19.06.2008
Foi um soco no estômago. A julgar pelos relatos, os garotos do Morro da Providência sofreram muito. Em primeiro lugar, os soldados do Exército tentaram arrancar seus cordões de pescoço. Em segundo lugar, foram espancados. Finalmente, depois de entregues aos traficantes do Morro da Mineira, tiveram órgãos amputados e foram muitas vezes alvejados.
Esta barbaridade representa, além do sofrimento das famílias, um grande baque na imagem do Brasil. O Exército brasileiro, que se comporta tão bem no Haiti, aparece, aos olhos do mundo, como um esquadrão de bárbaros.
Como foi possível este equívoco? Ao ir para o Haiti, sob a égide da ONU, o Brasil estava coberto por leis especiais. No Morro da Providência, não.
Só uma política vulgar poderia ter jogado o Exército na lama. E esta política passou pelos mesmos atrativos do Haiti: receber algum dinheiro pelo trabalho.
Só que no Brasil o dinheiro repassado era de uma emenda parlamentar de um senador que é candidato a prefeito do Rio.
No fundo, o Exército brasileiro foi transformado em tropa de choque da Igreja Universal. Em outro lugar, o próprio Comandante já teria pedido demissão.
Não o comandante do Leste, mas o próprio Comandante do Exército. O primeiro chegou a questionar a operação, mas não teve força para contê-la.
Se formos mais longe na compreensão desse aviltamento do Exército, veremos que a própria democracia foi aviltada. As determinações saíram do presidente da República para proteger seu amigo candidato. Naturalmente, os seus defensores vão pedir provas. Mas a verdade é que o Exército, que tem uma política, jamais faria tudo isso sorrateiramente. Só o delirio da popularidade como fator de onipotência poderia ter-nos lançado nessa tragédia.
Infelizmente, a resistência brasileira é muito débil. Vejam como a televisão se refere ao crime, em muitos momentos omitindo o caráter eleitoreiro das obras, em outros afirmando que os rapazes foram entregues a um grupo de traficantes rival. Como afirmar isto? Os rapazes não eram traficantes. Não se pode insinuar que fossem rivais dos traficantes da Mineira.
Foi tudo uma barbaridade, que é amaciada aqui e ali para que não se perceba a gravidade do erro. Os próprios soldados, reconhecendo a autoridade do grupo ADA (Amigos dos Amigos) como se fosse uma instância legal, confirmaram a máxima de que está tudo dominado.
Tráfico, soldados do Exército, comandantes sem estatura para o cargo, presidentes delirando com a popularidade e a imprensa, que às vezes reluta em chamar as coisas pelo nome, a Igreja Universal, com sua ambição de abarcar pedaços do estado brasileiro – tudo isso é horroroso. Tudo isso é a face abominável do Brasil que precisamos superar.








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