A paz dos cemitérios

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O verbo normalizar, usado por Sarney para descrever o que acontece no Senado, é muito significativo. Todos esperavam por outro verbo: moralizar. A normalização para um senador que deixa seu partido porque a bandeira da ética foi jogada na lata de lixo representa o horror que precisa ser enfrentado, inclusive com o risco de perder o mandato.

Numa hora dessas, é possível se pensar em duas direçoes; a eleitoral e a outra, da do interesse do país. Na primeira, a instituição putrefata vai exalar seu horrivel fedor sobre as forças que mantiveram Sarney. O preço ainda será pago.

Mas, para o interesse nacional, era preciso resolver a situação rápido, sem considerar as eleições. Num movimento interno, isto não foi possível.

Sempre disse que não bastava a opinião pública e a pressão da imprensa. Era preciso fazer algo articulado, no interior do próprio Senado.

Desde menino também, quando lutava contra o aumento do preço dos bondes, constatei que, infelizmente, um argumento apressa todos os processos: o cheiro de fumaça.

É o tipo do argumento que, hoje, em dia combato. É preciso algo não violento. E creio que a resistência pacífica deveria ser reservada para todos os senadores que se apresentarem na campanha de 2010. Nem todos tiveram o mesmo comportamento. Mas todos terão de explicar o que fizeram durante esta crise .

Os estretegistas convencionais acham que tudo voltará ao normal, que as pessoas vão esquecer. Não percebem que o mau cheiro vai envolver também sua campanha presidencial. Estão sentados em cima de um cadáver, uma instituição morta, com um Conselho de Ética dominado por cafajestes.

Mesmo sem cheiro de fumaça, tão eficaz no passado, o país achará  uma forma de punir os coveiros da credibilidade política.

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Além dos bigodes de Sarney

O que está acontecendo no Brasil? Para muita gente, há apenas Sarney resistindo no Senado. E um uso insano de dinheiro público na instituição. Pois bem: Sarney cairá e, de uma forma ou outra (Polícia Federal, Tribunal de Contas, Ministério Público) o Senado terá de adotar a austeridade necessária a um órgão público.

Isto é  apenas o lado imediato. Um candidato à presidência do Chile usou uma interessante imagem: ondas de democratização. Já tivemos a nossa: eleições diretas, política econômica austera, uma generosa política social. Enfim, avançamos, para, em seguida, empacarmos.

As forças políticas convencionais não têm energia para conduzir a segunda onda de democratização. Ela passa pela credibilidade, transparência, reconhecimento dos erros e correção da rota. Dispensa desculpas esfarrapadas como as de Lula ou saídas cínicas como as de Sarney.

Embora tivesse embutido no seu discurso o tema da segunda onda de democratização, o PT estacionou na primeira. Optou por uma política social generosa e uma aliança com o atraso. Mas quem condições de romper com o atraso? Quem é capaz de acreditar na capacidade de entendimento do povo e enfrentar o PMDB e o fisiologismo? Infelizmente, esta disposição só existe em candidatos minoritários. Nenhum grande grupo político brasileiro abraçou a segunda onda de democratização.

Voltaremos a ela.

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Sarney, Marina e Tião

Marina Silva e Tião Viana deram entrevistas, deixando claro que são pela saída de Sarney. Não aceitaram a orientação de Lula, nesse particular. Eles sabem o que fazem. Perceberam que não há horizonte na permanência de Sarney. O Senado precisa de uma profunda reforma. Tião foi um pouco mais longe, lamentando que Lula nada tenha feito para melhorar as relações políticas no País. Os partidos ficaram mais fracos, depois de sua chegada ao governo.

Marina e Tião são dois senadores do Acre. Próximos aos verdes, foram companheiros de Chico Mendes. É preciso apoiá-los nesse caminho independente. Suplicy, Flávio Arns e Paulo Paim parece que também querem a saída de Sarney. Será uma semana decisiva.

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A cerimônia do adeus

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Não tenho condições de intervir, diretamente, na crise do Senado. O foco agora é Sarney. Interagimos em vários momentos históricos. Fui detido algumas horas, no seu governo, porque exibi o filme que ele proibiu, Je Vous Salue Marie. Fizemos o mesmo projeto de garantia de coquetel gratuito para portadores de HIV. Gostamos de ler e escrever. Sempre houve cordialidade entre nós.

Difícil entender como ainda não percebeu que a renúncia é melhor coisa para ele. Nem porque alguém tão preocupado com o ritual da presidência seja tão alheio à cerimônia do adeus, um ajuste de contas com a biografia, na fase final da existência. Não o considero o único responsável pela crise do senado; sua saída é apenas uma condição. Se a reforma sair como se deseja, poderá argumentar que seu gesto contribuiu para ela. Se não sair, poderá afirmar que foi um equívoco concentrar nele tanta expectativa.

Não adianta prosseguir como um fósforo frio. Essa etapa está decidida. Depois das punições, a fase crucial será vivida adiante: austeridade. Com tantos funcionários, será preciso coragem para demitir. Mesmo se o país tiver que pagar para cumprir essa decisão, compensa estancar o desperdício, que se manifesta também na miríade de gratificações.

A denúncia do escândalo das passagens no Congresso representou um grande avanço. Milhões de reais foram economizados, quando se adotaram novas regras. É a face material da luta pela transparência: otimizar o dinheiro público.

O Senado e a Câmara, num nível menor, revelaram-se para a sociedade como duas instituições perdulárias. O preço é a perda da credibilidade, em seguida, a perda total do respeito. Como é possível aceitar este caminho, fazer da política uma vergonhosa atividade humana?

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