Pré-sal, perda inevitável

pre_sal_pre_historia

Desde quando começou a discussão sobre o pré-sal, ficou claro que o Rio iria perder. Numa negociação dramática, no Planalto, Lula decidiu manter as regras antigas, até  que houvesse uma nova lei. Ora, caindo no Congresso o tema iria inspirar uma nova lei. Deputados de todos os cantos do país querem favorecer suas regiões e consideram que os royalties são de todos.

Com isto, todas votações vão apresentar um resultado negativo, pois a maioria do país votará contra o desejo do Rio de manter o status-quo, também na exploração do que ainda não foi contratado no pré-sal.

A idéia de vitória aqui, será convencer deputados de outros cantos do país que o estado onde se produz tem desgastes com o meio ambiente, recebe milhares de candidatos ao posto de trabalho, tem suas estruturas de saúde, segurança, transporte e educação tensionados.

Na comissão especial, conseguimos pelo menos que três por cento dos royalties fossem para o meio ambiente. É uma vitória parcial. Resta agora acompanhar o processo e meu projeto para criação de uma comissão de oceanos está pronto. Vou lançá-lo em janeiro, porque aprendi em 68 que nas últimas semanas de dezembro nada deve ser lançado aqui, exceto Papai Noel.

Comente | Comentários (10)

O ovo da serpente

ilustra_ovo_da_serpente

A violência no Rio é muito debatida, quando há grandes fatos, crimes revoltantes. No entanto, muitas coisas acontecem numa quase surdina e elas são o indício de que os tempos podem ser piores.

Há alguns meses, o site do jornal O Dia divulgou um vídeo da comemoração do aniversário de um traficante no Complexo do Alemão. Havia uma tal concentração de armas nas mãos dos participantes da festa que pareciam preparados para dominar uma boa parte da cidade. Fuzis pendurados no peito, o aniversário parecia um momento de descanso de um exército tropical e descamisado.

Aquilo passou. Afinal é preciso tocar as obras do PAC. Agora, no auge da crise do helicóptero abatido, surgiu uma outra despretensiosa noticia no jornal da rádio Bandeirantes: um candidato potencial a deputado foi assassinado em Rio das Pedras, região dominada pelas milícias. O corpo foi encontrado na Cidade de Deus, com perfurações de bala e sinais de tortura.

Às vezes, quando se dá  a crise a sensação que temos é de que tudo vai mudar. O governo anuncia medidas, Brasília envia mais dinheiro e todos tentam dormir tranqüilos.

O processo não para. Enquanto se discute se a pré campanha presidencial está  nos limites da lei, uma outra pré-campanha está em curso. Ela começa com a eliminação física de adversários. Tanto no Complexo do Alemão como em Rio das Pedras, os vínculos entre política e crime passam ao largo e, quando surgem acontecimentos espetaculares, parecem um relâmpago em céu azul.

Todos esses fuzis e metralhadoras estarão diante de nós na campanha de 2010. Não é difícil saber a quem servem. O foco atual é o comércio de drogas. Mas durante o período não eleitoral, esquecemos do comércio de votos, ao qual as armas servem com grande eficácia. Servem a quem?

Comente | Comentários (13)

Rio ao alvo

rio_ao_alvo

Não é preciso acabar com a violência no Rio para realizar as Olimpíadas. A Rio 92 e o Pan foram feitos com esquemas pontuais de segurança. E deram certo.

É preciso reduzir a violência por amor ao Rio. Nossa singularidade: o tráfico de drogas e as milícias ocupam militarmente parte do território. Sem um plano de libertação das pessoas sob o jugo dessas forças, tudo vira conversa fiada.

Um plano para liberar quase 600 comunidades não quer dizer plano piloto, feito num só lugar para atrair a imprensa. Significa recurso humano, equipamento e dinheiro.

No Haiti, gastamos mais que no Rio e lá foram pacificadas duas áreas: Bel-Air e Cité  Soleil. Ambas estão situadas numa área plana, ao contrário das quase 600 cariocas, a maioria em morros.

Ao contrário do que muitos pensam, a polícia carioca, na sua maioria, é favor de reformas e, nas eleições, vota com propostas de mudança.

O que está faltando é  um projeto de liberação que possa ser verificado em suas diferentes etapas. Isso deveria partir de um presidente. Tanto Lula como Fernando Henrique mantiveram uma distância olímpica desse tema.

É como se a questão policial não fosse nobre o bastante para ocupar um estadista. Cá prá  nós, no Afeganistão, derrubam helicópteros e é uma guerra. O problema no Rio não é só a derrubada de helicópteros, mas a aparição de corpos em carros de supermercado.

É toda uma idéia de civilização brasileira que é implodida por essas imagens. Esqueçam as Olimpíadas. Concentrem-se numa idéia de país que  se dissipa na fumaça dos tiros, nos corpos amontoados em porta-malas. Por amor ao Rio, esqueçam a interface com o mundo, concentrem-se na fronteiras da barbárie.

Há anos que esperamos uma resposta e só ouvimos o matraquear das armas, a explosão de granadas.

Rio ao alvo

Fernando Gabeira

Não é preciso acabar com a violência no Rio para realizar as Olimpíadas. A Rio 92 e o Pan foram feitos com esquemas pontuais de segurança. E deram certo.

É preciso reduzir a violência por amor ao Rio. Nossa singularidade: o tráfico de drogas e as milícias ocupam militarmente parte do território. Sem um plano de libertação das pessoas sob o jugo dessas forças, tudo vira conversa fiada.

Um plano para liberar quase 600 comunidades não quer dizer plano piloto, feito num só lugar para atrair a imprensa. Significa recurso humano, equipamento e dinheiro.

No Haiti, gastamos mais que no Rio e lá foram pacificadas duas áreas: Bel-Air e Cité  Soleil. Ambas estão situadas numa área plana, ao contrário das quase 600 cariocas, a maioria em morros.

Ao contrário do que muitos pensam, a polícia carioca, na sua maioria, é favor de reformas e, nas eleições, vota com propostas de mudança.

O que está faltando é  um projeto de liberação que possa ser verificado em suas diferentes etapas. Isso deveria partir de um presidente. Tanto Lula como Fernando Henrique mantiveram uma distância olímpica desse tema.

É como se a questão policial não fosse nobre o bastante para ocupar um estadista. Cá prá  nós, no Afeganistão, derrubam helicópteros e é uma guerra. O problema no Rio não é só a derrubada de helicópteros, mas a aparição de corpos em carros de supermercado.

É toda uma idéia de civilização brasileira que é implodida por essas imagens. Esqueçam as Olimpíadas. Concentrem-se numa idéia de país que  se dissipa na fumaça dos tiros, nos corpos amontoados em porta-malas. Por amor ao Rio, esqueçam a interface com o mundo, concentrem-se na fronteiras da barbárie.

Há anos que esperamos uma resposta e só ouvimos o matraquear das armas, a explosão de granadas.

Comente | Comentários (19)

Uma cidade em choque

ilustra_cidade_em_choque

Quando surgiu a noticia dos conflitos de fim de semana no Rio, interrompi meu trabalho em São Paulo, onde participava de um seminário, e voltei para casa. Queria colaborar. Mas para colaborar, precisava entender o que se passou. As primeiras declarações do Secretário de Segurança eram defensivas. Segundo ele, os traficantes atacaram porque estão desesperados. Estão desesperados porque a política de pacificação de algumas comunidades (Dona Marta, Cidade de Deus) foram vitoriosas.

Esta explicação é recorrente, mesmo antes da experiência de pacificação. Ela me dá a impressão de que os bandidos nunca têm planos e estratégias próprias. Reagem sempre ao avanço vitorioso da polícia. Como se num jogo de futebol, quando o adversário faz um gol, nossa reação fosse essa: fizeram um gol, porque estão apavorados com a goleada.

Outro véu que é preciso levantar é da inteligência. A polícia afirma que sabia, antecipadamente, do ataque. De fato, sabia, tanto que colocou duas equipes no próprio morro. Mas informou ainda que não evitou o ataque porque havia inúmeras entradas no Morro. Nenhum jornalista foi lá conferir. Será que Morro dos Macacos tem tantas entradas assim? Se isso fosse verdade, qual o sentido de armar um cerco ao Morro dos Macacos, quando começou o tiroteio? Se há tantas entradas que você não consegue evitar o ataque, como é que se vai controlar a saída? O cerco seria, antecipadamente, um verdadeiro queijo suíço.

Num artigo que fiz sobre a conquistas das olimpíadas, chamei a atenção para a noite de sexta no Rio. Durmo ao lado de um baile funk, ouço tiroteios há vários anos no morro. As sextas feiras são um dia especial. Não se trata de superstiçao. Precisamos examinar quando acontecem os conflitos, estudar sua frequência e estabelecer táticas corretas.

Existe um dado positivo no Rio. As pesquisas indicam que a maioria da polícia é favorável à mudança. A maioria quer melhores condições de trabalho, mais eficácia, menos corrupção. Quando você  tem ao seu lado profissionais capazes e decididos, é possível avançar. Para isso era preciso um plano de liberação das áreas militarmente ocupadas.

No Haiti, liberamos duas áreas: Bel-Air e Cite Soleil. Lá gastamos por ano quase cinco vezes o que gastamos no Rio. Lá as comunidades estão numa área plana e são apenas duas. Aqui são quase 600, a maioria em morros. É um longo caminho. Não importa o quão difícil será. O que é necessário é um plano transparente, cujas etapas possam ser controladas pela população. O que está sendo feito até agora são projetos pilotos. Precisamos de algo mais. Senão, 2016 ficará perto demais para nossas possibilidades de solucionar o problema.

Comente | Comentários (13)

Uma chance para o Rio

ilustra

A escolha do Rio para sediar as Olimpíadas em 2016 abre grandes caminhos. Líderes políticos, Lula à frente, tiveram um belo papel nisso e merecem os dividendos políticos que vão colher. Para quem vive na cidade, o tema entrou na agenda. Em primeiro lugar, estudar a história das Olimpíadas e grandes empresas esportivas que floresceram na sua sombra. Em segundo lugar, cooperar com o êxito da inédita experiência brasileira.

O êxito pode ser medido em duas dimensões. A da realização pura e simples das Olimpíadas e o impulso para que o Rio fixe uma identidade global: cidade do conhecimento, laboratório da sustentabilidade urbana e centro internacional de turismo.

Nesse último ponto, o crescimento poderia se articular com áreas mais próximas: a região serrana, Niterói, o litoral de Búzios, Angra, Parati.

Em 2008, discutimos muito a recuperação do Rio. Os obstáculos são muitos. Mas uma coisa a cidade sempre demonstrou, quando acionada: a disposição para se mobilizar.

Por que não resolver a pobreza, aumentar a segurança, melhorar o sistema de saúde, antes de uma grande aventura? A solução de todos esses problemas depende também de crescimento econômico.

Se o esforço de fazer uma olimpíada for combinado com uma perspectiva estratégica de recuperação da cidade as chances são muito maiores. O projeto destinado á vitória na Dinamarca enfatiza a beleza da cidade. A visão de recuperá-la enfoca também as áreas decadentes, como a região portuária.

É possível manter a fidelidade ao projeto original, e encaminhar benefícios para o centro do Rio. O prefeito Eduardo Paes parece disposto a caminhar nesse sentido. Barcelona foi vencedora durante e depois das Olimpíadas. Montreal ficou com dívidas e um gosto de oportunidade perdida.

Comente | Comentários (19)

Uma grande chance para o Rio

sexta_de_sorte_ok

Muita gente estava em dúvida sobre a importância das Olímpiadas no Rio. Alguns se colocavam contra esta hipótese, a maioria, entretanto, segundo as pesquisas, achava bom. Agora que a vitória surgiu, o ideal seria que todos se unissem para que as coisas corressem muito bem para a cidade.

Muitos que eram contra, temiam a corrupção. Isto significa que para atenuar esse apreensão, teremos de lutar por transparência. Outros temiam que o legado não ficasse para o povo. Isto também pode ser objeto de luta e correção.

As chances para o Rio são grandes, como foram as de Barcelona. A cidade encontrou seu caminho, tornou-se um centro turístico que hoje recebe mais gente que o Brasil inteiro.

A cultura em Barcelona tem um grande peso. Mas o Rio além da cultura tem a natureza, a Mata Atlântica, o oceano e centros bem próximos, como a Serra e o sul do estado que podem ampliar suas possibilidades.

O exemplo de Barcelona não é o único. Há cidades, como Montreal, em 76, que sediaram as Olímpiadas e ficaram devendo dinheiro. Montreal até hoje paga a dívida e não obteve as vantagens que aspirava.

Portanto, a vitória do Rio, se pensamos a longo prazo, só será completa se fizermos bem o dever de casa, usando este processo para fixar a cidade como um grande centro turístico internacional. Nossos 22 mil leitos em hotel não são quase nada diante de Tóquio e Chicago. Poderemos crescer de forma sustentada, daí preferir que se construam hotéis à pura ancoragem de transatlânticos em nossa costa.

Não importa quem vai tirar dividendos políticos dessa vitória do Rio. Tanto Nuzman, como Lula, Cabral e Paes sairam-se muito bem, fizeram um trabalho profissional que se estendeu aos discursos e às respostas. O importante é olhar para adiante das divergências políticas e se fixar no futuro da cidade e este futuro, mesmo que alcance a alguns nos últimos anos de vida, é fundamental para os filhos, os netos, todos os que amam esta cidade maravilhosa.

Comente | Comentários (25)

A sorte numa sexta-feira

sexta_de_sorte_ok

Hoje é um dia especial. Não vou percorrer labirintos em Tegucigalpa em mergulhar nos abismos oceânicos, onde se extrai o petróleo. Hoje é  sexta e o que acontecer em Copenhague terá um efeito direto em nossas vidas.

Hoje é sexta e vou ouvir como sempre as batidas do baile funk, um ou outro tiro perdido, motoristas tresloucados tomando as ruas, enfim,  hoje em dia acontece na noite de sexta quase tudo que era reservado ao sábado, no poema de Vinicius de Moraes.

Oitenta e cinco por cento dos cariocas, dizem as pesquisas, querem as Olímpiadas no Rio. Os habitantes de Tóquio querem menos a escolha de sua cidade. Apenas 56 por cento. Em Chicago há movimento contra, pois temem-se os gastos excessivos e a roubalheira de políticos.

As autoridades declararam feriado, há festas programadas na orla . Espero encontrar a feira livre na Nossa Senhora da Paz. É tempo de jaboticabas e surgiu uma romã imensa, cinematográfica.

Dizem que Lula falará  sobra importância da Olimpíada para a auto-estima dos  brasileiros. Nem sei se isso procede. Mas auto-estima prá cá, auto-estima prá lá, estamos sempre vivendo o mesmo enredo.

Deveria haver uma hora para cessar a auto-estima. Meia noite é pouco, reconheço. Mas às duas da manhã, quando todos os bares já se fecharam, todas as auto-estimas deveriam também ser negadas. Hora em que deveríamos aceitar nosso destino e dormir em paz, como quem mora em Tóquio, Chicago ou Madri.

Se o Rio vencer, esperam-se investimentos maciços. Tivemos um Pan que nos deixou alguns elefantes brancos e muitas dúvidas sobre a aplicação do dinheiro.

Em caso de derrota, com as ruas cheias e alguma bebida, talvez seja preciso acalmar as pessoas. Convocou-se uma festa antecipada. De qualquer forma, à noite dançamos o funk.

A sorte numa sexta-feira Fernando Gabeira

Hoje é um dia especial. Não vou percorrer labirintos em Tegucigalpa em mergulhar nos abismos oceânicos, onde extrai petróleo. Hoje é  sexta e o que acontecer em Copenhague terá um efeito direto em nossas vidas.

Hoje é sexta vou ouvir como sempre as batidas do baile funk, um ou outro tiro perdido, motoristas tresloucadas tomando as ruas, enfim hoje em dia acontece na noite de sexta quase tudo que era reservado ao sábado, no poema de Vinicius de Moraes.

Oitenta e cinco por cento dos cariocas, dizem as pesquisas querem as Olímpiadas no Rio. Os habitantes de Tóquio querem menos a escolha de sua cidade. Apenas 56 por cento. Em Chicago há movimento contra pois temem-se os gastos excessivos e a roubalheira de políticos.

As autoridades declararam feriado, há festas programadas na orla . Espero encontrar a feira livre na Nossa Senhora da Paz. É tempo de joboticabas e surgiu uma romã imensa, cinematográfica.

Dizem que Lula falará  sobra importância da Olimpíada para a auto estima dos  brasileiros. Nem sei se isso procede. Mas autoestima prá cá, autoestima prá lá, estamos sempre vivendo o mesmo enredo.

Deveria haver uma hora para cessar a autoestima. Meia noite é pouco reconheço. Mas as duas da manhã, quando todos os bares já se fecharam tôdas as autoestima deveriam também ser negadas. Hora em que deveríamos aceitar nosso destino e dormir em paz, como quem mora em Tóquio, Chicago ou Madri.

Se o Rio vencer, esperam-se investimentos maciços. Tivemos um Pan que nos deixou alguns elefantes brancos e muitas dúvidas sobre a aplicação do dinheiro.

Em caso derrota, com as ruas cheias e alguma bebida, talvez seja preciso acalmar as pessoas. Convocou-se uma festa antecipada. De qualquer forma, a noite dançamos o funk.

Comente | Comentários (11)