19.10.2009

Quando surgiu a noticia dos conflitos de fim de semana no Rio, interrompi meu trabalho em São Paulo, onde participava de um seminário, e voltei para casa. Queria colaborar. Mas para colaborar, precisava entender o que se passou. As primeiras declarações do Secretário de Segurança eram defensivas. Segundo ele, os traficantes atacaram porque estão desesperados. Estão desesperados porque a política de pacificação de algumas comunidades (Dona Marta, Cidade de Deus) foram vitoriosas.
Esta explicação é recorrente, mesmo antes da experiência de pacificação. Ela me dá a impressão de que os bandidos nunca têm planos e estratégias próprias. Reagem sempre ao avanço vitorioso da polícia. Como se num jogo de futebol, quando o adversário faz um gol, nossa reação fosse essa: fizeram um gol, porque estão apavorados com a goleada.
Outro véu que é preciso levantar é da inteligência. A polícia afirma que sabia, antecipadamente, do ataque. De fato, sabia, tanto que colocou duas equipes no próprio morro. Mas informou ainda que não evitou o ataque porque havia inúmeras entradas no Morro. Nenhum jornalista foi lá conferir. Será que Morro dos Macacos tem tantas entradas assim? Se isso fosse verdade, qual o sentido de armar um cerco ao Morro dos Macacos, quando começou o tiroteio? Se há tantas entradas que você não consegue evitar o ataque, como é que se vai controlar a saída? O cerco seria, antecipadamente, um verdadeiro queijo suíço.
Num artigo que fiz sobre a conquistas das olimpíadas, chamei a atenção para a noite de sexta no Rio. Durmo ao lado de um baile funk, ouço tiroteios há vários anos no morro. As sextas feiras são um dia especial. Não se trata de superstiçao. Precisamos examinar quando acontecem os conflitos, estudar sua frequência e estabelecer táticas corretas.
Existe um dado positivo no Rio. As pesquisas indicam que a maioria da polícia é favorável à mudança. A maioria quer melhores condições de trabalho, mais eficácia, menos corrupção. Quando você tem ao seu lado profissionais capazes e decididos, é possível avançar. Para isso era preciso um plano de liberação das áreas militarmente ocupadas.
No Haiti, liberamos duas áreas: Bel-Air e Cite Soleil. Lá gastamos por ano quase cinco vezes o que gastamos no Rio. Lá as comunidades estão numa área plana e são apenas duas. Aqui são quase 600, a maioria em morros. É um longo caminho. Não importa o quão difícil será. O que é necessário é um plano transparente, cujas etapas possam ser controladas pela população. O que está sendo feito até agora são projetos pilotos. Precisamos de algo mais. Senão, 2016 ficará perto demais para nossas possibilidades de solucionar o problema.









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