desapareceu depois da ascensão de Chávez. O próprio Congresso virou algo meio fantasma.

Há duas questões sobre as etnias que ocupam a Raposa Serra do Sol. A primeira delas é que são etnias já em contato com a sociedade envolvente, portanto já influenciadas por ela. A segunda é que são fortemente trabalhados pela Igreja Católica, que tem grande poder no Conselho Indígena de Roraima.

Essa tese de fazer uma reserva para preservar a integridade da cultura de algumas etnias é algo bastante discutível. Mas vamos ver no futuro como tudo se resolverá. Continuaremos atentos.

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Fronteiras do futuro V

Surucucu – Quase não falei dos índios que vi. Os Macuxis estavam divididos e queriam discutir, apenas, sua divisão. Os Yanonamis não falam português. Consegui contatar um intérprete. Mas estavam arredios. Para começar, quando desembarcamos na pista castigada, os meninos olharam por detrás de alguns tanques de combustível. Quando viram câmeras, vupt: se esconderam.

Visitamos a maloca, falamos com o tuchaua mas foi tudo muito formal. Os Yanomamis não estavam querendo receber visitas. Seria uma ilusão descer dos imensos helicópteros negros e obter deles, numa visita rápida, algum nível de intimidade.

Soube que Sidney Possuelo, o sertanista, estava tentando contatar um novo grupo na floresta. Pensei na diversidade: os macuxis brigam em perfeito português, os yanonamis não nos entendem e há grupos que nem foram contatados.

O próprio Possuelo já mostrou algum ceticismo sobre as vantagens do encontro com os brancos.

Posso apenas dizer que por aqui a situação dos índios não é tão romântica como se pensa. Cada episódio tem de ser muito bem estudado. Senão, escrevemos bobagens.

Termino de ler “A Festa do Bode”. Vargas Lhosa fez uma pesquisa bastante ampla sobre a República Dominicana. Ele nos convence .Não de que as coisas se passaram como no romance. Mas da realidade do romance, sua coêrencia interna, sua vida.

Vejo, no sábado, a foto de Vargas Lhosa junto a Alejandro Toledo, o candidato da coligação Peru Possível. Fui convidado pela Comissão de Relações Exteriores a observar as eleições peruanas. Mas já havia um compromisso no sábado: encontro de intelectuais com Lionel Jospin, o primeiro ministro francês.

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Fronteiras do futuro IV

Surucuru – Quem vive nas praias e nos shoppings não pode imaginar esta vida. Em construções de madeira, soldados, mulheres e filhos vivem na floresta, isolados do mundo. Seu único ponto de escape é a pista que também foi o a alavanca desse posto avançado.

Primeiro, foi preciso baixar e construir a pista.

Depois, trazer todo o material de construção. Em seguida, desmontar equipamentos para que coubessem no avião. Resolver o problema de energia, construindo uma mini hidroelétrica aproveitando a queda do rio. Tudo, tudo, foi cavado com muito esforço. E o cotidiano não é simples.

Os soldados não ficam parados no posto. Saem em missões de reconhecimento, andando dias pela selva. Seus únicos vizinhos são os índios yanomamis. Recentemente, houve denúncia de que estavam assediando sexualmente as índias.

Foi difícil constatar isto in loco. O deputado Marcos Rollim, do PT do Rio Grande, andou por aqui fazendo um relatório que incirimina alguns soldados. No entanto, muitos pontos do relatório, em que pesem a boa vontade de Marcos, não se sustentam no confronto com a realidade.

Ele diz que os soldados fazem cocô e poluem o rio.

Mas o rio está muito longe da maloca yanomami e, além disso, seria preciso um verdadeiro fenômeno gastroinstestinal, como constatou o deputado Antônio Feijão, para que essa hipótese fosse verdadeira.

Deve ter havido contato entre índias e soldados brancos.

Deve ter havido sexo entre eles. Algumas índias confessam que tiveram relações mais ou menos estáveis.

A categoria assédio sexual, tal como foi definida no parlamento, talvez não se aplique aqui.

O que me parece cristalino é que não houve cumplicidade do Exército. As famílias daqui, elas próprias, censurariam esse intercâmbio interétnico pois pode até ameaçar sua própria segurança.

Algo que me chamou atenção no posto: um pequeno laboratório onde se fazem exames de sangue, colesterol, urina e outros.

Nos postos da selva há laboratórios para detectar doenças tropicais e vírus estranhos. É um convênio do Exército com a Fundação Osvaldo Cruz.

Vejo aí um grande caminho. Ampliar esses laboratórios para que pesquisem não só as doenças tropicais, mas também os remédios da floresta. Isso poderia dar um grande impulso à medicina popular no Brasil, no momento em que estamos cercados pelos laboratórios multinacionais.

É necessário descobrir, analisar princípio ativo, se possível mapear o genoma (temos capacidade para isto no Brasil) e garantir a patente para o Brasil, resguardando os direitos das populações indígenas.

Isso é um sonho. Mas a Amazônia é cheia de sonhos. A pista da Serra do Caximbo não existia. O brigadeiro Veloso, que era um brasileiro destemido, desceu pela primeira vez com os irmãos Villas Boas a bordo e acabaram viabilizando a rota aérea entre Manaus e o sudeste.

Estou cada vez mais convencido de que, por menor que seja, a estrutura do Exército na selva, para nós que nada temos, é um verdadeiro avião. Poderemos voar com ela, se conseguirmos atraí-los para uma política ambiental comum.

É preciso primeiro romper com os preconceitos do passado e evitar que se aproximem dos militares apenas os garimpeiros, madeireiros e grandes donos de terra.

Temos de ampliar o diálogo. Sem medo. Talvez jamais cheguemos a uma concordância total. Mas qualquer concordância, com a eficácia de sua presença na Amazônia, poder render frutos decisivos para o futuro.

Amanhã recomeço

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Fronteiras do futuro III

Uarimutã – De volta ao helicóptero ainda tento alinhar minhas idéias sobre o problema do posto militar entre os Macuxis. Está momentaneamente embargado pela justiça.

Mas é necessário. Como solucionar esse impasse?

É uma área dividida. Os Macuxis estão divididos. Parte da etnia está sob influência da igreja católica. Parte, sob a influência dos evangélicos. Enfim, os brancos, queiram ou não, contribuem para a fratura entre parentes. Isso me deixa com um certo pessimismo sobre o futuro dos índios. Lembro-me do pessimismo de Levi Strauss, o grande antrópologo. Gostaria de estar com seu texto, aqui no helicóptero.

Trouxe comigo apenas o romance de Vargas Lhosa, A Festa do Bode. Descanso da viagem, da monotonia de algumas horas de sobrevôo na selva, mergulhando na história romanceada da República Dominicana. Sobre um ponto de vista romanesco, Vargas Lhosa trata magistralmente a incontinência urinária do ditador dominicano. Se o bloqueio econômico era a chave na destruição do regime, a próstata era a chave da destruição do tirano, sobressaltado com o fantasma de sua primeira brochada, com uma jovem prostituta.

Estamos chegando em Surucuru. É uma pista de pouso muito esquisita. Morro abaixo, ela me dá impressão de que se o piloto ultrapassar a pista, continuará voando do mesmo jeito. No aeroporto de Surucuru, meninos Yanomamis olhavam a chegada dos helicópteros. Além da imensa atração da floresta, sou curioso para ver como vivem os militares do quarto pelotão e os índios na maloca distante cerca de um quilômetro.

Amanhã recomeço.

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Fronteiras do futuro I

Viajamos cedo para Uiraquitã e Surucucu, na fronteira com a Venezuela. A última vez que estive em Boa Vista foi para dialogar com deputados venezuelanos e criar uma espécie de frente comum para tratar de problemas sérios. Os Yanomamis, por exemplo, vivem no nosso território e no deles.

Em Surucucu vamos discutir a relação dos soldados com as índias, uma vez que surgiram muitas denúncias de assédio sexual, embora essa categoria seja meio inaplicável aos casos descritos. Em Uiramutã problemas de outra ordem. O Exército prepara a construção de um posto na selva e alguns indios não querem. O caso foi para a justiça. As obras estão paradas. Trata-se de um problema na fronteira com a Venezuela que, por sua vez tem demandas com a Guiana. Se a Venezuela resolver atacar a Guiana, terá de passar pelo território brasileiro.

Essa discussão em torno do posto encobre uma outra: a da demarcação das terras indígenas em Raposa Serra do Sul. Isso é um velho impasse. Os indios querem que as terras sejam demarcadas de forma continuada. Os brancos querem que se façam ilhas. Não se consegue resolver da noite para o dia. Vamos ver se, pelo menos, conseguimos resolver a questão do posto. O Exército é muito cortejado aqui pelos deputados e fazendeiros que querem as terras dos índios. O Exército precisa de um tratamento especial para que possa manter sua equidistância e continue a tradição de Rondon.

Acho que amanhã, um pouco mais descansado, explico melhor tudo isso.

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