Três semanas de dor

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Começa a terceira semana de guerra na Faixa de Gaza. O debate mundial torna-se aberto e, muitas vezes, tão apaixonado, dificultando encontrar uma posição equilibrada. A qualquer argumento você pode ser acusado de ter as mãos manchadas de sangue, por não aderir à causa palestina, ou de um comportamento antissemita, por condenar a morte de crianças e civis.

São coisas da guerra. O importante é continuar publicando artigos que possam dar ao público brasileiro uma visão mais ampla do processo.

Hoje, escolhemos dois: o de Vargas Llosa, condenando Israel, e o de Bernard Henri-Lévy, mostrando como o Hamas usa a população civil como escudo. Aliás, Llosa também admite que a eleição do Hamas foi um momento de autodestruição.

Outros articulistas, como Robert Fisk e Naomi Klein, publicados na mídia brasileira têm uma posição militante. Escolhemos Llosa porque não pode ser acusado de ter má vontade com Israel. E Henri-Lévy porque o conhecemos como alguém de posições independentes, quando se trata de luta pela justiça.

O primeiro ministro de Israel diz, no inicio desta terceira semana, que os objetivos estão sendo alcançados. Breve, conheceremos em detalhes esses objetivos. Eles devem responder a questão fundamental nesta e em outras guerras: valeu a pena?

O Brasil continua sua dança diplomática no Oriente Médio, à espera de ser considerado um interlocutor no processo de paz. No artigo anterior, insisti que era preciso dar passos modestos, como, por exemplo, retirar os brasileiros. Amorim está fazendo isto e também coordenando a entrega da ajuda humanitária.

A propósito, vale a pena ler o artigo de Roberto Abedenur, ex-embaixador brasileiro nos EUA, no Globo (também reproduzido neste site). Ele propõe um comportamento modesto e humanitário, a altura de nossas possibilidades no momento.

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Fronteiras do futuro V

Surucucu – Quase não falei dos índios que vi. Os Macuxis estavam divididos e queriam discutir, apenas, sua divisão. Os Yanonamis não falam português. Consegui contatar um intérprete. Mas estavam arredios. Para começar, quando desembarcamos na pista castigada, os meninos olharam por detrás de alguns tanques de combustível. Quando viram câmeras, vupt: se esconderam.

Visitamos a maloca, falamos com o tuchaua mas foi tudo muito formal. Os Yanomamis não estavam querendo receber visitas. Seria uma ilusão descer dos imensos helicópteros negros e obter deles, numa visita rápida, algum nível de intimidade.

Soube que Sidney Possuelo, o sertanista, estava tentando contatar um novo grupo na floresta. Pensei na diversidade: os macuxis brigam em perfeito português, os yanonamis não nos entendem e há grupos que nem foram contatados.

O próprio Possuelo já mostrou algum ceticismo sobre as vantagens do encontro com os brancos.

Posso apenas dizer que por aqui a situação dos índios não é tão romântica como se pensa. Cada episódio tem de ser muito bem estudado. Senão, escrevemos bobagens.

Termino de ler “A Festa do Bode”. Vargas Lhosa fez uma pesquisa bastante ampla sobre a República Dominicana. Ele nos convence .Não de que as coisas se passaram como no romance. Mas da realidade do romance, sua coêrencia interna, sua vida.

Vejo, no sábado, a foto de Vargas Lhosa junto a Alejandro Toledo, o candidato da coligação Peru Possível. Fui convidado pela Comissão de Relações Exteriores a observar as eleições peruanas. Mas já havia um compromisso no sábado: encontro de intelectuais com Lionel Jospin, o primeiro ministro francês.

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Fronteiras do futuro III

Uarimutã – De volta ao helicóptero ainda tento alinhar minhas idéias sobre o problema do posto militar entre os Macuxis. Está momentaneamente embargado pela justiça.

Mas é necessário. Como solucionar esse impasse?

É uma área dividida. Os Macuxis estão divididos. Parte da etnia está sob influência da igreja católica. Parte, sob a influência dos evangélicos. Enfim, os brancos, queiram ou não, contribuem para a fratura entre parentes. Isso me deixa com um certo pessimismo sobre o futuro dos índios. Lembro-me do pessimismo de Levi Strauss, o grande antrópologo. Gostaria de estar com seu texto, aqui no helicóptero.

Trouxe comigo apenas o romance de Vargas Lhosa, A Festa do Bode. Descanso da viagem, da monotonia de algumas horas de sobrevôo na selva, mergulhando na história romanceada da República Dominicana. Sobre um ponto de vista romanesco, Vargas Lhosa trata magistralmente a incontinência urinária do ditador dominicano. Se o bloqueio econômico era a chave na destruição do regime, a próstata era a chave da destruição do tirano, sobressaltado com o fantasma de sua primeira brochada, com uma jovem prostituta.

Estamos chegando em Surucuru. É uma pista de pouso muito esquisita. Morro abaixo, ela me dá impressão de que se o piloto ultrapassar a pista, continuará voando do mesmo jeito. No aeroporto de Surucuru, meninos Yanomamis olhavam a chegada dos helicópteros. Além da imensa atração da floresta, sou curioso para ver como vivem os militares do quarto pelotão e os índios na maloca distante cerca de um quilômetro.

Amanhã recomeço.

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Novo temas, além da P-36

Esse afundamento da plataforma da Petrobrás me tomou toda a semana. Dificilmente posso escrever sobre outra coisa. Quando pensava em deixar o assunto, surgiu a notícia de que boletins de ocorrência registraram defeito na ventilação e pediam inclusive a parada da plataforma para reparo das peças.

A plataforma não parou e, para dizer a verdade, é muito difícil aceitar a parada num clima em que se estimula a produção com o sonho da autosufuciência em 2005.

O grande cartaz na porta da empresa em Macaé registra sempre os novos níveis de produção, ao contrário de alguns lugares que registram o número de dias sem acidentes. Culturas diferentes. 

Devo admitir que a nova cultura, da segurança e respeito ao meio ambiente, é uma das metas do presidente Phillipe Reichstul que está sendo duramente atacado pela esquerda. Considero os ataques improcedentes. Ele é competente, bem intencionado e está reorientando a Petrobrás no caminho certo: respeito ao meio ambiente e também pesquisa de novas formas de energia.

Derrubado agora, o presidente da Petrobrás seria substituído por algum trogodlita indicado pelos partidos do governo e isso significaria, simplesmente, que o pesadelo seria prolongado.

Comprei a Festa do Bode em espanhol. Tenho a edição brasileira mas as letras são pequenas, difíceis de se ler. Por que essa economia? Vargas Lhosa e seus leitores merecem muito mais. Por falar em Vargas Lhosa, vejo que Alejandro Toledo está vivendo seu inferno astral no Peru, nas primeiras eleições após a queda de Fujimori. Acusam-no de ter usado cocaína e de ter uma filha fora do matrimônio.

Filha fora do matrimônio também foi tema importante na campanha de 89 no Brasil, quando Collor usou essa informaração para derrubar Lula. 

Toledo afirma que a cocaína no seu sangue foi uma dose forçada que seus sequestradores o impuseram. Ele se diz sequestrado pela polícia política do Peru e só não prestou queixa porque não confiava nas autoridades, envolvidas na tentativa de intimidá-lo. Ele tem provas da clínica onde ficou internado. De qualquer maneira, vê-se pelo movimento de denúncias que a eleição de Toledo, caso vença, não será um passeio.

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