26.11.2002
La Coruña – Durante 72 horas, com um grupo de técnicos da Petrobrás, percorri o cenário da tragédia ecológica na Galícia, onde o navio Prestige partiu ao meio e afundou com 77 mil toneladas de óleo. Pássaros mortos, pescadores e marisqueiros fora do trabalho, pequenas cidades turísticas atingidas pela maré negra e, no ar, a suspeita de que o pior está por vir: apenas 20 mil toneladas formaram a mancha de 100 quilômetros quadrados. As restantes 57 mil jazem a 3500 metros de profundidade, nas águas do Atlântico.
Depois de analisar como os europeus atuaram e as condições que levaram ao desastre do Prestige, restou uma grande pergunta: o que o Brasil precisa aprender com o episódio, para que melhore sua resposta em caso de acidente?
O desastre do Prestige mostra também o que fazer para evitar acidentes, mas isso, como o socorro pós tragédia, cada vez mais dependem de respostas globais, acima do alcance de um só país.
Para começar, o Brasil teria tomado a decisão certa no momento crucial em que o Prestige partiu-se ao meio?
O navio estava em grande dificuldade a quatro milhas e meia da costa. Havia duas alternativas: levá-lo para alto mar, em busca de águas mais tranquilas, ou trazê-lo para o porto e retirar sua carga com segurança.
Ouvindo técnicos portugueses e noruegueses, chegamos à conclusão de que os espanhóis fizeram a escolha errada, levando-o para alto mar. Mas, quem teria coragem de tomar a decisão certa, aproximando uma bomba relógio para desmontá-la no porto? Tanto na Espanha como no Brasil não há uma autoridade pré-determinada para cuidar desses temas. A primeira grande lição para os brasileiros é esta: quem decide em nome do Governo, quem tem a incumbência prévia de assumir os riscos?
O Prestige era um navio com bandeira de conveniência, outra grande anomalia global. Os petroleiros que atuam com esse tipo de bandeira, querem apenas comprar e vender óleo barato. Além disso, ele tinha um casco simples, com um desgaste de 15 por cento, segundo uma o relatório de seu conserto na China.
Nos Estados Unidos, os petroleiros navegam com casco duplo, de forma que um vazamento acaba caindo dentro do próprio navio. Até 2005, esta regra terá de ser cumprida por todos. A Europa quis ter um prazo mais flexível: 2015. O Brasil sequer examinou o projeto, que rola pela comissões do Congresso. Com o acidente do Prestige a Europa, pressionada pela Espanha, pode recuar o prazo para 2003.
Comparada como o Brasil, a Espanha ainda monta muito mal a sala de crise para gerir um desastre de grande dimensão. Não só a capacidade de reunir voluntários, mas também a técnica de limpeza de praias, assim como rebocadores, barcos antipoluição, tudo isso deixa a desejar
No entanto, não é correto pedir que a Espanha gaste US$ 1 bilhão para fazer isto, sem produzir petróleo. A costa da Galícia é o caminho para 70 por cento da frota européia transportando óleo. Seis mil pescadores dependem das suas águas limpas. Só uma solução global poderia atacar o problema. No mínimo a Comunidade Européia deveria bancar a despesa.
Portugal, Espanha e França mostraram um bom nível de coordenação. Dois aviões franceses voaram diariamente, localizando a mancha. Portugal lançou boias à deriva para que emitissem informações sobre o rumo possível da poluição. Empresas européias, especializadas em acidentes com agues, mandaram especialistas.
No Mercosul competirá ao Brasil iniciar contatos e convênios para que todos saibam o que fazer em caso de acidente. A estrutura da Petrobrás, que custou R$1,8 bilhão é a maior que existe por aqui. Em qualquer hipótese, terá de ser acionada.
Outra importante lição, agora que empresas estrangeiras atuam no Brasil. A Shell, por exemplo, acaba de descobrir petróleo no Espírito Santo. Pelas leis noruguesas, só pode explorar petróleo quem tiver condições de enfrentar um desastre. Como fica muito caro e inútil cada uma das empresas montar uma estrutura, o ideal seria formarem um clube, no qual teriam direito ao uso do esquema da Petrobrás.
Tudo isso é o dever de casa que trazemos da costa da Galícia, onde 136 praias, algumas delas maravilhosas, foram atingidas pelo desastre. Aves marinhas, como o arua e a perdela balear, ambos em extinção, foram duramente atingidos. Nos hospitais improvisados de Pontevedra e Oleiros cerca de 450 aves estão sendo descontaminadas, sendo que umas 40 já foram encontradas mortas, uma delas pela nossa equipe.
Voltamos com muito dever de casa e uma camada de óleo em nossas botas que dificilmente conseguiremos limpar nos próximos dias. Vivemos intensamente, no domingo, o drama de Muxia, uma cidade costeira atingida por ondas de até quatro metros, carregadas de óleo. As imagens de lá, valem pelas palavras.








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