Viagem à maré negra na Espanha

La Coruña – Durante 72 horas, com um grupo de técnicos da Petrobrás, percorri o cenário da tragédia ecológica na Galícia, onde o navio Prestige partiu ao meio e afundou com 77 mil toneladas de óleo. Pássaros mortos, pescadores e marisqueiros fora do trabalho, pequenas cidades turísticas atingidas pela maré negra e, no ar, a suspeita de que o pior está por vir: apenas 20 mil toneladas formaram a mancha de 100 quilômetros quadrados. As restantes 57 mil jazem a 3500 metros de profundidade, nas águas do Atlântico.

Depois de analisar como os europeus atuaram e as condições que levaram ao desastre do Prestige, restou uma grande pergunta: o que o Brasil precisa aprender com o episódio, para que melhore sua resposta em caso de acidente?

O desastre do Prestige mostra também o que fazer para evitar acidentes, mas isso, como o socorro pós tragédia, cada vez mais dependem de respostas globais, acima do alcance de um só país.

Para começar, o Brasil teria tomado a decisão certa no momento crucial em que o Prestige partiu-se ao meio?

O navio estava em grande dificuldade a quatro milhas e meia da costa. Havia duas alternativas: levá-lo para alto mar, em busca de águas mais tranquilas, ou trazê-lo para o porto e retirar sua carga com segurança.

Ouvindo técnicos portugueses e noruegueses, chegamos à conclusão de que os espanhóis fizeram a escolha errada, levando-o para alto mar. Mas, quem teria coragem de tomar a decisão certa, aproximando uma bomba relógio para desmontá-la no porto? Tanto na Espanha como no Brasil não há uma autoridade pré-determinada para cuidar desses temas. A primeira grande lição para os brasileiros é esta: quem decide em nome do Governo, quem tem a incumbência prévia de assumir os riscos?

O Prestige era um navio com bandeira de conveniência, outra grande anomalia global. Os petroleiros que atuam com esse tipo de bandeira, querem apenas comprar e vender óleo barato. Além disso, ele tinha um casco simples, com um desgaste de 15 por cento, segundo uma o relatório de seu conserto na China.

Nos Estados Unidos, os petroleiros navegam com casco duplo, de forma que um vazamento acaba caindo dentro do próprio navio. Até 2005, esta regra terá de ser cumprida por todos. A Europa quis ter um prazo mais flexível: 2015. O Brasil sequer examinou o projeto, que rola pela comissões do Congresso. Com o acidente do Prestige a Europa, pressionada pela Espanha, pode recuar o prazo para 2003.

Comparada como o Brasil, a Espanha ainda monta muito mal a sala de crise para gerir um desastre de grande dimensão. Não só a capacidade de reunir voluntários, mas também a técnica de limpeza de praias, assim como rebocadores, barcos antipoluição, tudo isso deixa a desejar

No entanto, não é correto pedir que a Espanha gaste US$ 1 bilhão para fazer isto, sem produzir petróleo. A costa da Galícia é o caminho para 70 por cento da frota européia transportando óleo. Seis mil pescadores dependem das suas águas limpas. Só uma solução global poderia atacar o problema. No mínimo a Comunidade Européia deveria bancar a despesa.

Portugal, Espanha e França mostraram um bom nível de coordenação. Dois aviões franceses voaram diariamente, localizando a mancha. Portugal lançou boias à deriva para que emitissem informações sobre o rumo possível da poluição. Empresas européias, especializadas em acidentes com agues, mandaram especialistas.

No Mercosul competirá ao Brasil iniciar contatos e convênios para que todos saibam o que fazer em caso de acidente. A estrutura da Petrobrás, que custou R$1,8 bilhão é a maior que existe por aqui. Em qualquer hipótese, terá de ser acionada.

Outra importante lição, agora que empresas estrangeiras atuam no Brasil. A Shell, por exemplo, acaba de descobrir petróleo no Espírito Santo. Pelas leis noruguesas, só pode explorar petróleo quem tiver condições de enfrentar um desastre. Como fica muito caro e inútil cada uma das empresas montar uma estrutura, o ideal seria formarem um clube, no qual teriam direito ao uso do esquema da Petrobrás.

Tudo isso é o dever de casa que trazemos da costa da Galícia, onde 136 praias, algumas delas maravilhosas, foram atingidas pelo desastre. Aves marinhas, como o arua e a perdela balear, ambos em extinção, foram duramente atingidos. Nos hospitais improvisados de Pontevedra e Oleiros cerca de 450 aves estão sendo descontaminadas, sendo que umas 40 já foram encontradas mortas, uma delas pela nossa equipe.

Voltamos com muito dever de casa e uma camada de óleo em nossas botas que dificilmente conseguiremos limpar nos próximos dias. Vivemos intensamente, no domingo, o drama de Muxia, uma cidade costeira atingida por ondas de até quatro metros, carregadas de óleo. As imagens de lá, valem pelas palavras.

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Toneladas de óleo no mar da Galícia

Acompanhando um grupo de técnicos da Petrobrás, sigo hoje para a Espanha com o objetivo de observar e aprender com o desastre na costa da Galícia, onde o navio Prestige partiu ao meio e afundou com uma carga de 77 mil toneladas de óleo.

Nossa viagem tem como objetivo aperfeiçoar os mecanismos de defesa contra desastres desse tipo. Precisamos estar entre os melhores do mundo não apenas na prevenção mas também no socorro, quando for impossível evitar a tragédia.

A Petrobrás, depois de algumas experiências infelizes, rsolveu destinar uma verba de R$1,8 bilhão para construir um programa de gerenciamento ambiental, destinado a prevenir desastres e ao socorro quando eles ocorrem.

Equipamentos e técnicos do mundo inteiro foram mobilizados e temos tudo para dar um passo adiante, passo já vislumbrado com a criação dos centros de emergência.

Da minha parte, tenho acompanhado desastres em dutos, navios e plataformas. O objetivo é produzir uma legislação que os evite, como por exemplo, o projeto de lei que determina a necessidade de casco duplo para os navios petroleiros.

Além de atuação parlamentar, contribuo com sugestões a Petrobrás, como foi o caso da descoberta de um cabelereiro norte-americano sobre a eficácia de cabelo humano como filtro para recolher o óleo derramado na água. Os Estados Unidos estão pesquisando e valeria a pena entrarmos também no experimento, que é bastante simples: recolher cabelo humano nos salões de beleza e usá-los para revestir barris por onde a água passaria, deixando o maximo de óleo no filtro de cabelos.

Muitas coisas mais podem ser feitas . No caso dos dutos, indiquei a empresa de Sertãozinho em São Paulo que produz softwares capazes de monitorar o fluxo de água ou óleo dentro de um duto e desativar automaticamente o fluxo, caso exista vazamento.

Enfim, estamos trabalhando juntos para atenuar esse enorme problema no Brasil e a viagem à Espanha, na qual utilizo meus próprios recursos, é uma forma de nos capacitarmos ainda mais para o futuro.

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P-34 mais um acidente

Mais um acidente com a Petrobrás. Dessa vez, aconteceu na plataforma P-34, na Bacia de Campos. Fomos lá, junto com autoridades ambientais, examinar de perto a situação. Tudo indica que a plataforma será salva. A inclinação que era de 30 graus pode ser, lentamente, revertida, e a boa sorte indica tempo bom até amanhã. Isto é tempo suficente para reabrir válulas que foram fechadas e reacionar o gerador da P-34,

A Bacia de Campos com suas 37 plataformas precisa ser objeto de uma investigação. Muitas estão com licença ambiental vencida. Se aplicada a lei rigorosamente, teriam de parar de funcionar. Seria um desastre econômico para o Brasil. No entanto, se não houver uma pressão por melhorias, novas acidentes podem acontecer, nem todos, como vimos na P-36, sem vítimas como este de agora.

O problema da Bacia de Campos nao é só ambiental. É, também, um problema trabalhista. O processo de terceirização abriu caminho para empresas que nem sempre tem os mesmos critérios da Petrobrás. Centenas de estrangeiros trabalham na região, sem nenhum controle do governo.

Vocês vão observar nos jornais de hoje que a foto que todos publicam na primeira página foi cedida pelo deputado Fernando Gabeira. Como a Petrobrás não havia liberado imagens, consideramos correto distribuir a foto que colhemos do helicóptero para que todos os leitores tivessem conhecimento.

A foto foi cedida para todos os jornais, sem discriminação. A foto foi cedida gratuitamente, numa perspectiva de serviço público Trata-se de algo que não está na lista de tarefas de deputados. Mas quem votou, sabe muito bem que há diferenças entre Gabeira e os deputados.Uma delas, é a compreensão do papel da mídia num país democrático. Foi por isso que protestamos, desde o início, contra o silêncio sobre as eleições parlamentares. A observação da mídia e a crítica de seus possíveis erros fazem parte de nosso trabalho.

Uma análise mais ampla do papel da mídia, pode ser encontrada no site do Observatório da Imprensa, programa do qual, esporadicamente, fazemos parte.

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FNAC, a chegada de uma velha conhecida

Esperei notícias da Petrobrás. Ontem, disse que o derramamento de óleo na bacia de Campos foi de 13 mil litros. Hoje, fiquei sabendo que era de 26 mil. O dobro. Mais uma vez a Petrobrás anunciou pela metade o volume de óleo derramado.

A novidade é que agora estamos tendo desastres nas plataformas. Começou com navios, passou pelos dutos e chegou a plataforma. Só mesmo uma auditoria em todas as instalações da Petrobrás vai indicar o rumo das mudanças.

Aliás, isto já foi determinado pelo Conama, numa sessão em que eu estava presente.

Tirei o feriado para conhecer a Fnac , que acaba de chegar ao Brasil. É um imenso supermercado cultural. Funciona no Barra Shopping, no Rio.

Conheci a Fnac em Montparnasse. Era asilado político. Quase não tinha dinheiro. Era uma tentação ver tanto livro, tanta música e equipamentos de sonho, como os vários modelos da Leica. Agora, ela está também em Les Halles, onde visito mais.

Vi a Fnac surgindo em Berlim. Era luxuosa. Quando deixei Berlim, em 92, já se falava no fechamento. Não tinha dado muito certo em Berlim, embora exista também em Nova Iorque, onde o consumo cultural é muito grande.

Saí sem comprar nada. Voltarei para ver se há alguma coisa nos detalhes. De um modo geral, o setor de fotografia é limitado. Disseram-me que o de histórias em quadrinho também. Nao encontrei, por exemplo, a camara digital da Nikon D1. Na verdade, os principais sistemas não estavam representados com sua top de linha

Tudo bem. Não sou crítico de supermercados culturais e espero que haja consumo suficiente para manter a Fnac de pé. De uma certa forma, seu estilo já havia sido inaugurado em São Paulo e no Rio, com megalivrarias. A Saraiva do New York Center já é de grandes dimensões, vizinha da Fnac. O que desequilibra, a favor da Fnac são os livros importados e as seções de aparelhos de som e informática.

Enfim, simbolos da globalização vão surgindo aqui e ali, como se para nos lembrar que, de certa maneira, o mundo hoje é um só, apesar do desconforto de grande parte de seus habitantes.

Agora, é preparar o trabalho da próxima semana. Será dificil conseguir alguma coisa de concreto, fora do tema corrupção. A notícia de que o rombo na Sudam era de R$ 1,7 bilhão teve um impacto enorme. É só parar para pensar nessa cifra. E imaginar o quanto não poderia ter rendido num projeto de desenvolvimento sustentável para Amazônia. A mesma classe dominante predadora, em relação ao meio ambiente, é que corrói os cofres públicos.

É preciso um projeto de salvação e desenvolvimento econômico para a Amazônia. Quem serão os interlocutores?

Os militares são interlocutores importantes. Mas e os politicos e empresários? Em quem confiar, como desenvolver mecanismos de controle social. Estados como o Acre e o Amapá, dirigidos pela esquerda, poderiam ser um bom experimento. Até que ponto se pode formar, através do estado e setores populares, uma frente de desenvolvimento sustentável. Que papel definiriamos para a ajuda estrangeira? Com conciliá-la com nossa visão soberania?

As ONGs aparecem também como um grande ator, embora tenham de estar abertas para receber o mesmo nível de crítica de que todos que estão na cena pública.

E a Funai, o que é isso? Muito rejeitada pelo governo, embora pudesse ser um grande instrumento, inclusive no diálogo internacional?

Essa história da Sudam não pode ficar assim. Além de se desvendar a corrupção será necessário um novo caminho.

Vou aproveitar para tentar introduzir esse debate nas comissões em que trabalho: meio ambiente e minorias, segurança nacional e relações exteriores e direitos humanos.

É preciso que a comissão da Amazônia tenha um papel dinâmico nesse debate porque os deputados da região estão concentrados nela.

Meu primeiro passo foi convidar para falar sobre a Amazônia o general Alceste, comandante da região militar. Conhece muito bem a área que comanda : quatro milhões de quilômetros quadrados, maior que toda a Europa, sem a Russia.

Pensar que nessa região estrategicamente vital, o Brasil jogou pelo ralo quase dois bilhões de reais. O governo finge que não é com ele, mas quem governava o Brasil quando tudo isso se perdeu? Quem deveria controlar?

Quando o governo olha os movimentos da Sudam de fora, parece aqueles conquistadors que passam a mão nas mulheres e se desculpam dizendo que foi um gesto irresistivel, como se a mão fosse autônoma, isentando seu dono de qualquer responsabilidade.

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Novo temas, além da P-36

Esse afundamento da plataforma da Petrobrás me tomou toda a semana. Dificilmente posso escrever sobre outra coisa. Quando pensava em deixar o assunto, surgiu a notícia de que boletins de ocorrência registraram defeito na ventilação e pediam inclusive a parada da plataforma para reparo das peças.

A plataforma não parou e, para dizer a verdade, é muito difícil aceitar a parada num clima em que se estimula a produção com o sonho da autosufuciência em 2005.

O grande cartaz na porta da empresa em Macaé registra sempre os novos níveis de produção, ao contrário de alguns lugares que registram o número de dias sem acidentes. Culturas diferentes. 

Devo admitir que a nova cultura, da segurança e respeito ao meio ambiente, é uma das metas do presidente Phillipe Reichstul que está sendo duramente atacado pela esquerda. Considero os ataques improcedentes. Ele é competente, bem intencionado e está reorientando a Petrobrás no caminho certo: respeito ao meio ambiente e também pesquisa de novas formas de energia.

Derrubado agora, o presidente da Petrobrás seria substituído por algum trogodlita indicado pelos partidos do governo e isso significaria, simplesmente, que o pesadelo seria prolongado.

Comprei a Festa do Bode em espanhol. Tenho a edição brasileira mas as letras são pequenas, difíceis de se ler. Por que essa economia? Vargas Lhosa e seus leitores merecem muito mais. Por falar em Vargas Lhosa, vejo que Alejandro Toledo está vivendo seu inferno astral no Peru, nas primeiras eleições após a queda de Fujimori. Acusam-no de ter usado cocaína e de ter uma filha fora do matrimônio.

Filha fora do matrimônio também foi tema importante na campanha de 89 no Brasil, quando Collor usou essa informaração para derrubar Lula. 

Toledo afirma que a cocaína no seu sangue foi uma dose forçada que seus sequestradores o impuseram. Ele se diz sequestrado pela polícia política do Peru e só não prestou queixa porque não confiava nas autoridades, envolvidas na tentativa de intimidá-lo. Ele tem provas da clínica onde ficou internado. De qualquer maneira, vê-se pelo movimento de denúncias que a eleição de Toledo, caso vença, não será um passeio.

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O pesadelo da P-36

Macaé – Para quem gosta da teoria da conspiração, a Petrobrás é um prato cheio. Além de pequenos desastres, como os que mataram quatro pessoas nesse princípio de ano, na bacia de Campos, grandes pesadelos sacodem a compania, de tempos em tempos, desde o vazamento na baia de Guanabara, em janeiro de 2000.

Encarregado pela Comissão de Meio Ambiente para monitorar não apenas os desastres mas também os planos de prevenção da Petrobrás, encontro-me diariamente com essa pergunta nas ruas: existe sabotagem contra a Petrobrás?

É uma pergunta natural pois todos querem encontrar um elo entre vários desastres e uma resposta que consiga explicá-los antes mesmo de fazer um estudo detalhado do tema.

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