O ovo da serpente

ilustra_ovo_da_serpente

A violência no Rio é muito debatida, quando há grandes fatos, crimes revoltantes. No entanto, muitas coisas acontecem numa quase surdina e elas são o indício de que os tempos podem ser piores.

Há alguns meses, o site do jornal O Dia divulgou um vídeo da comemoração do aniversário de um traficante no Complexo do Alemão. Havia uma tal concentração de armas nas mãos dos participantes da festa que pareciam preparados para dominar uma boa parte da cidade. Fuzis pendurados no peito, o aniversário parecia um momento de descanso de um exército tropical e descamisado.

Aquilo passou. Afinal é preciso tocar as obras do PAC. Agora, no auge da crise do helicóptero abatido, surgiu uma outra despretensiosa noticia no jornal da rádio Bandeirantes: um candidato potencial a deputado foi assassinado em Rio das Pedras, região dominada pelas milícias. O corpo foi encontrado na Cidade de Deus, com perfurações de bala e sinais de tortura.

Às vezes, quando se dá  a crise a sensação que temos é de que tudo vai mudar. O governo anuncia medidas, Brasília envia mais dinheiro e todos tentam dormir tranqüilos.

O processo não para. Enquanto se discute se a pré campanha presidencial está  nos limites da lei, uma outra pré-campanha está em curso. Ela começa com a eliminação física de adversários. Tanto no Complexo do Alemão como em Rio das Pedras, os vínculos entre política e crime passam ao largo e, quando surgem acontecimentos espetaculares, parecem um relâmpago em céu azul.

Todos esses fuzis e metralhadoras estarão diante de nós na campanha de 2010. Não é difícil saber a quem servem. O foco atual é o comércio de drogas. Mas durante o período não eleitoral, esquecemos do comércio de votos, ao qual as armas servem com grande eficácia. Servem a quem?

Comente | Comentários (13)

Construindo pontes

O relator da ONU que visita o Brasil, Phillip Alston, esteve hoje na Câmara e todos os deputados presentes ao encontro tiveram a oportunidade de expor a ele suas posições.

A minha posição deve ser divulgada na midia, mas por via das dúvidas, eis os principais pontos:

a) O relatório da ONU sobre violiência no Brasil deve ser exato. Os erros cometidos num recente relatório sobre São Paulo acabara enfraquecendo o instrumento intenacional;

b) Os direitos humanos no Brasil sempre foram (e isso é uma confissão de militante) voltados para proteger o indivíduo contra a violência do Estado. No entanto, nos últimos anos, grupos de criminosos organizados realizam inúmeras barbaridades e suas vítimas não são protegidas. Por que?

c) Os policiais brasileiros são atingidos em combate e não despertam solidariedade dos movimentos de direitos humanos e da sociedade em geral. O que significa isto? O trabalho dos policiais tem ou não tem importância? Quando um soldado é sequestrado em Israel todo o país se mobiliza. A idéia é passar a certeza de que o país valoriza quem trabalha pela sua segurança e não o deixa abandonado.

d) O Brasil trava debates radicais mas, às vezes, não vai a lugar nenhum. Há gente pelo aborto e contra o aborto. Mas não se unem para ampliar a informação. Outro dia uma jovem paraense teve um filho no avião. Não sabia que estava grávida e gritou: tem uma coisa saindo de mim. Discute-se contra e a favor da legalização das drogas mas não se chega a um acordo sobre a reforma da polícia. Mais eficacia e honestidade interessam às duas partes. Os direitos humanos também se tornaram um beco sem saída. Ao invés de oposições radicais, que têm seu lugar e devem ser debatidas, precisamos contruir pontes. Pelo menos, é esta a sensação que tenho depois de tantas batalhas.

Comente | Comentários (0)

Até breve, com imagem e som digitais

Possivelmente já morri. Dois grandes shows no Brasil, atraindo milhares de pessoas, e busquei o conforto da televisão, com direito a intervalos para o banheiro.

Um dos shows, o dos Stones, aconteceu perto da minha casa. Desde cedo senti uma atmosfera de euforia na zona sul. Muita gente, carros na calçada, chope, calor, as vozes nos bares subindo como se mãos invisíveis aumentassem o volume do som, através do balcão.

Calculei que era melhor a TV. Claro que meu cálculo seria mais acertado com melhor qualidade de imagem e de som. Mas ainda não chegou a TV digital. O governo discute muito sobre o padrão a ser adotado. Temo, a julgar pela experiência com câmeras e celulares, que, ao tomarem a decisão final, o quadro de opções já estará mudado. Os ritmos da tecnologia não respeitam os da política.

Os shows me alegraram. Escrevi algumas vezes sobre como o 11 de Setembro e as tensões que iria gerar abriam uma possibilidade nova para o Brasil. Guerra no Oriente Médio, atentados em metrópoles européias e, agora, todos os conflitos em torno das charges de Muhammad confirmaram essa tendência.

Meus escritos, na época, eram endereçados aos ministros da Cultura e do Turismo. Pensei então que, sendo a paz o fundamento básico de nossa política externa, poderíamos nos abrir para grandes festivais que tratassem, diretamente ou não, do assunto.

Na verdade, não acredito muito no lado explicitamente político desses shows. Mesmo Bob Marley, vindo dos bairros pobres de Kingston, tinha um discurso para a juventude negra na Europa, mas era ouvido por milhares de pessoas que não se interessam especificamente por isso.

Bono veio falar da fome. Tudo bem. Já no último Live Aid, produzido por Bob Geldoff, intelectuais etíopes lembravam que o combate central à fome vai se dar pela correção das distorções no comércio internacional. Bono sabe disso pois freqüenta Davos, e lá essas coisas são mencionadas, ao menos de vez em quando.

Da mesma maneira, a tolerância religiosa é um tema bom para ser lançado de São Paulo. Das metrópoles que conheço, foi uma das que resolveram de forma satisfatória a convivência entre as religiões. Bono falou o nome de alguns Estados, mas, com a sensibilidade da história irlandesa e da atualidade do Oriente Médio, poderia ter ressaltado esta característica diante de seus olhos.

Grandes estrelas pop sempre vão visitar presidentes e dirão coisas sem nenhuma responsabilidade com a repercussão na política interna. Isto pode se dar de barato. O próximo show, por exemplo, é de Santana: possivelmente vai se dançar mais.

A passagem dos Stones e do U2 reafirma para mim não só análise do passado sobre as chances turísticas culturais do Brasil mas lembra também que não conseguimos neutralizar nossa principal vulnerabilidade: a falta de uma política consistente para atenuar a violência urbana.

Na medida em que o Brasil se abrir para esses festivais de verão, novos grupos aparecem e com posições as mais variadas sobre política, desde uma distância saudável até a hostilidade.

Portanto, a sensação de que esses festivais favorecem um ou outro partido é passageira. O que está pela frente é a possibilidade de se ampliar o turismo, criar um nicho, já tentado pelo Rock in Rio, e fazer do país uma plataforma para a cultura de paz, o que daria uma dimensão popular ao fundamento de nossa política externa.

Para confirmar que morri, vou me fechar no Carnaval, soterrado por textos inacabados, relatórios e, como diz um amigo, muita costura para fora. O governo tem tempo para refletir sobre essa possibilidade turística e interferir de forma positiva. Os cálculos do Rio mostraram resultado favorável do ponto de vista econômico.

O que o governo deveria apressar mesmo é a decisão sobre a televisão digital. A vida dos que ficaram em casa, poderia ter sido enriquecida por uma imagem com definição maior, um som mais límpido. São respostas que dependem de base técnica e a forma de consulta ampla, por mais democrática que pareça, nem sempre atinge os melhores resultados.

Se até o ano que vem isso não estiver resolvido, o caminho será voltar à praia para ouvir os shows. A multidão não é muito diferente da que se concentra no Réveillon. O dilema será: ela ou TV digital? Encerrei prematuramente minha carreira nesses cercadinhos com convites. A única vez que fui, recusei-me a usar as camisetas de propaganda. Saí com um gosto de nunca mais.

Entre a multidão e cercadinhos, mil vezes a multidão. Creio que ela não se sentirá traída se eu optar pela minha casa. Aquela imagem dos celulares acesos no Morumbi mostra que até mesmo as pessoas comprimidas na praia ou no estádio terão o espetáculo na palma da mão.

Ao mencionar os celulares acesos e ligá-los às possibilidades da TV digital, os técnicos vão supor que tomo posições. Mas os técnicos sabem que nada entendo do assunto. É apenas o palpite de alguém que não apenas quer se libertar do analógico, mas também dos fios. Hoje já se faz quase tudo nos celulares. Por que não mostrar os grandes shows?

Comente | Comentários (0)

Segurança não se resolve na porrada

Uma das tendências mais comuns nas ruas é achar que os problemas de segurança seriam resolvidos com mais energia, mais porrada e penas mais longas. Uma presença da polícia nas ruas, rapidez no atendimento das emergências, capacidade real de enfrentar situações de perigo, tudo isso aumenta a eficácia. Mas não resolve totalmente.

A reforma da polícia significará, no meu entender, um novo contrato social. Até hoje, a idéia foi a de investir pouco dinheiro no setor. Criou-se entre as classes dominantes e a polícia um pacto muito desfavorável para a sociedade e a própria polícia. Uma das bases desse pacto foi a de tolerar violência e tortura, fechar os olhos para a corrupcão, compensando com isto os baixos salários e a falta de investimento na capacidade de investigar e os instrumentos científicos que ela demanda.

Não sei se a polícia tem força ou ânimo para romper esse pacto.

Mas se houver uma união entre ela e a sociedade, a correlação de forças permitirá essa salto de qualidade que não acabará com o crime mas dotará o país de um mecanismo mais inteligente para
combatê-lo.

E banda podre da polícia? Seria possível fazer um pacto com a polícia minada pela corrupcão? Essa é a primeira pergunta que precisamos responder, mas responder politicamente. Antes de lançar o foco numa banda podre da polícia, é fundamental localizar todos os elementos com os quais se pode contar para uma nova política, inventiariar experiências, valorizar iniciativas.

A tática de combater a banda podre da polícia tem um grande apelo de mídia. Mas esse combate deve ser travado no curso da própria reforma, na medida em que as forças renovadoras se agrupem e se fortaleçam. Em outras palavras: não adianta lutar contra a banda podre exclusivamente a partir da mídia. É preciso colocar em marcha um movimento renovador, reconhecido pela opinião pública, isolar progressivamente os setores corruptos para, em seguida, afastá-los.

A simples classificação banda podre da polícia já é um elemento agregador para que os sentem potencialmente ameaçados pela reforma. O principal trabalho é dividir, isolar para poder golpear sem grandes traumas. Volto amanhã com algumas sugestões práticas para a modernização da polícia.

Comente | Comentários (0)