Quimeras e zumbis no horizonte das Américas

Porto Príncipe – Gostei muito de um pintor haitiano chamado Stivenson Magloire. Uma dona de galeria resolveu abrir sua loja para mostrar os quadros dele. Fiquei impressionado com o tempo que levou, retirando cinco enormes cadeados da porta. Depois de alguns dias, ouvi o canto de um pássaro e, quando me precipitei para a varanda a fim de vê-lo, percebi que havia grades e cadeados.

Compreendi então que, em menos de alguns minutos, não veria o pássaro solitário que cantou numa árvore do bairro mais rico de Porto Príncipe.

Na estrada principal do país, a caminho da cidade de Cabaret, vi imensas voçorocas, a terra fendida ao meio como se fosse golpeada incessantemente por facões gigantescos. A paisagem do campo é triste, pela devastação ecológica; a de Porto Príncipe, repleta de ruínas não apenas de prédios antigos mas de casas que não chegaram a ser concluídas.

Apesar destes fatos, continuo me interessando pelo Haiti e, na terça, vi um espetáculo que poucos povos do mundo seriam capazes de produzir. Milhares de pessoas resistiram nas filas de seis, sete horas, para votarem em seu novo presidente e formarem um novo parlamento.

Houve tumulto aqui e ali. Morreram cinco pessoas. Outro dia, no Pará, morreu gente tentando comprar ingressos para um jogo da seleção brasileira. A imprensa se concentrou no caos, e isto é compreensível. Mas o caos, daqui a uns dias, será um pé de página: o acontecimento histórico das eleições prevalecerá, embora isto tenha sido apenas um primeiro passo.

Quando o Brasil decidiu mandar tropas, fui contrário e disse claramente a um grupo de generais no chamado Forte Apache em Brasília: uma vez decidido o envio de tropas, estamos no mesmo barco e farei tudo para que nos saíamos bem.

Sair-se bem e sair bem. O Brasil fez um excelente trabalho no bairro de Bel-Air: tapou buracos, recolheu lixo, instalou um pequeno posto médico nas proximidades e ganhou o apoio da população. Os documentos internos da ONU reconhecem esta política e costumam divulgá-la como a doutrina do general Heleno, o primeiro comandante da Ministah.

Chegou o momento de sair bem, de organizar gradativamente a retirada das tropas e transformar a cooperação econômica e cultural com o Haiti no centro de nossa ajuda. Chegou o momento de levar para o Brasil a tática que utilizamos aqui.

Dois anos se passaram depois da queda de Aristide. Os intelectuais que cercam Bush deveriam estar se perguntando se valeu a pena. As eleições, e basta andar por aqui para sentir, revelaram o peso de sua ausência. O golpe de Estado, ao invés de liquidar seu prestígio, serviu para mitificar sua aura.

Mesmo num país desencantado pelo avanço do capitalismo, o caminho antidemocrático acabaria fortalecendo o governo corrupto que se tenta afastar. No Haiti há quem diga que Aristide tem o corpo fechado. A linguagem cotidiana revela que muitos ainda vivem num mundo mágico. Os chiméres (os grupos armados), por exemplo, são chamados assim por analogia aos fantasmas que aparecem e desaparecem com facilidade. “Chimére” em português significa “quimera” e, como diz nossa canção popular, toda quimera se esfuma. A própria figura do zumbi, envenenado por um peixe e que acha que morreu, pertence à magia. Os zumbis servem aos seus mestres incansavelmente e estão muito presentes na própria arte popular haitiana.

Dois anos depois, ganhou a eleição no Haiti quem, entre os candidatos, foi associado pelo povo com o Aristide. O caminho poderia ter sido diferente, como, guardadas as abissais diferenças, poderia ter sido diferente o caminho no Iraque,diante da tirania de Sadam Hussein.

Os intelectuais que orientam Bush estavam muito confiantes de seu poder e resolveram exercitar os músculos ao invés dos neurônios. Eleições são importantes, mas não fazem milagre. A Fatah se corrompeu e abriu caminho para o Hamas na Palestina. Aristide foi mandado para a África do Sul e o caminho foi aberto para Préval -o mesmo que ele conseguiu paralisar nos seus dois últimos anos de governo e que, certamente, vai influenciar agora.

Préval vai visitar todos os países que ajudaram o Haiti. Mas, no fundo, seu coração reconhece duas grandes amizades: Cuba e Taiwan. Cuba porque ajuda discretamente, com médicos que partilham o destino do povo; Taiwan porque financiou sua campanha e tem colocado dinheiro em tudo por aqui, inclusive no estádio onde se fez aquele jogo da seleção brasileira.

Jamais pedi a retirada imediata das tropas porque sempre temi o efeito Ruanda. Procurei fazer uma leal oposição ao imenso passo que o Brasil deu, se jogando nesse processo. Como dizia Cazuza, o tempo não pára, o jogo não acabou. Tanto os intelectuais de Bush como os de Lula precisam confiar mais na cabeça. Freud, por exemplo, poderia ajudá-los na compreensão do processo histórico: o reprimido sempre reaparece no repressor. Aristide emergiu das urnas como uma chimére.

Se não tivermos uma análise própria não só do Haiti, mas do mundo, vamos remendar os equívocos norte-americanos, como o golpe que derrubou Aristide, e vamos vagar pelas Américas como um zumbi, incansavelmente operoso.

Na condenação à invasão do Iraque coincidi com o governo. Nessa aventura haitiana, mesmo reconhecendo a correção de nosso Exército, continuo achando o envio de tropas uma decisão precipitada. Depois do show cívico no intervalo eleitoral, vamos ao segundo tempo. Contra ou a favor, de certa forma, estarei sempre no mesmo barco. E la nave va.

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Chegou a hora

Foi um dia de meio feriado em Porto Príncipe. Meio porque grande parte das pessoas vive na informalidade e continua vendendo suas mercadorias na rua. Mas o tema eleições predomina nas coversas, segundo depoimentos de todos os que andam pelas ruas da cidade.

Visitamos nesse fim de segunda-feira o comitê de René Preval onde estão sendo treinados os monitores dos fiscais do partido Lespawa que significa A Esperança.

O ex-ministro do exterior de Preval, Fritz Longchamp nos informou que foram preparados 18 mil fiscais, sendo que apenas 8 mil deles estarão trabalhando dentro das seções eleitorais.

A conversa sobre o futuro da política externa haitiana foi muito rápida mas Longchamp deixou claro o que já se comenta por aqui. Os dois principais amigos do futuro governo de Preval serão Taiwan e Cuba. Os chineses estão colocando muito dinheiro na reconstrução do Haiti e prometem ajudar Preval nos primeiros e difíceis cem dias, para os quais, tenho a impressão, ele não tem nenhum plano específico. O Lespawa trabalha com um programa genérico, como por exemplo aumentar a produção de alimentos, desenvolver as comunicações e reerguer as instituições haitianas.

Dizem por aqui que Taiwan está financiando também a campanha. Aliás, na história do recente do Brasil, houve várias denúncias da presença do dinheiro dos chineses. Só que a presença de dinheiro estrangeiro aqui, nesse momento não é escandalosa, pois toda a eleição está sendo financiada com dinheiro do exterior.

Achei o processo eleitoral muito complicado. Vou acordar às cinco da manhã para ver as urnas serem colocadas e os primeiros eleitores em ação. Cada pessoa vai votar em três senadores, um presidente e um deputado. Nao há cédulas mas sim uma lista com nomes e fotos.

Pela minha experiência, acho que vai atrasar bastante.

Quem sabe os haitianos não sejam mais rápidos do que pensamos? No Brasil, mesmo com as urnas eletrônicas, fazemos simulações. Aqui elas não foram feitas, por falta de tempo.

Nao dá para prever nada, embora a ausência de simulações seja um indício de como as coisas foram organizadas rapidamente, para cumprir um calendário quatro vezes adiado.

A tradição haitiana é de comemorar a vitória nas eleições alí pelas quatro, cinco horas da tarde, antes mesmo do início das apurações. Creio que este momento será o mais delicado para os dez mil homens que fazem a segurança do processo eleitoral.

Essa comemoração é feita mais para evitar fraudes, uma forma através da qual as forças populares asseguram sua vitória alcançada nas urnas. Os partidarios de Leval dizem que vão votar mais cedo. Os outros vão esperar um pouco para ver se há calma nas ruas. Longchamp, que deve ser de novo ministro do exterior, garante que vencerão no primeiro turno. Mais tarde, de noite, verei Charles Baker, que também garante que vencerá no segundo turno. Nada como o dia da amanhã.

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Tudo pronto para a partida

Porto Príncipe – No final de tarde de domingo, creio que se pode dizer que está tudo pronto para as primeiras eleições depois da queda de Aristide.

Tive dois importantes encontros. Num deles conheci o candidato favorito, René Preval. É um homem calmo, talvez até calmo demais para as circunstâncias. Ele foi presidente entre 1995 e 2001. Suas tarefas, segundo ele, são: colocar as instituições para funcionar, atrair investimento estrangeiro, impulsionar a agricultura e educação.

Ele diz que é contra centralização e é até simpático às teses anarquistas. Ressaltou que não o anarquismo de quebrar vidraças mas o que estimula a iniciativa por baixo.

O segundo e importante encontro foi com o general Ilito Siqueira, comandante da Minustah. Ele disse que vai concentrar todas as autoridades numa sala para acompanhar as eleições e que dispõe de 11 helicópteros para emergências. Em alguns lugares, as urnas serão levadas por burros de carga.

Quantos dos 3.500 mil inscritos votarão? Isto é uma incógnita. Se forem muitos, Preval ganha no primeiro turno. Mas a verdade é que alguns se inscreveram apenas para ter um documento.

Os setores conservadores e o grupo dos 184 que estiveram a frente do processo de derrubada de Aristide estão preocupados. Temem que Preval faça uma política populista e deixe Aristide voltar. Preval afirma que todo haitiano tem direito de entrar e sair do país. È a constituição que diz isto.

Vi poucas manifestações eleitorais. Há uma espécie de trio elétrico onde dançam o ra-ra, música carnavalesca daqui. Não sei se utilizaram a política para começar o carnaval, ou se ao contrário estão usando o carnaval para fazer política.

Cada candidato a presidente embolsou da ONU, via Comitê Eleitoral 143 mil dólares. Muitos ficaram na moita, sem fazer campanha. A prestação de contas se houver, vai ser um dilúvio de notas frias. O Brasil entrou com U$ 1 milhão de dólares nessas eleições.

É cedo para dizer se valeu a pena. As perspectivas no entanto são promissoras quanto ao ânimo que o processo pode trazer. O país continuará inviável estruturalmente mas quem sabe com um novo governo, ajuda e investimentos virão. Estamos aqui para ver e as atividades são tão intensas que só posso escrever aos pedaços.

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Uma espera tensa

Porto Príncipe – A cidade parece a mesma, com as ruas escuras e as mulheres levando mercadorias na cabeça. Mas uma diferença que nos mobiliza: todos os pontos chaves estão cobertos de cartazes políticos, indicando a primeira eleição após a queda do Aristides, hoje exilado na África do Sul.

O favorito é aquele que têm a preferência da população mais pobre, a mesma que confiava em Aristides: René Preval. É um homem que quase não fala, conseguiu ser presidente sem sofrer golpes e tinha se retirado para o campo, a fim de plantar bambu.

Esse favoritismo de Preval, entre os 35 candidatos, talvez seja a causa da tensão. Os boatos de que haverá conflitos no dias das eleições ou mesmo nesse fim de semana, podem ser a maneira de reagir a uma provável derrota dos setores mais radicais que derrubaram Aristide.

Cerca de 3,4 milhões de eleitores se inscreveram e ontem mesmo, ao chegar do aeroporto, visitei o Centro Eleitoral Provisório que, com a ajuda de três laptops, processa os dados do cadastramento.

Serei observador com mais ou menos mil estrangeiros nessas eleições. Nas ruas não há discussões calorosas nem choques de adeptos das facções rivais. Os haitianos parecem envolvidos na sua luta diária pela sobrevivência. Mais de 50 por cento deles vive com menos de um dólar por dia.

Pareceu estranho a American Airlines suspender seus vôos para o Haiti nas vésperas das eleições, alegando a segurança de sua tripulação, do equipamento e dos passageiros.

Pode ser que tenham informações secretas. Quando chegamos ontem, havia muita calma. No aeroporto, um grupo de músicos, sentado em cadeiras antes da passagem na aduana, tocava algumas canções típicas. Como fazem no Rio, em alguns momentos, levando sambistas para o aeroporto.

Aqui não havia fantasias nem pompas. Parecia um dos grupos que toca para turistas na Avenida Atlântica. A noite houve sessão de ram, a música típica haitiana, no lendário Hotel Olofoson, cujo dono é ocidental e pai de santo. O hotel foi freqüentado por Graham Green e é cenário de sua célebre novela sobre o Haiti, intitulada no Brasil Os Farsantes.

Hoje receberemos instruções para observarmos melhor as eleições, conhecendo todas as regras do jogo. É difícil andar sozinho por aqui. Há muitos seqüestros nas áreas mais pobres mas há também uma verdadeira barreira de segurança nas áreas freqüentadas por autoridades. Enfim, ainda não se passaram as primeiras 24 horas e, como sempre nesses casos, nada como um sono após uma longa viagem e a imersão imediata na realidade haitiana.

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