Surucuru – Quem vive nas praias e nos shoppings não pode imaginar esta vida. Em construções de madeira, soldados, mulheres e filhos vivem na floresta, isolados do mundo. Seu único ponto de escape é a pista que também foi o a alavanca desse posto avançado.
Primeiro, foi preciso baixar e construir a pista.
Depois, trazer todo o material de construção. Em seguida, desmontar equipamentos para que coubessem no avião. Resolver o problema de energia, construindo uma mini hidroelétrica aproveitando a queda do rio. Tudo, tudo, foi cavado com muito esforço. E o cotidiano não é simples.
Os soldados não ficam parados no posto. Saem em missões de reconhecimento, andando dias pela selva. Seus únicos vizinhos são os índios yanomamis. Recentemente, houve denúncia de que estavam assediando sexualmente as índias.
Foi difícil constatar isto in loco. O deputado Marcos Rollim, do PT do Rio Grande, andou por aqui fazendo um relatório que incirimina alguns soldados. No entanto, muitos pontos do relatório, em que pesem a boa vontade de Marcos, não se sustentam no confronto com a realidade.
Ele diz que os soldados fazem cocô e poluem o rio.
Mas o rio está muito longe da maloca yanomami e, além disso, seria preciso um verdadeiro fenômeno gastroinstestinal, como constatou o deputado Antônio Feijão, para que essa hipótese fosse verdadeira.
Deve ter havido contato entre índias e soldados brancos.
Deve ter havido sexo entre eles. Algumas índias confessam que tiveram relações mais ou menos estáveis.
A categoria assédio sexual, tal como foi definida no parlamento, talvez não se aplique aqui.
O que me parece cristalino é que não houve cumplicidade do Exército. As famílias daqui, elas próprias, censurariam esse intercâmbio interétnico pois pode até ameaçar sua própria segurança.
Algo que me chamou atenção no posto: um pequeno laboratório onde se fazem exames de sangue, colesterol, urina e outros.
Nos postos da selva há laboratórios para detectar doenças tropicais e vírus estranhos. É um convênio do Exército com a Fundação Osvaldo Cruz.
Vejo aí um grande caminho. Ampliar esses laboratórios para que pesquisem não só as doenças tropicais, mas também os remédios da floresta. Isso poderia dar um grande impulso à medicina popular no Brasil, no momento em que estamos cercados pelos laboratórios multinacionais.
É necessário descobrir, analisar princípio ativo, se possível mapear o genoma (temos capacidade para isto no Brasil) e garantir a patente para o Brasil, resguardando os direitos das populações indígenas.
Isso é um sonho. Mas a Amazônia é cheia de sonhos. A pista da Serra do Caximbo não existia. O brigadeiro Veloso, que era um brasileiro destemido, desceu pela primeira vez com os irmãos Villas Boas a bordo e acabaram viabilizando a rota aérea entre Manaus e o sudeste.
Estou cada vez mais convencido de que, por menor que seja, a estrutura do Exército na selva, para nós que nada temos, é um verdadeiro avião. Poderemos voar com ela, se conseguirmos atraí-los para uma política ambiental comum.
É preciso primeiro romper com os preconceitos do passado e evitar que se aproximem dos militares apenas os garimpeiros, madeireiros e grandes donos de terra.
Temos de ampliar o diálogo. Sem medo. Talvez jamais cheguemos a uma concordância total. Mas qualquer concordância, com a eficácia de sua presença na Amazônia, poder render frutos decisivos para o futuro.
Amanhã recomeço
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