Jaboti na árvore

O folclore político afirma que jabuti não sobe em árvore. Se está lá, foi porque alguém o colocou. Esta medida provisória 449, que vai centralizar os debates da semana, é um caso típico. Veio do governo com um texto flexibilizando dividas de até R$10 mil com o fisco. Entregue ao grupo do PMDB que indicou o relator, Tadeu Filipelli, a flexibilidade vai chegar a dívidas de milhões. O texto final é longo e complexo. Cada vírgula foi discutida, cada vírgula tem um dono.

Não há salvaguardas contra empresas que sempre deixam de pagar, não há estudos sobre a sustentabilidade dos devedores. Podemos estar jogando dinheiro fora, ou pelo menos jogando dívidas fora. Toda atenção é necessária.

Vamos ver se a mídia pelo menos consegue explicar. De nosso lado, vamos fazer o possível.

Comente | Comentários (1)

São Francisco em debate

Acompanhei o debate sobre a transposição do São Francisco de três maneiras. Uma, é claro, ao vivo, sentado no plenário do Senado. A outra maneira foi ouvir alguma coisa pela televisão, nos momentos em que tinha de resolver coisas ou receber gente no gabinete. A terceira forma foi conversar, longamente, com três debatedores no aeroporto de Brasília, quando voltávamos para nossas cidades ontem. Eles foram gentis comigo, reproduziram suas falas e abriram seus laptops no saguão do aeroporto para mostrar os dados e quadros.

Antes de falar diretamente sobre o tema, considero a aspereza do debate sobre a transposição do São Francisco um passo equivocado. No fundo, estamos irmanados no mesmo sonho de garantir no semi-árido uma quantidade de água necessária para uma existência digna. É um sonho de muitas gerações de políticos e, no meu caso, um sonho urgente, pois já estamos na etapa final de nossa vida útil.

Discordamos apenas sobre a maneira como se deve resolver a questão. O modelo do debate, no entanto, é inadequado para levar a uma conclusão. Ele é organizado de forma tal que cada um fala 15 minutos sobre o tema, alinhando seus argumentos. Não há nenhuma possibilidade, nesse formato, de se parar o debate num ponto e dizer: então, vamos esclarecer especificamente isto.

No meu entender, o debate não carece de presidente, um senador austero contando o tempo de quem fala. Carece de um moderador que possa conduzi-lo a um desfecho ponto por ponto conflitante.

Uma coisa é certa, e isto se deve à sinceridade do ex-ministro Ciro Gomes: o projeto não vai distribuir água difusamente para as famílias de região. Aquele argumento que Lula usa no palanque de que os opositores estão tirando a água da boca das pessoas é falso. O projeto é, na verdade, um projeto de desenvolvimento que é contestado em duas linhas: sua sustentabilidade ecológica e seu futuro econômico.

No campo econômico, o grande temor é o de que o governo vai subsidiar empreendimentos não competitivos. Os estados nordestinos se comprometeram a pagar a energia. Mas muito possivelmente essa conta seria distribuída para os contribuintes; o mesmo vale para a água.

Alguns empreendimentos, como a plantação de melão e a criação de camarões, podem render alguma coisa em imposto. Mas significam muito do ponto de vista ecológico. O melão é uma fruta gostosa mas, no fundo, é uma exportação da água nordestina para o consumidor no sudeste ou no estrangeiro. Não só porque usa a água do São Francisco, mas também porque é uma bola de água.

Era preciso responder a perguntas simples, como as lançadas pelo próprio Banco Mundial: se há inúmeros projetos de irrigação não concluídos, barragens pouco utilizadas, por que começar um projeto novo que não vai levar água para os sedentos, no primeiro, e pode ser insustentável, do ponto de vista econômico?

Qual o modelo adequado para o desenvolvimento do semi-árido? Existe uma gestão competente da água que já está armazenada? Existe uma distribuição eficaz?

Os estudos da ANA apontam para a necessidade de cisternas, melhor distribuição, mais proximidade com as aspirações dos que vivem na área. O governo insiste na transposição. Alguns técnicos dizem que, dos dois canais, o canal leste é mais útil, porque será voltado para uma área pior servida: o canal norte é mais caro, tem preferência, e, no entanto, dirige-se a uma área onde a água é suficiente.

Não dá para repetir no texto o mesmo equivoco do formato do debate. É preciso reproduzi-lo com um roteiro que transforme cada problema num tópico a ser especificamente resolvido. Só assim as pessoas poderão chegar a uma conclusão clara sobre a solução mais racional.

Caso contrário, veremos um fenômeno registrado creio que pelo senador Pedro Simon: quando um orador fala a favor da transposição, você concorda com ele; quando um orador fala contra, você concorda, também.

Minha modesta contribuição é esta: fazer um debate no qual se possa parar a roda e dizer: espera aí, vamos avançar depois de termos cada tese demonstrada, ou derrubada.

O material que vi no aeroporto, os quadros sobre a situação hídrica na área, os dados sobre os quatro mil hectares de fazendas de camarão no Rio Grande do Norte vão me ser enviados por e-mail e devo voltar ao assunto

Algo que ficou também muito ligeiramente discutido foi o projeto de revitalização. O ministro Gedel disse que há obras nesse sentido em 179 municípios. Ninguém perguntou como é coordenado um projeto que abarca tantos municípios, o que representa de fato em termos de saneamento e replantio de matas ciliares. Projetos em 179 municípios, visando a um mesmo fim, precisam de um alto nível de coordenação. Com o tempo e boas chances, vamos voltando ao assunto.

No aeroporto de Brasília, assumi o compromisso de colocar a questão do semi-árido na agenda parlamentar.

Minha idéia é tirar da grande frente ecológica um grupo de deputados da região que possa cuidar especificamente do semi-árido, promovendo debates e sugerindo leis. Minha dificuldade pessoal é fôlego. No caso do São Francisco, concentrei meu trabalho na nascente da Serra da Canastra e, há dois anos, através de audiências e visitas à área, colaboro com a solução dos problemas do parque. O projeto de redesenho do Parque será relatado por mim na Comissão do Meio Ambiente.

É preciso articular também o trabalho na nascente com o trabalho independente de revitalização, como o do projeto Joaquinzão no Rio das Velhas, e com o trabalho das inúmeras organizações que atuam no semi-árido. Finalmente, com uma visita dentro de duas semanas, vamos tentar pelo menos divulgar o problema na foz, em Sergipe, onde uma língua de sal vai progressivamente neutralizando o São Francisco.

Só o São Francisco e seus problemas já dariam para ocupar muitas vidas. E temos somente uma, com outros pepinos no pipeline.

Comente | Comentários (0)

Um novo caminho

novo_caminho

Para sobreviver com capacidade de intervir no processo brasileiro, o Partido Verde precisa mudar. Para início de conversa, é preciso que compreenda que está no interior do maior movimento do mundo, que é o movimento ambiental pela sustentabilidade do planeta.

Paul Hawken, no livro Blessed Unrest (Bendita Inquietação) conta que, em suas conferências pelos EUA, sempre recebia cartões de pessoas e pequenas organizações ambientais. Resolveu dar um balanço delas no mundo e chegou a 300 mil, sem contar as 100 mil dedicadas às causas indígenas. Evidentemente que há muito mais e elas ainda não expressam as possibilidades completas do movimento pois há muita simpatia pela causa, mesmo onde não se está organizado.

Com a criação da Frente Ecológica na Câmara foi possível atrair inúmeras organizações, algumas delas como a SOS Mata Atlântica, são promotoras de nossos encontros. E principalmente foi possível atrair 250 deputados, na maior frente já criada para discutir a questão ambiental.

Isto demonstra apenas o potencial, uma vez que deputados nem sempre se orientam unicamente pelos debates, mas sofrem diferentes tipos de pressão.

O programa do Partido Verde tem quase 20 anos. Quanta água não passou por baixo da ponte, inclusive a queda do muro e Berlim? Sem um congresso nacional que atualize as posições, que analise todas aquelas propostas libertárias do passado e ofereça pelo menos um mapa do caminho, o PV será uma ficção romântica. E nao será com uma ficção romântica que se enfrentarão os grandes desafios do aquecimento global, quase todos eles já cientificamente mapeados.

Aliás, essa proximidade com a ciência, é um fator indispensável para o novo passo. No principio, denunciavam-se os crimes ambientais. Com o tempo, a própria mídia passou a cumprir esse papel. O problema agora é fazer, desenvolver projetos, interferir na realidade. E para isso, um novo tipo de militante com abertura para a ciência e capacidade de aprender com ela pode alterar o quadro. 

O IPCC, grupo de cientistas que faz os relatórios do aquecimento, foi vital para o Protocolo de Quioto e formulação de inúmeras políticas de mitigação e adaptação ao aquecimento global. Bush não ouviu os cientistas em Nova Orleans, que previam a fragilidade dos diques, e acabou contribuindo para que os desgastes fossem maiores.

Já entramos numa nova época e o PV ancorou no passado, inclusive com práticas semelhantes aos velhos partidos. Ou ele muda, torna-se transparente e eficaz, ou então será preciso buscar novos instrumentos. Caso não seja possível criar um novo partido, pelo menos tornar o pequeno núcleo que pensa numa espécie de software, informando e orientando, no campo ambiental, os partidos existentes e todos os setores que precisarem de nossa colaboração.

Esta é apenas mais uma visão de como será a tarefa em 2008.

Comente | Comentários (0)

Arte nas ruas

{7DA61C95-2736-43CF-8EF3-15F30B85C8CD}_cotidiano

O artesanato é um dos pontos centrais na sustentabilidade de Tiradentes. O centro histórico está dominado por lojas que se dedicam a isto e, num distrito chamado Bichinhos, os artistas se concentram para a produção. 

Andamos pelo centro de Tiradentes e visitamos Bichinhos. Aqui a experiência mais conhecida é a da Oficina de Agosto, que começou aproveitando madeira de demolição, cresceu e hoje já está exportando para a Bélgica.

O artesanato em Tiradentes é voltado para gente com dinheiro mas também há uma linha bem barata. De um modo geral, a inspiração é a popular, o próprio artesanato mineiro mas os antiquários trabalham também com peças coloniais, portas antigas, painéis restaurados. Ha uma grande margem de escolha.

Como muitos artistas mudaram-se para a cidade, sua presença pode ser notada em inúmeros detalhes pelo transeunte atento.

Algumas imagens revelam o que vimos, como as peças são produzidas e, finalmente, como interagem com as pessoas, colocadas à venda na cidade.

Comente | Comentários (0)