Acompanhei o debate sobre a transposição do São Francisco de três maneiras. Uma, é claro, ao vivo, sentado no plenário do Senado. A outra maneira foi ouvir alguma coisa pela televisão, nos momentos em que tinha de resolver coisas ou receber gente no gabinete. A terceira forma foi conversar, longamente, com três debatedores no aeroporto de Brasília, quando voltávamos para nossas cidades ontem. Eles foram gentis comigo, reproduziram suas falas e abriram seus laptops no saguão do aeroporto para mostrar os dados e quadros.
Antes de falar diretamente sobre o tema, considero a aspereza do debate sobre a transposição do São Francisco um passo equivocado. No fundo, estamos irmanados no mesmo sonho de garantir no semi-árido uma quantidade de água necessária para uma existência digna. É um sonho de muitas gerações de políticos e, no meu caso, um sonho urgente, pois já estamos na etapa final de nossa vida útil.
Discordamos apenas sobre a maneira como se deve resolver a questão. O modelo do debate, no entanto, é inadequado para levar a uma conclusão. Ele é organizado de forma tal que cada um fala 15 minutos sobre o tema, alinhando seus argumentos. Não há nenhuma possibilidade, nesse formato, de se parar o debate num ponto e dizer: então, vamos esclarecer especificamente isto.
No meu entender, o debate não carece de presidente, um senador austero contando o tempo de quem fala. Carece de um moderador que possa conduzi-lo a um desfecho ponto por ponto conflitante.
Uma coisa é certa, e isto se deve à sinceridade do ex-ministro Ciro Gomes: o projeto não vai distribuir água difusamente para as famílias de região. Aquele argumento que Lula usa no palanque de que os opositores estão tirando a água da boca das pessoas é falso. O projeto é, na verdade, um projeto de desenvolvimento que é contestado em duas linhas: sua sustentabilidade ecológica e seu futuro econômico.
No campo econômico, o grande temor é o de que o governo vai subsidiar empreendimentos não competitivos. Os estados nordestinos se comprometeram a pagar a energia. Mas muito possivelmente essa conta seria distribuída para os contribuintes; o mesmo vale para a água.
Alguns empreendimentos, como a plantação de melão e a criação de camarões, podem render alguma coisa em imposto. Mas significam muito do ponto de vista ecológico. O melão é uma fruta gostosa mas, no fundo, é uma exportação da água nordestina para o consumidor no sudeste ou no estrangeiro. Não só porque usa a água do São Francisco, mas também porque é uma bola de água.
Era preciso responder a perguntas simples, como as lançadas pelo próprio Banco Mundial: se há inúmeros projetos de irrigação não concluídos, barragens pouco utilizadas, por que começar um projeto novo que não vai levar água para os sedentos, no primeiro, e pode ser insustentável, do ponto de vista econômico?
Qual o modelo adequado para o desenvolvimento do semi-árido? Existe uma gestão competente da água que já está armazenada? Existe uma distribuição eficaz?
Os estudos da ANA apontam para a necessidade de cisternas, melhor distribuição, mais proximidade com as aspirações dos que vivem na área. O governo insiste na transposição. Alguns técnicos dizem que, dos dois canais, o canal leste é mais útil, porque será voltado para uma área pior servida: o canal norte é mais caro, tem preferência, e, no entanto, dirige-se a uma área onde a água é suficiente.
Não dá para repetir no texto o mesmo equivoco do formato do debate. É preciso reproduzi-lo com um roteiro que transforme cada problema num tópico a ser especificamente resolvido. Só assim as pessoas poderão chegar a uma conclusão clara sobre a solução mais racional.
Caso contrário, veremos um fenômeno registrado creio que pelo senador Pedro Simon: quando um orador fala a favor da transposição, você concorda com ele; quando um orador fala contra, você concorda, também.
Minha modesta contribuição é esta: fazer um debate no qual se possa parar a roda e dizer: espera aí, vamos avançar depois de termos cada tese demonstrada, ou derrubada.
O material que vi no aeroporto, os quadros sobre a situação hídrica na área, os dados sobre os quatro mil hectares de fazendas de camarão no Rio Grande do Norte vão me ser enviados por e-mail e devo voltar ao assunto
Algo que ficou também muito ligeiramente discutido foi o projeto de revitalização. O ministro Gedel disse que há obras nesse sentido em 179 municípios. Ninguém perguntou como é coordenado um projeto que abarca tantos municípios, o que representa de fato em termos de saneamento e replantio de matas ciliares. Projetos em 179 municípios, visando a um mesmo fim, precisam de um alto nível de coordenação. Com o tempo e boas chances, vamos voltando ao assunto.
No aeroporto de Brasília, assumi o compromisso de colocar a questão do semi-árido na agenda parlamentar.
Minha idéia é tirar da grande frente ecológica um grupo de deputados da região que possa cuidar especificamente do semi-árido, promovendo debates e sugerindo leis. Minha dificuldade pessoal é fôlego. No caso do São Francisco, concentrei meu trabalho na nascente da Serra da Canastra e, há dois anos, através de audiências e visitas à área, colaboro com a solução dos problemas do parque. O projeto de redesenho do Parque será relatado por mim na Comissão do Meio Ambiente.
É preciso articular também o trabalho na nascente com o trabalho independente de revitalização, como o do projeto Joaquinzão no Rio das Velhas, e com o trabalho das inúmeras organizações que atuam no semi-árido. Finalmente, com uma visita dentro de duas semanas, vamos tentar pelo menos divulgar o problema na foz, em Sergipe, onde uma língua de sal vai progressivamente neutralizando o São Francisco.
Só o São Francisco e seus problemas já dariam para ocupar muitas vidas. E temos somente uma, com outros pepinos no pipeline.
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