Uma cidade em choque

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Quando surgiu a noticia dos conflitos de fim de semana no Rio, interrompi meu trabalho em São Paulo, onde participava de um seminário, e voltei para casa. Queria colaborar. Mas para colaborar, precisava entender o que se passou. As primeiras declarações do Secretário de Segurança eram defensivas. Segundo ele, os traficantes atacaram porque estão desesperados. Estão desesperados porque a política de pacificação de algumas comunidades (Dona Marta, Cidade de Deus) foram vitoriosas.

Esta explicação é recorrente, mesmo antes da experiência de pacificação. Ela me dá a impressão de que os bandidos nunca têm planos e estratégias próprias. Reagem sempre ao avanço vitorioso da polícia. Como se num jogo de futebol, quando o adversário faz um gol, nossa reação fosse essa: fizeram um gol, porque estão apavorados com a goleada.

Outro véu que é preciso levantar é da inteligência. A polícia afirma que sabia, antecipadamente, do ataque. De fato, sabia, tanto que colocou duas equipes no próprio morro. Mas informou ainda que não evitou o ataque porque havia inúmeras entradas no Morro. Nenhum jornalista foi lá conferir. Será que Morro dos Macacos tem tantas entradas assim? Se isso fosse verdade, qual o sentido de armar um cerco ao Morro dos Macacos, quando começou o tiroteio? Se há tantas entradas que você não consegue evitar o ataque, como é que se vai controlar a saída? O cerco seria, antecipadamente, um verdadeiro queijo suíço.

Num artigo que fiz sobre a conquistas das olimpíadas, chamei a atenção para a noite de sexta no Rio. Durmo ao lado de um baile funk, ouço tiroteios há vários anos no morro. As sextas feiras são um dia especial. Não se trata de superstiçao. Precisamos examinar quando acontecem os conflitos, estudar sua frequência e estabelecer táticas corretas.

Existe um dado positivo no Rio. As pesquisas indicam que a maioria da polícia é favorável à mudança. A maioria quer melhores condições de trabalho, mais eficácia, menos corrupção. Quando você  tem ao seu lado profissionais capazes e decididos, é possível avançar. Para isso era preciso um plano de liberação das áreas militarmente ocupadas.

No Haiti, liberamos duas áreas: Bel-Air e Cite Soleil. Lá gastamos por ano quase cinco vezes o que gastamos no Rio. Lá as comunidades estão numa área plana e são apenas duas. Aqui são quase 600, a maioria em morros. É um longo caminho. Não importa o quão difícil será. O que é necessário é um plano transparente, cujas etapas possam ser controladas pela população. O que está sendo feito até agora são projetos pilotos. Precisamos de algo mais. Senão, 2016 ficará perto demais para nossas possibilidades de solucionar o problema.

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Nós e a China

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O ano novo no Brasil começa depois do carnaval. Na China também. Só que na China começou mais pesado, derrubando bolsas de todo o mundo.

A notícia nacional é o crescimento de 2.9 por cento na economia brasileira. Supera a do Haiti, 2.5 por cento, e perde para o Paraguai, 4 por cento.

Apesar de toda essa pressão para crescer, nosso ritmo ainda é baixo. Constatamos na segunda-feira, quando viemos para Brasília, que a crise no tráfico aéreo continua praticamente a mesma. Enquanto esperávamos quatro horas no Aeroporto do Rio, os colegas de São Paulo viviam um drama maior.

Isto motivou um pedido de CPI para apurar as causas do caos aéreo. Assinei, mas não acredito tanto nos métodos de CPI para abordar esse tema. É preciso estudar e compreender e, de alguma maneira, ajudar o governo a sair dessa.

Infelizmente, a semana aqui não foi tão produtiva quanto queríamos. Apesar da existência de projetos importantes, na área de segurança e reforma política, fomos condenados a votar as medidas provisórias do governo.

Estamos tentando uma saída para liberar a produtividade. Teremos um encontro com o Arlindo Chinaglia e vamos ver se colocamos na pauta o voto aberto e também alguns projetos de segurança, a partir de segunda que vem.

Uma observação que fiz hoje, passando por todas as comissões: o tema aquecimento global ganhou um grande espaço e pelo menos cinco delas apresentaram requerimentos sobre o assunto. São tantas as iniciativas que vamos precisar de alguma coordenação para poupar energia humana.

Por falar em China, passei a manhã no depoimento do embaixador Roberto Abednur, na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Ele estava na China, na Alemanha e Estados Unidos. O que falou, de um modo geral, está nos jornais. Observei, entretanto, que trouxe muitos dados comparativos entre EUA e China. Tive a sensação de que queria passar uma mensagem: estamos muito preocupados com o poderio norte-americano, sem perceber, claramente, como cresce o poderio chinês.

Minutos depois, a queda na Bolsa chinesa abalava o mundo. Podemos pensar assim: a China não é tão poderosa. Ou assim: ela é tão poderosa que um pequeno tremor financeiro já é capaz de abalar o mundo.

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Sobre a catástrofe política na França

Foi um domingo de choque em todo o mundo. A esquerda francesa não foi para o segundo turno. Em seu lugar, Le Pen e a extrema direita.

Sou solidário com a viagem de Lula para apoiar Jospin. Creio apenas que não devemos somente olhar para a trás. Interessa a todos nós, que amamos a França, nos alinharmos às forças que resistem à ascensão da extrema direita.

Como pode acontecer esse cataclisma? Parte da responsabilidade cabe à própria esquerda que não soube valorizar o tema segurança, argumentando que era superstimado pela direita. O próprio Jospin admitiu que foi ingênuo quanto à avaliação desse tema. Mas isso não impediu seu naufrágio: 58 por cento dos eleitores escolheram a segurança como o elemento denifidor de seu voto.

Mas um pouco de reponsabilidade recai também sobre os institutos de pesquisa, que previram um segundo turno inevitável, entre Chirac e Jospin . Os comentaristas políticos, por sua vez, insistiam que era um primeiro turno inútil, tedioso pela sua definição antecipada.

Isso influiu na juventude que abandonou as urnas. Quarenta por cento dos jovens não foram votar.

Possivelmente, a direita também tem culpa por supervalorizar o tema segurança. Mas na verdade, ela apenas insistiu, oportunisticamente, naquilo que era a preocupação popular.

Em muitos setores operários, a esquerda perdeu a extrema direita. O que mostra que os trabalhadores não distinguem entre os socialistas e o programa liberal que excluiu muitos deles.

Resta esperar a evolução dos acontecimentos, manifestando o desejo de que a extrema direita seja barrada no segundo turno, daqui a 15 dias.

Não sei como os franceses reagiriam a expressão das forças políticas brasileiras num processo. A verdade é que é preciso demonstrar nosso apego à idéia de uma França que respeita os direitos humanos, que acolhe a diversidade cultural e que rejeita no segundo turno a tendência regressive e racista de Le Pen.

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Em busca de uma luz

Participei do ato de lançamento da CPI da Corrupção. Fiquei pouco tempo pois havia uma audiência sobre a crise energética. Para mim é a grande prioridade nos próximos meses. A crise me pegou, e a todos nós, de calça na mão. Preciso recomeçar meus estudos sobre energia, avaliar em detalhes a verdadeira situação do país e contribuir, dentro dos meus limites, para que possamos atravessar esse período.

O centro da minha intervenção é afirmar que não se trata de uma crise passageira. Teremos de rever nossos hábitos de consumo de energia. E, possivelmente, teremos de suportar aumentos de tarifas.

O artigo que fiz para a Folha e deverá sair na segunda-feira já anuncia algumas constatações importantes da audiência pública. A produção de energia eólica, no Nordeste, já é da dimensão da energia produzida por Angra 1.

Sempre falamos em energia alternativa. Era conversa de poetas. Agora, o próprio capitalismo investe nessas pesquisas e talvez seja o setor onde mais se investe hoje no mundo.

Minha proposta agora é de que possamos investir mais em energia na própria página. Há problemas que ainda nem foram levantados. Por exemplo: a segurança no Rio, em tempos de apagão. Imaginem o que já precário debaixo de luz, como ficará no escuro.

Fiz uma proposta de racionamento de energia na Câmara. Queria que fossem distribuídas urnas para sugestões. O presidente da Câmara ouviu e disse que iria considerar. O terceiro homem da república parece que ainda não se deu conta das dimensões da crise.

A escuridão é também uma escolha.

Projeto de união civil de pessoas do mesmo sexo foi adiado. Drag queens tentaram entrar no Congresso e foram barradas. Tive que me responsabilizar por elas para que ocupassem seus lugares na galeria.

Todos viram que era gente de paz. Há um medo de homem vestido de mulher, fora do carnaval.

Discretamente, consegui aprovar um importante projeto na Comissão de Seguridade Social prevê uma taxa de 20 por cento na publicidade de bebidas alcoólicas. Esse dinheiro será destinado ao setor de saúde para fazer frente aos gastos com acidentados no trânsito. Grande parte deles é provocada por gente que tomou álcool. E um paciente na UTI custa o dobro para o sistema.

Espero levá-lo ao plenário em breve.

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