Notas sobre a Previdência

Foi um soco no estômago. A julgar pelos relatos, os garotos do Morro da Providência sofreram muito. Em primeiro lugar, os soldados do Exército tentaram arrancar seus cordões de pescoço. Em segundo lugar, foram espancados. Finalmente, depois de entregues aos traficantes do Morro da Mineira, tiveram órgãos amputados e foram muitas vezes alvejados.

Esta barbaridade representa, além do sofrimento das famílias, um grande baque na imagem do Brasil. O Exército brasileiro, que se comporta tão bem no Haiti, aparece, aos olhos do mundo, como um esquadrão de bárbaros.

Como foi possível este equívoco? Ao ir para o Haiti, sob a égide da ONU, o Brasil estava coberto por leis especiais. No Morro da Providência, não.

Só uma política vulgar poderia ter jogado o Exército na lama. E esta política passou pelos mesmos atrativos do Haiti: receber algum dinheiro pelo trabalho.

Só que no Brasil o dinheiro repassado era de uma emenda parlamentar de um senador que é candidato a prefeito do Rio.

No fundo, o Exército brasileiro foi transformado em tropa de choque da Igreja Universal. Em outro lugar, o próprio Comandante já teria pedido demissão.

Não o comandante do Leste, mas o próprio Comandante do Exército. O primeiro chegou a questionar a operação, mas não teve força para contê-la.

Se formos mais longe na compreensão desse aviltamento do Exército, veremos que a própria democracia foi aviltada. As determinações saíram do presidente da República para proteger seu amigo candidato. Naturalmente, os seus defensores vão pedir provas. Mas a verdade é que o Exército, que tem uma política, jamais faria tudo isso sorrateiramente. Só o delirio da popularidade como fator de onipotência poderia ter-nos lançado nessa tragédia.

Infelizmente, a resistência brasileira é muito débil. Vejam como a televisão se refere ao crime, em muitos momentos omitindo o caráter eleitoreiro das obras, em outros afirmando que os rapazes foram entregues a um grupo de traficantes rival. Como afirmar isto? Os rapazes não eram traficantes. Não se pode insinuar que fossem rivais dos traficantes da Mineira.

Foi tudo uma barbaridade, que é amaciada aqui e ali para que não se perceba a gravidade do erro. Os próprios soldados, reconhecendo a autoridade do grupo ADA (Amigos dos Amigos) como se fosse uma instância legal, confirmaram a máxima de que está tudo dominado.

Tráfico, soldados do Exército, comandantes sem estatura para o cargo, presidentes delirando com a popularidade e a imprensa, que às vezes reluta em chamar as coisas pelo nome, a Igreja Universal, com sua ambição de abarcar pedaços do estado brasileiro – tudo isso é horroroso. Tudo isso é a face abominável do Brasil que precisamos superar.

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Fronteiras do futuro IV

Surucuru – Quem vive nas praias e nos shoppings não pode imaginar esta vida. Em construções de madeira, soldados, mulheres e filhos vivem na floresta, isolados do mundo. Seu único ponto de escape é a pista que também foi o a alavanca desse posto avançado.

Primeiro, foi preciso baixar e construir a pista.

Depois, trazer todo o material de construção. Em seguida, desmontar equipamentos para que coubessem no avião. Resolver o problema de energia, construindo uma mini hidroelétrica aproveitando a queda do rio. Tudo, tudo, foi cavado com muito esforço. E o cotidiano não é simples.

Os soldados não ficam parados no posto. Saem em missões de reconhecimento, andando dias pela selva. Seus únicos vizinhos são os índios yanomamis. Recentemente, houve denúncia de que estavam assediando sexualmente as índias.

Foi difícil constatar isto in loco. O deputado Marcos Rollim, do PT do Rio Grande, andou por aqui fazendo um relatório que incirimina alguns soldados. No entanto, muitos pontos do relatório, em que pesem a boa vontade de Marcos, não se sustentam no confronto com a realidade.

Ele diz que os soldados fazem cocô e poluem o rio.

Mas o rio está muito longe da maloca yanomami e, além disso, seria preciso um verdadeiro fenômeno gastroinstestinal, como constatou o deputado Antônio Feijão, para que essa hipótese fosse verdadeira.

Deve ter havido contato entre índias e soldados brancos.

Deve ter havido sexo entre eles. Algumas índias confessam que tiveram relações mais ou menos estáveis.

A categoria assédio sexual, tal como foi definida no parlamento, talvez não se aplique aqui.

O que me parece cristalino é que não houve cumplicidade do Exército. As famílias daqui, elas próprias, censurariam esse intercâmbio interétnico pois pode até ameaçar sua própria segurança.

Algo que me chamou atenção no posto: um pequeno laboratório onde se fazem exames de sangue, colesterol, urina e outros.

Nos postos da selva há laboratórios para detectar doenças tropicais e vírus estranhos. É um convênio do Exército com a Fundação Osvaldo Cruz.

Vejo aí um grande caminho. Ampliar esses laboratórios para que pesquisem não só as doenças tropicais, mas também os remédios da floresta. Isso poderia dar um grande impulso à medicina popular no Brasil, no momento em que estamos cercados pelos laboratórios multinacionais.

É necessário descobrir, analisar princípio ativo, se possível mapear o genoma (temos capacidade para isto no Brasil) e garantir a patente para o Brasil, resguardando os direitos das populações indígenas.

Isso é um sonho. Mas a Amazônia é cheia de sonhos. A pista da Serra do Caximbo não existia. O brigadeiro Veloso, que era um brasileiro destemido, desceu pela primeira vez com os irmãos Villas Boas a bordo e acabaram viabilizando a rota aérea entre Manaus e o sudeste.

Estou cada vez mais convencido de que, por menor que seja, a estrutura do Exército na selva, para nós que nada temos, é um verdadeiro avião. Poderemos voar com ela, se conseguirmos atraí-los para uma política ambiental comum.

É preciso primeiro romper com os preconceitos do passado e evitar que se aproximem dos militares apenas os garimpeiros, madeireiros e grandes donos de terra.

Temos de ampliar o diálogo. Sem medo. Talvez jamais cheguemos a uma concordância total. Mas qualquer concordância, com a eficácia de sua presença na Amazônia, poder render frutos decisivos para o futuro.

Amanhã recomeço

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Fronteiras do futuro I

Viajamos cedo para Uiraquitã e Surucucu, na fronteira com a Venezuela. A última vez que estive em Boa Vista foi para dialogar com deputados venezuelanos e criar uma espécie de frente comum para tratar de problemas sérios. Os Yanomamis, por exemplo, vivem no nosso território e no deles.

Em Surucucu vamos discutir a relação dos soldados com as índias, uma vez que surgiram muitas denúncias de assédio sexual, embora essa categoria seja meio inaplicável aos casos descritos. Em Uiramutã problemas de outra ordem. O Exército prepara a construção de um posto na selva e alguns indios não querem. O caso foi para a justiça. As obras estão paradas. Trata-se de um problema na fronteira com a Venezuela que, por sua vez tem demandas com a Guiana. Se a Venezuela resolver atacar a Guiana, terá de passar pelo território brasileiro.

Essa discussão em torno do posto encobre uma outra: a da demarcação das terras indígenas em Raposa Serra do Sul. Isso é um velho impasse. Os indios querem que as terras sejam demarcadas de forma continuada. Os brancos querem que se façam ilhas. Não se consegue resolver da noite para o dia. Vamos ver se, pelo menos, conseguimos resolver a questão do posto. O Exército é muito cortejado aqui pelos deputados e fazendeiros que querem as terras dos índios. O Exército precisa de um tratamento especial para que possa manter sua equidistância e continue a tradição de Rondon.

Acho que amanhã, um pouco mais descansado, explico melhor tudo isso.

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Lições da selva

São Gabriel da Cachoeira – Saímos de Manaus bem cedo. Aqui é uma hora mais cedo, algo que nos alegra de noite e nos assusta de manhã. Acordamos de fato, às cinco horas, para uma viagem de duas horas. O piloto foi orientado a voar sobre as Anivalhanas, para que fossem vistas estas maravilhosas ilhas fluviais, transformados num parque nacional. É emocionante. Não conheço nenhum lugar assim no mundo. Fui relator do projeto que transformou Anivalhanas num parque nacional. Umas das ilhas tem forma de coração cheio de água.

Nossos dois primeiros dias foram usados também para conhecer a guerra na selva. Em Manaus o Centro de Instruções é considerado o melhor do mundo, em seu gênero. 

Fazem pesquisas interessantes. Sobre como transportar equipamentos e comida na selva, por exemplo. 

Desenvolvem dois métodos. Um, inspirado no Vietnã, experimenta o uso de bicletas na florestas. O outro, usa búfalos com bastante êxito. Foi criado uma espécie de alforje paraa carga que os búfalos levam. E eles têm a vantagem de comer o que há na própria selva. A inspiração: a polícia montada de ilha de Marajó, no Pará, que trabalha cavalgando búfalos.

Chegamos ainda de manhã ao posto de fronteira de São Gabriel da Cachoeira, um dos mais importantes porque é um dos vizinhos da Colômbia.

Cerca de 30 por cento dos soldados são de origem indígena e alguns deles nos saudaram em seus próprios idiomas. Na porta há uma uma frase lembrando que em caso de invasão os brasileiros farão como no passado: emboscadas, guerra de guerrilhas. 

Não se espera uma extensão da guerra colombiana no território brasileiro. Acabo de ver Fernando Henrique na tevê, dizendo para Bush que não há perigo de invasão de nosso território porque a plantação de cocaina está há mil quilômetros da fronteira com o Brasil.

Isso é verdade. Acontece que é um cenário em que se pensa apenas na repressão ‘a produção de coca. Outro cenário é o da repressão à guerrilha das Farc. Os norte-americanos ficariam contentes apenas com a destruição de parte da plantação de coca? Ou diriam: bem, agora que estamos aqui, gastamos US$1,4 bilhão, não seria melhor aproveitar e tentar destruir as Farc?

Chegamos ainda de manhã ao posto de fronteira de São Gabriel da Cachoeira, um dos mais importantes porque é um dos vizinhos da Colômbia.

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