Uma posição indigna do Brasil

A reação do presidente Lula à morte do prisioneiro cubano Orlando Zapata é indigna do Brasil. Lula afirmou que ele se deixou morrer e que não mediou o caso porque nenhum pedido foi protocolado no Planalto. Um absurdo esperar que prisioneiros morrendo em greve de fome, protocolem pedidos. O mais absurdo é a defesa do presidente de sua “alma solidária”.

Na entrevista, concedida em Havana, algumas horas depois do encontro com Fidel Castro, Lula afirmou que já intercedeu para acabar com a greve de fome dos sequestradores de Abílio Diniz. E intercedeu ligando para o presidente Fernando Henrique com o argumento de que FHC não poderia manchar sua biografia com a morte daqueles prisioneiros.

Implicitamente, admite que Fidel e Raul mancharam suas biografias com a morte de Orlando Zapata. Lula jamais chegaria a esta conclusão. O erro de Zapata foi não tê-lo procurado adequadamente. A morte dos sequestradores de Abílio Diniz manchariam a biografia de Fernando Henrique, mas as de Fidel e Raul são inatingíveis porque a morte de um prisioneiro de consciência não tem esse poder.

Vidas humanas diferentes, valores diferentes na opinião de Lula. Sequestradores de Diniz ao morrer deixariam um rastro de vergonha sobre o governo brasileiro; um prisioneiro de consciência ao morrer em Cuba deixa um rastro de vergonha sobre sua própria biografia. Orlando Zapata resistiu 62 dias. Foi assassinado pela insensibilidade do regime cubano.

Este Brasil em nome do qual Lula falou em Cuba não é o país com que me identifico. Ele ganhou as eleições, é verdade, mas não para fazer uma política externa de partido, no caso o PT, mas fazer uma política externa em nome de todos os brasileiros. Os que, realmente, consideram os direitos humanos uma luta sem fronteiras ideológicas, sentem-se envergonhados com a posição de Lula.

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Obama sai da toca

Obama, finalmente, condenou a repressão iraniana contra os manifestantes inconformados com o resultado das eleições. Havia uma grande discussão entre democratas. Parte deles achava melhor que o presidente dos EUA não se pronunciasse. O temor era o de prejudicar a oposição, dando aos conservadores o argumento de que a oposição era dirigida pelos Estados Unidos.

O argumento caiu. Obama ainda não fala de fraude, mas reconhece o direito das pessoas se manifestarem sem serem brutalmente espancadas pelos guardas revolucionários e suas facões mais radicais, os basiji.

O Brasil ainda não chegou a este ponto. Mas hoje deu indicações, através de assessores de Lula, que vai refluir para uma posição cautelosa, depois daquelas declarações desastrosas em Genebra. Ótimo. Há sempre tempo para retomar o melhor caminho para nossa política externa.

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Teerã:+3:30 GMT

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Até agora, não consigo explicar a posição de Lula sobre o Irã. Por que se precipitar e dizer que as manifestações eram brigas de vascaínos contra flamenguistas?

Naquele momento, os principais líderes mundiais sinalizaram preocupação e cautela. As apurações iranianas que levam uma semana para serem tabuladas, foram resolvidas em horas. Em Tabriz, terra de Moussavi, Ahmamenijad ganhou longe, o que não costuma acontecer.

Esses dados já estavam disponíveis. Depois da declaração, vieram outros mais embaraçosos: em mais de 30 cidades, o número de eleitores superou o de inscritos. Em Taft, o número de eleitores, segundo a oposição, elevou-se a 141 por cento: fantasmas.

Não era necessário manifestar simpatia pela oposição. Simplesmente cautela. Tanto o presidente, como o Itamaraty, não receberam bem as críticas sobre a visita de Ahmadinejad. Aproveitaram para dizer que a visita estava de pé. E para mostrar independência em relação a imprensa ocidental. Se ela diz uma coisa, pode ser que esteja acontecendo outra.

O Brasil quer se mostrar pragmático, disposto a tudo por um bom negócio. Mesmo bons negociantes a quem se pede, a todo instante, o sacrifício de princípios, precisam saber se calar.

Não havia grandes mudanças em gestação. No Irã, às vezes, o resultado das urnas pode ser sufocado pela revolução. Mas alinhar-se aos setores mais conservadores, considerar uma luta, que depois resultaria em mortes, como um simples choque de torcidas, é qualquer coisa pra lá de Teerã.

Os iranianos que fazem seu movimento também pela internet sabem que nem todos no Brasil se alinham, nesse caso, com a posição de Lula. Muitos relógios estão sintonizados com a hora de Teerã: +3:30 GMT.

Veja a página especial sobre a crise política no Irã.

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Pra lá de Teerã

As manifestações no Irã continuam ao longo do dia. Tudo indica que a situação não foi resolvida e é preciso cautela, pois a repressão matou sete manifestantes. A investigação prometida não passará da recontagem de alguns votos.

Ancorada na internet (a imprensa estrangeira está sob cerco), a resistência no Irã deve continuar. Obama tem se mostrado cauteloso. Lula, não. Ele afirma que não houve fraudes e compara as manifestações a brigas entre torcedores do Flamengo e do Vasco.

Esta banalização da política acaba se tornando cansativa. O presidente não foi informado de tudo que se passa no Irã, apesar da riqueza de dados na rede. Fomos buscar uma foto no Flickr e surgiram centenas de contribuições dos iranianos.

Uma parte do Brasil não está seguindo o que se passa no mundo. O governo brasileiro, ideologicamente favorável a Ahmadinejad, não percebe o potencial das manifestações em Teerã. Pior para nós.

Acabo de sair de um seminário de relações Brasil-Europa. Pelo Congresso brasileiro falou Mão Santa, representando Sarney. Procurou holandeses na platéia para constatar se conheciam Ruy Barbosa, o Águia de Haia.

Não se pode desanimar. Os ajustes virão com o tempo.

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A duvidosa eleição no Irã

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Vestidos de verde, os opositores no Irã votaram e apanharam depois das eleições. Mas não se conformaram com os resultados, que para muitos é fruto de uma gigantesca fraude. A imprensa ocidental, demonizada por Ahmadinejad, oscila nas suas interpretações.

Muitos acham que foram apenas uma ilusão as grandes manifestações vividas em Teerã. Outros acham que é preciso investigar, pois há fatos suspeitos. O primeiro deles foi antecipar o rito de reconhecimento da vitória, sempre consumado depois de três dias.

Nesta eleição, o reconhecimento foi feito em apenas algumas horas. Outra grande dúvida é a vitória de Ahmadinejad em Tabriz, região onde nasceu seu adversário na disputa, Hossein Mousavi. De um modo geral, ali sempre se vota nos candidatos da terra.

O mais importante, depois das manifestações em Teerã, é o fato de que o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, autorizou uma investigação. As primeiras declarações das autoridades brasileiras, em Genebra, onde se encontram numa visita onde não se economizaram passagens, foram no sentido de legitimar a escolha de Ahmadinejad.

Foram mais realistas do que o próprio Khamenei, preocupado com a repercussão internacional do movimento reformista iraniano. Quando convidarem Ahmadinejad para uma visita ao Brasil, devem se lembrar agora do que não estava ainda muito claro quando ele quase veio ao nosso país: há forte oposição no Irã.

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Hans Magnus Enzensberger no Brasil

Esta semana tem tudo para ser morta aqui em Brasília. O feriado de quinta-feira abrevia os trabalhos, interrompe outros. Acabo de sair de uma audiência pública sobre matriz energética e ficou bastante clara, nos debates, a divergência entre ecologistas e governo. Este último enfatizando a produção de energia barata, aqueles pedindo fontes renováveis.

Nesta semana, tenho um compromisso em São Paulo: vou assistir a palestra de Hans Magnus Enzensberger, promovida pelo Instituto Moreira Sales. O poeta e filósofo alemão vem ao Brasil a convite do Goethe. Tive a oportunidade de participar de mesa com ele, na PUC do Rio e foi fantástico, pois é muito inteligente e tem uma grande experiência. Creio que nasceu em 1929, logo acompanhou alguns dos principais lances da história do século passado.

Ele vai falar sobre a crise financeira e econômica, vista por um poeta. Mas seus últimos escritos dedicam-se também ao terrorismo e aos crimes violentos, mostrando que a morte de inocentes está se tornando um fato globalizado.

Vale a pena dar uma olhada no Google.

Na semana que vem, estou preparando um artigo para sexta, haverá o lançamento da pesquisa de Amaury de Souza, intitulada A Agenda Internacional do Brasil. Não posso participar do debate, mas sou, dentro dos limites, um colaborador do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e admirador do trabalho do Amaury.

Interessante como tem crescido a participação do Brasil no mundo e também como tem crescido a comunidade da política externa, gente que trabalha, estuda ou simplesmente se interessa pelo tema. Essa adesão crescente a algo que ficava muito restrito no passado, deve-se ao avanço da democracia mas também ao fato de que a distância entre política interna e externa vai se reduzindo. Muitas decisões de política externa atingem o interesse concreto das pessoas em nosso país.

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Notas para o pós carnaval

Dizem que, sob certos aspectos, o ano novo no Brasil só começa depois do carnaval. Mas já é hora de falar dos planos, uma vez que 2008 promete dar muito trabalho.

É impossível planejar sem levar em conta as eleições municipais que vão ocupar o centro do debate político.

Já estamos reestruturando o Cidade Sustentável para fazer frente à demanda que o tema da administração urbana vai revelar.

Quando inauguramos o site, nas eleições de 2004, nossa intenção era fazer com que, através da rede, as cidades fossem vasos comunicantes. Mantivemos o esforço de levantar todas as iniciativas vitoriosas no campo da sustentabilidade urbana para divulgá-las no Brasil.

Precisamos fazer mais. Nossa intenção é a de cobrir as eleições municipais, destacar pontos programáticos e abrir, o site, para artigos de candidatos que tenham algo a nos dizer, independente de seus partidos.

Esperamos oferecer um quadro da sustenbilidade nas propostas de campanha, sugerindo e contribuindo com todos que queiram avançar a administração urbana no Brasil.

Mas o ano também será de trabalho no meio ambiente, com o lançamento pelo governo de uma política em relação ao aquecimento. Estamos interessados em desenvolver vários temas e já apresentei um projeto para que tenhamos uma base mínima: um inventário atualizado das emissões brasileiras, certamente ampliadas com a colocação em funcionamento de mais de 20 centrais térmicas. Portanto, o tema da energia e também de seu uso racional estará na ordem do dia. A não ser que chova muito e o debate seja novamente adiado.

O Ministro Mangabeira Unger tentou iniciar um debate sobre a política do desenvolvimento da Amazônia. Parece que quis balançar um pouco o quadro, trazendo algumas propostas faraônicas, como o aqueduto da Amazônia ao Nordeste.

A transposição do São Francisco já é uma tentativa de atacar o problema. Durante muitos anos, trabalhou-se com a hipótese de fortalecer o processo de abastecimento do nordeste, usando as águas do Rio do Sono, um afluente do Tocantins.

De repente, ao invés de aproveitar esse debate, Mangabeira Unger sai com uma nova e cinematográfica idéia. Ele ignorou nas suas afirmações, ao dizer que a Amazônia não pode ser um parque, o fato de que a floresta em pé significa a prestação de inúmeros serviços ecológicos ao planeta, serviços que podem ser valorados e transformados em recurso para o desenvolvimento sustentável.

O Brasil é soberano na sua política sobre a Amazônia. Mas deveria reconhecer algumas coisas: outros paises detêm partes da floresta e era necessário uni-los, pelo menos em torno do podemos dar: informações. O Sivam, que nos custou um bilhão e meio de dólares poderia ser a peça fundamental nessa união.

O outro aspecto importante é reconhecer que, sem perder nenhum nível de soberania, a ajuda internacional é bem vinda, sobretudo porque é a maneira como se recompensam os serviços ambientais.

Também na política externa a América Latina, sobretudo Bolívia, Paraguai (que terá eleições), Venezuela e Equador vivem momentos especiais. Além disso há a crise entre Venezuela e Colômbia, precipitada pelo reconhecimento das Farc por Chavez e suas constantes acusações ao presidente Colombiano. O que é possível fazer em termos de Congresso? A maneira como podemos interferir é promovendo audiências públicas e discutindo com o governo.

Não temos excessivas ilusões. Mas alguma coisa é sempre possível mudar para que a política externa brasileira tenha uma cara de política nacional e não a cara de apenas uma corrente política. O Brasil deve fazer pressão para que sejam libertados os reféns da Farc e prosseguir condenando seqüestros. Aquele primeiro passo de ir participar de um show fracassado de Chavez foi muito desequilibrado, para dizer o mínimo.

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Até breve, com imagem e som digitais

Possivelmente já morri. Dois grandes shows no Brasil, atraindo milhares de pessoas, e busquei o conforto da televisão, com direito a intervalos para o banheiro.

Um dos shows, o dos Stones, aconteceu perto da minha casa. Desde cedo senti uma atmosfera de euforia na zona sul. Muita gente, carros na calçada, chope, calor, as vozes nos bares subindo como se mãos invisíveis aumentassem o volume do som, através do balcão.

Calculei que era melhor a TV. Claro que meu cálculo seria mais acertado com melhor qualidade de imagem e de som. Mas ainda não chegou a TV digital. O governo discute muito sobre o padrão a ser adotado. Temo, a julgar pela experiência com câmeras e celulares, que, ao tomarem a decisão final, o quadro de opções já estará mudado. Os ritmos da tecnologia não respeitam os da política.

Os shows me alegraram. Escrevi algumas vezes sobre como o 11 de Setembro e as tensões que iria gerar abriam uma possibilidade nova para o Brasil. Guerra no Oriente Médio, atentados em metrópoles européias e, agora, todos os conflitos em torno das charges de Muhammad confirmaram essa tendência.

Meus escritos, na época, eram endereçados aos ministros da Cultura e do Turismo. Pensei então que, sendo a paz o fundamento básico de nossa política externa, poderíamos nos abrir para grandes festivais que tratassem, diretamente ou não, do assunto.

Na verdade, não acredito muito no lado explicitamente político desses shows. Mesmo Bob Marley, vindo dos bairros pobres de Kingston, tinha um discurso para a juventude negra na Europa, mas era ouvido por milhares de pessoas que não se interessam especificamente por isso.

Bono veio falar da fome. Tudo bem. Já no último Live Aid, produzido por Bob Geldoff, intelectuais etíopes lembravam que o combate central à fome vai se dar pela correção das distorções no comércio internacional. Bono sabe disso pois freqüenta Davos, e lá essas coisas são mencionadas, ao menos de vez em quando.

Da mesma maneira, a tolerância religiosa é um tema bom para ser lançado de São Paulo. Das metrópoles que conheço, foi uma das que resolveram de forma satisfatória a convivência entre as religiões. Bono falou o nome de alguns Estados, mas, com a sensibilidade da história irlandesa e da atualidade do Oriente Médio, poderia ter ressaltado esta característica diante de seus olhos.

Grandes estrelas pop sempre vão visitar presidentes e dirão coisas sem nenhuma responsabilidade com a repercussão na política interna. Isto pode se dar de barato. O próximo show, por exemplo, é de Santana: possivelmente vai se dançar mais.

A passagem dos Stones e do U2 reafirma para mim não só análise do passado sobre as chances turísticas culturais do Brasil mas lembra também que não conseguimos neutralizar nossa principal vulnerabilidade: a falta de uma política consistente para atenuar a violência urbana.

Na medida em que o Brasil se abrir para esses festivais de verão, novos grupos aparecem e com posições as mais variadas sobre política, desde uma distância saudável até a hostilidade.

Portanto, a sensação de que esses festivais favorecem um ou outro partido é passageira. O que está pela frente é a possibilidade de se ampliar o turismo, criar um nicho, já tentado pelo Rock in Rio, e fazer do país uma plataforma para a cultura de paz, o que daria uma dimensão popular ao fundamento de nossa política externa.

Para confirmar que morri, vou me fechar no Carnaval, soterrado por textos inacabados, relatórios e, como diz um amigo, muita costura para fora. O governo tem tempo para refletir sobre essa possibilidade turística e interferir de forma positiva. Os cálculos do Rio mostraram resultado favorável do ponto de vista econômico.

O que o governo deveria apressar mesmo é a decisão sobre a televisão digital. A vida dos que ficaram em casa, poderia ter sido enriquecida por uma imagem com definição maior, um som mais límpido. São respostas que dependem de base técnica e a forma de consulta ampla, por mais democrática que pareça, nem sempre atinge os melhores resultados.

Se até o ano que vem isso não estiver resolvido, o caminho será voltar à praia para ouvir os shows. A multidão não é muito diferente da que se concentra no Réveillon. O dilema será: ela ou TV digital? Encerrei prematuramente minha carreira nesses cercadinhos com convites. A única vez que fui, recusei-me a usar as camisetas de propaganda. Saí com um gosto de nunca mais.

Entre a multidão e cercadinhos, mil vezes a multidão. Creio que ela não se sentirá traída se eu optar pela minha casa. Aquela imagem dos celulares acesos no Morumbi mostra que até mesmo as pessoas comprimidas na praia ou no estádio terão o espetáculo na palma da mão.

Ao mencionar os celulares acesos e ligá-los às possibilidades da TV digital, os técnicos vão supor que tomo posições. Mas os técnicos sabem que nada entendo do assunto. É apenas o palpite de alguém que não apenas quer se libertar do analógico, mas também dos fios. Hoje já se faz quase tudo nos celulares. Por que não mostrar os grandes shows?

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Chegou a hora

Foi um dia de meio feriado em Porto Príncipe. Meio porque grande parte das pessoas vive na informalidade e continua vendendo suas mercadorias na rua. Mas o tema eleições predomina nas coversas, segundo depoimentos de todos os que andam pelas ruas da cidade.

Visitamos nesse fim de segunda-feira o comitê de René Preval onde estão sendo treinados os monitores dos fiscais do partido Lespawa que significa A Esperança.

O ex-ministro do exterior de Preval, Fritz Longchamp nos informou que foram preparados 18 mil fiscais, sendo que apenas 8 mil deles estarão trabalhando dentro das seções eleitorais.

A conversa sobre o futuro da política externa haitiana foi muito rápida mas Longchamp deixou claro o que já se comenta por aqui. Os dois principais amigos do futuro governo de Preval serão Taiwan e Cuba. Os chineses estão colocando muito dinheiro na reconstrução do Haiti e prometem ajudar Preval nos primeiros e difíceis cem dias, para os quais, tenho a impressão, ele não tem nenhum plano específico. O Lespawa trabalha com um programa genérico, como por exemplo aumentar a produção de alimentos, desenvolver as comunicações e reerguer as instituições haitianas.

Dizem por aqui que Taiwan está financiando também a campanha. Aliás, na história do recente do Brasil, houve várias denúncias da presença do dinheiro dos chineses. Só que a presença de dinheiro estrangeiro aqui, nesse momento não é escandalosa, pois toda a eleição está sendo financiada com dinheiro do exterior.

Achei o processo eleitoral muito complicado. Vou acordar às cinco da manhã para ver as urnas serem colocadas e os primeiros eleitores em ação. Cada pessoa vai votar em três senadores, um presidente e um deputado. Nao há cédulas mas sim uma lista com nomes e fotos.

Pela minha experiência, acho que vai atrasar bastante.

Quem sabe os haitianos não sejam mais rápidos do que pensamos? No Brasil, mesmo com as urnas eletrônicas, fazemos simulações. Aqui elas não foram feitas, por falta de tempo.

Nao dá para prever nada, embora a ausência de simulações seja um indício de como as coisas foram organizadas rapidamente, para cumprir um calendário quatro vezes adiado.

A tradição haitiana é de comemorar a vitória nas eleições alí pelas quatro, cinco horas da tarde, antes mesmo do início das apurações. Creio que este momento será o mais delicado para os dez mil homens que fazem a segurança do processo eleitoral.

Essa comemoração é feita mais para evitar fraudes, uma forma através da qual as forças populares asseguram sua vitória alcançada nas urnas. Os partidarios de Leval dizem que vão votar mais cedo. Os outros vão esperar um pouco para ver se há calma nas ruas. Longchamp, que deve ser de novo ministro do exterior, garante que vencerão no primeiro turno. Mais tarde, de noite, verei Charles Baker, que também garante que vencerá no segundo turno. Nada como o dia da amanhã.

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Uma expulsão desastrada

A decisão de cancelar o visto do correspondente do New York Times no Brasil foi um final melancólico para uma crise artificial criada pelo despreparo e provincianismo do governo brasileiro.

A reportagem sobre o uso do álcool pelo Presidente tinha uma série de fantasias, a mais importante dela considera que o Brasil inteiro estava preocupado com a quantidade de bebida que Lula consome. Não há nenhuma evidência de abuso de álcool, nehuma relação causal entre a bebida e frases infelizes do Presidente.

No entanto, o que poderia ser tratado com uma carta de esclarecimento tornou-se um atentado à liberdade de expressão. Os erros começaram também com a ajuda da oposição que se limitou a atacar a reportagem sem propor uma saída sóbria para responder ao texto.

Houve em alguns jornais notas do tipo “todos pela honra de Lula”. Isso foi o primeiro grande erro, pois dá a impressão que o suposto abuso de álcool seja uma desonra. Nada disso propomos em nossa política de drogas, mas sim respeito e ajuda.

O segundo equívoco veio na nota de Luis Gushiken, secretário de comunicação do governo. Atribui o texto a uma maquinação do governo Bush, sem se dar conta que o New York Times é oposição, não está articulado para fazer reportagens sobre projetos sombrios do Presidente americano. Gushiken disse que Larry Rohter não conhecia o Brasil pois vivia no Rio de Janeiro. Em seguida, o líder do governo, Professor Luisinho, afirmou que ele é um desses caras que vivem em Ipanema, como se viver no bairro desqualificasse a pessoa.

Finalmente, veio a idéia da expulsão, algo de que não temos notícia na nossa recente história democrática. Como foi possível o governo cometer tantos erros, saltar de trapalhada em trapalhada até esse estágio de nos cobrir de vergonha no mundo democrático?

Esta nota é apenas para dizer que protesto. Devo prosseguir no assunto, ao longo do dia no Congresso e vou colocá-lo na pauta na audiência pública sobre o envio de forças de paz ao Haiti. Afinal, é uma reunião para debater política externa e hoje a política externa brasileira sofreu uma grande derrota com esta decisão de Lula.

A propósito, questionado por um jornalista americano sobre a reportagem do New York Times dei meu testemunho de quem viajou longo trecho com Lula de que jamais o vi abusando de bebida alcóolica, nunca vi sua performance política influenciada pela bebida.

No entanto, o que poderia ser uma reação tranquila acabou amplificando para o mundo, de forma assustadora nosso grande problema que, certamente, não se chama álcool mas sim despreparo da equipe dirigente.

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