Ciência e política verde

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A criação do IPCC, no fim de década de 80, foi o ponto de partida para que, em 1992, no Rio, fosse lançada uma convenção sobre mudanças climáticas, mais tarde desdobrada no Protocolo de Quioto.

No caso do aquecimento global, o papel da ciência foi decisivo. Teria sido decisivo também em Nova Orleans, onde cientistas previram a possibilidade de desastre, mas não encontraram eco nos políticos, Bush à frente.

O Partido Verde não precisa ter uma visão apologética da ciência, mas deve reconhecer que, mais do para qualquer outro, é indispensável ao seu trabalho.

No início de nossa atuação, destacávamos pela denúncia de crimes ambientais. Foi importante. Mas com o tempo, a própria mídia e organizações comunitárias dedicaram-se a esse papel. Nossa presença nas denúncias não é tão necessária, pois são feitas independentes de nós.

Com a avalanche de denúncias na mídia, prosseguir nesse papel anterior é aceitar uma certa desimportância como partido. O momento agora é o de realizar, de propor saídas.

Nessa tarefa de realizar e propor saídas, a ciência é fundamental. Não só precisamos nos aproximar dos cientistas como, dentro dos próprios limites, estudar alguns fundamentos para entender bem o que estão dizendo.

Decorre daí a importância de estimular a ciência no Brasil, acompanhar os programas do governo, tentar adapta-los às necessidades de preservação do planeta.

Se dissermos que somos pelo estimulo à ciência, não estaremos dizendo nada diferente do que dizem todos os outros partidos. Precisamos precisar bem prioridades, encontrar um foco.

No meu entender, o Partido Verde prestaria um grande trabalho se defendesse a melhoria do ensino científico no Brasil. Os recentes estudos mostram nossa situação dramática, pois estamos nos últimos quatro lugares, numa lista de 52 paises pesquisados. Mais de 90 por cento de nossos professores não têm formação para ensinarem ciência, portanto ensinam sem terem se preparado especificamente para isto.

Aí está outra armadilha. Defender o ensino científico, assim como defender a educação, de um modo geral, dá algum prestígio mas não avança em nada o processo.

Precisamos ter foco. No caso brasileiro, proponho que seja a bandeira do PV o ensino científico desde os primeiros anos, que ela seja uma parte do ensino fundamental.

Muita gente vai dizer: não deve tocar em ensino cientifico, mas simplesmente melhorar o ensino. Mas teremos a obrigação de apresentar este ponto claramente, pois é uma necessidade moderna.

O Brasil hoje é um pais em que quase 90 por cento da população acredita em Deus e considera que o ateu é mau caráter e sem moral. Seria ridículo sair por aí discutindo a existência de Deus. Nosso objetivo apenas é o de dar às pessoas algum fundamento cientifico.

Fundamento, aliás que não tivemos. Muitas gerações de brasileiros foram sacrificadas no altar do mau ensino. Éramos obrigados a decorar fórmulas de física, a aprender matemática com professores prolixos, e o resultado não foi apenas a aproximação das ciências sociais, que, em si, nada tem de negativo. O resultado foi também uma resistência ao estudo das ciências, algo desastroso no mundo moderno, onde o conhecimento é o motor do avanço econômico.

Na defesa de um melhor ensino cientifico, teremos de cerrar fileiras com os que defendem também melhorias na educação. Não adianta, por exemplo, falar em melhor ensino cientifico, ou qualquer tipo de ensino, se não cuidamos da formação dos professores e da garantia de condições dignas de trabalho e remuneração.

Estamos num período de festas e, portanto, de alguma dispersão. Voltarei da falar de temas correntes, e no meio de janeiro continuarei esta série de sugestões sobre como atualizar o programa do Partido Verde.

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Aquecimento e cidades

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Antes de iniciar o texto sobre Partido Verde e a importância da ciência para nosso trabalho, tenho de acrescentar um tema ainda sobre cidade e aquecimento. Não pretendo esgotar nada. Mas o lembrete ficaria incompleto se não mencionasse a relação entre poder público e indústria de automóveis.

Na Europa, começa a pressão para que as empresas reduzam a emissão de CO2 de seus carros, nivelando-os em 120 gramas por quilômetro. Há resistências, mas esta decisão é uma decorrência direta do encontro de Bali, da disposição de partir para soluções concretas.

Faremos isto no Brasil? A missão do Partido Verde é a de colocar esses temas, mesmo sob o risco de serem sepultados pela indiferença.

Eu mesmo já apresentei um projeto sobre redução de emissões nos carros brasileiros, inspirado na legislação da Califórnia. Ele não avançou nas comissões e não mereceu uma linha nos jornais.

Mas é preciso persistir. Em lugares como São Paulo, a luta contra a poluição coincide, nesses casos, com a luta contra o aquecimento global. As emissões não significam apenas uma barreira maior aprisionando o calor mas também um caso de saúde, uma grande ameaça a nossa respiração. 

A verdade é que, apesar de iniciativas isoladas, aqui e ali, o Partido Verde jamais parou para colocar no papel uma política que levasse ao questionamento da industria automobilística, muito menos da ameaça à saúde. A concentração de poluentes na atmosfera é medida na base de partículas por milhão. Quantascidades brasileiras são capazes de definir sua situação claramente? Ao que me consta, apenas São Paulo tem esse equipamento.

Prefeitos e vereadores do Partido Verde terão um grande papel nesse tópico que acrescentei ao texto cidades e aquecimento.

Antes de lançar o texto, ciência e PV, gostaria apenas de lembrar a todos que o IPCC, órgão da ONU, foi criado para avaliar cientificamente, ainda no fim da década dos 80, do século passado, o fenômeno do aquecimento. A partir daí, passou a ser a referência para as decisões políticas. Esta realidade, no caso do meio ambiente, era inevitável. Sem a orientação cientifica, seremos reduzidos a contestadores românticos que sabem o que não querem mas são incapazes de apontar o caminho da recuperação.

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Um novo caminho

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Para sobreviver com capacidade de intervir no processo brasileiro, o Partido Verde precisa mudar. Para início de conversa, é preciso que compreenda que está no interior do maior movimento do mundo, que é o movimento ambiental pela sustentabilidade do planeta.

Paul Hawken, no livro Blessed Unrest (Bendita Inquietação) conta que, em suas conferências pelos EUA, sempre recebia cartões de pessoas e pequenas organizações ambientais. Resolveu dar um balanço delas no mundo e chegou a 300 mil, sem contar as 100 mil dedicadas às causas indígenas. Evidentemente que há muito mais e elas ainda não expressam as possibilidades completas do movimento pois há muita simpatia pela causa, mesmo onde não se está organizado.

Com a criação da Frente Ecológica na Câmara foi possível atrair inúmeras organizações, algumas delas como a SOS Mata Atlântica, são promotoras de nossos encontros. E principalmente foi possível atrair 250 deputados, na maior frente já criada para discutir a questão ambiental.

Isto demonstra apenas o potencial, uma vez que deputados nem sempre se orientam unicamente pelos debates, mas sofrem diferentes tipos de pressão.

O programa do Partido Verde tem quase 20 anos. Quanta água não passou por baixo da ponte, inclusive a queda do muro e Berlim? Sem um congresso nacional que atualize as posições, que analise todas aquelas propostas libertárias do passado e ofereça pelo menos um mapa do caminho, o PV será uma ficção romântica. E nao será com uma ficção romântica que se enfrentarão os grandes desafios do aquecimento global, quase todos eles já cientificamente mapeados.

Aliás, essa proximidade com a ciência, é um fator indispensável para o novo passo. No principio, denunciavam-se os crimes ambientais. Com o tempo, a própria mídia passou a cumprir esse papel. O problema agora é fazer, desenvolver projetos, interferir na realidade. E para isso, um novo tipo de militante com abertura para a ciência e capacidade de aprender com ela pode alterar o quadro. 

O IPCC, grupo de cientistas que faz os relatórios do aquecimento, foi vital para o Protocolo de Quioto e formulação de inúmeras políticas de mitigação e adaptação ao aquecimento global. Bush não ouviu os cientistas em Nova Orleans, que previam a fragilidade dos diques, e acabou contribuindo para que os desgastes fossem maiores.

Já entramos numa nova época e o PV ancorou no passado, inclusive com práticas semelhantes aos velhos partidos. Ou ele muda, torna-se transparente e eficaz, ou então será preciso buscar novos instrumentos. Caso não seja possível criar um novo partido, pelo menos tornar o pequeno núcleo que pensa numa espécie de software, informando e orientando, no campo ambiental, os partidos existentes e todos os setores que precisarem de nossa colaboração.

Esta é apenas mais uma visão de como será a tarefa em 2008.

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Venezuela deu a volta

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Diante da divulgação das cartas de Ingrid Betancourt, todos os países democráticos deveriam se mobilizar, inclusive o Brasil. As condições em que as Farc a mantêm são desumanas. No cativeiro, não teve a oportunidade sequer de ler um livro,algo que as ditaduras de direita permitem.

O sequestro é uma forma de luta abominável. No caso de Ingrid, que era apenas candidata pelo Partido Verde, torna-se mais absurdo ainda. O que as Farc pretendem com isto? O Brasil deveria emitir uma nota de protesto e condenação, associando-se aos que apóiam a libertação de Ingrid em todo o mundo.

Saiu o resultado do plebiscito em Caracas. Chavez perdeu. Isto é muito importante não só para a Venezuela mas também para a Bolívia, Equador e, em parte, Brasil. Essa disposição de esmagar os mecanismos democráticos, de instituir presidentes praticamente vitalícios, de introduzir um socialismo do século XXI que ninguém sabe o que é, sobretudo depois do fracasso retumbante do socialismo do século XX, são todos fatores de crise numa América Latina já conturbada.

A pesquisa da Folha de São Paulo, indicando que 65 por cento dos brasileiros ouvidos são contra um terceiro mandato de Lula foi também uma boa indicação. Antes mesmo do resultado venezuelano, Lula declarava que um terceiro mandato é absurdo. Já conhecia os dados brasileiros.

Viva a vitória da democracia na Venezuela. Mas Chavez tentará de novo. Seus aliados, Morales na Bolívia, Correa no Equador, prosseguem a marcha da insensatez, especialmente o primeiro que quer aprovar uma constituição solitariamente, sem respeitar os mecanismos que garantem o papel da oposição.

Aqui no Brasil, apesar da sessão aberta, os senadores preparam-se para absolver Renan. Faremos pressão, mas a capacidade diminui desde quando ele renunciou à presidência. Antes, tinha algo a haver conosco, pois era presidente do Congresso. Mesmo assim estaremos lá, dessa vez sem mandato judicial, pois eles mesmos decidiram criar vergonha na cara e abrir a sessão.

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Balanço da viagem a Paris

Paris – Em algumas palavras, um balanço da viagem a Paris, onde me encontrei com os verdes franceses para discutir uma melhor articulação internacional em função dos novos problemas que teremos de enfrentar nos próximos meses.

A idéia de uma articulação internacional foi o tema da primeira reunião, ainda na sexta feira. Dela participaram também dois deputados belgas no parlamento Europeu um verde de Berlim e os núcleos que preparam a criação de partidos verdes na Grécia e Turquia.

Foi uma espécie de continuação de uma reunião realizada em Canberra (Austrália) exatamente com esta finalidade. Só que o trabalho internacional conjugado ainda não está funcionando e os problemas que temos de enfrentar se agravaram.

Sábado de manhã, num barco ancorado no Sena, fiz uma breve exposição sobre o Brasil e pedi atenção para dois temas: 1) Caiu a moratória brasileira sobre alimentos transgênicos, com a decisão do governo de liberar. Isto significa que a Europa está cada vez mais cercada, pois não há grande produtor de grãos hoje que não plante transgênicos. O Brasil fechou o círculo já estendido pelos Estados Unidos, Argentina e Canadá. Isto quer dizer que os europeus trabalham agora com mais limitações, e no final do mês devem tomar uma decisão sobre o tema. Informei também que algumas cooperativas produtoras no Brasil estão vendendo soja transgênica como se fosse convencional e que nosso esquema de fiscalização é quase nulo. Mais um problema para a segurança alimentar mundial, isto é a segurança de quem já tem comida e prefere algo menos perigoso;

A Amazônia foi o segundo tema. A Inglaterra decidiu cortar sua ajuda à Amazônia argumentando que precisa canalizar dinheiro para a reconstrução do Iraque. Creio que isso deveria ser um tema de debate lá e aqui. Já é difícil conter o avanço da soja na Amazônia assim como neutralizar o discurso dos produtivistas que querem ganhar dinheiro aqui e agora, passando por cima de duas riquezas essenciais do Brasil: a diversidade cultural, expressada pelas nações indígenas, e a diversidade biológica, contida na mata ainda virgem.

Ainda no sábado, participamos com os verdes franceses da manifestação final do Fórum Social Europeu, na Place de la Republique. Mais ou menos 100 mil pessoas vieram às ruas pedir uma outra mundialização. Havia de tudo, inclusive anarquistas e autônomos. Muitas dúvidas sobre a experiência brasileira, mas, de um modo geral, evitei fazer criticas publicas ao governo, fora do país. A entrevista que o Le Monde publicou no sábado foi feita aqui no Brasil.

Na segunda feira, na Assembléia Nacional francesa concedi entrevista coletiva junto com Noel Mamére, deputado verde que foi o candidato do partido às eleições presidenciais do ano passado. Expressei o apoio à iniciativa dos verdes que criaram uma CPI lá par apurar a intervenção de militares franceses na preparação da tortura no Chile, Argentina e Brasil. Informei que apresentei duas moções nas comissões de direitos humanos e relações exteriores da Câmara brasileira.

Finalmente, recebi Camille Cabral, a transsexual brasileira, que é vereadora em Paris e faz uma grande campanha contra a AIDS. Camille organizou uma homenagem para mim, nos debates feitos na Bolsa de Valores, intitulados “A Bolsa ou a Vida”. Infelizmente, tive de atrasar a viagem por causa da votação da medida provisória dos transgênicos no Brasil. Prometi apoio à luta dos travestis e transsexuais brasileiros em Paris e sugeri uma frente com os que estão na Itália e também com as profissionais do sexo que trabalham em Bragança, Portugal, e foram objeto de uma capa da revista norte-americana “Time”.

Camille quer mais apoio e flexibilidade dos políticos que, de um modo geral, ainda subestimam a luta das profissionais do sexo. Estabelecidos inúmeros contatos com os verdes europeus, ficamos de formular um projeto de website que possa ser o instrumento de nossa atuação conjunta.

Esse é um quadro ligeiro. Voltaremos a esses temas, ao longo do trabalho cotidiano. As fotos da manifestação dão uma idéia do alcance do movimento e as fotos da cidade, uma ligeira idéia do outono que avança rapidamente para o inverno.

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Morte na Bahia

Faz mais de uma semana que mataram o presidente do Partido Verde, em Ubaíra, pequena cidade localizada no Vale do Jequiricá, a 274 quilômetros de Salvador. O autor do crime é um quadro do PFL, o ex-prefeito Ivan Eça Menezes . Professor querido na cidade, ex-asilado em Moçambique, pacifista, Nathur de Assis Filho morreu porque estava ajudando a prefeita a reestruturar a pequena máquina administrativa da cidade.

O curioso é que o autor do crime ainda está solto. Não se prendem assassinos na Bahia? É uma pena constatar que não são presos, sobretudo se pertencem ao partido do governo.

Procurei Antônio Carlos Magalhães na quinta feira passada e pedi que nos ajudasse a fazer justiça. Ele prometeu faria alguma coisa, mas até agora nada. É uma pena o PFL da Bahia mergulhar nessa visão provinciana de que podem matar um quadro do Partido Verde e que nada acontecerá, como nos outros assassinatos.

Cheguei mais cedo a Brasília. Consegui ler quase todo um livro no avião. Seu autor é o professor Geraldo Pieroni. O título é Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas. Interessante documento sobre os degredados no Brasil, apresentados como bandidos, assassinos da pior espécie. A leitura dos documentos em Portugal mostra que muitas penas leves, como o adultério, eram punidas com degredo. Logo, o livro do professor Pieroni é para aqueles que querem repensar o Brasil colônia o que os ingleses chamam uma boa food tor thought. E editora é a Bertrand Brasil.

Sai correndo para um jantar com o deputado do Partido Verde alemão, Ludger Vomer, Ministro adjunto das relações exteriores. O PV alemão está a frente das relações exteriores do país. Pena que marcaram o jantar numa churrascaria. Não como carne e o cheiro da carne em churrascaria impregna a roupa e os cabelos.

Mas tudo bem. Todos ao Porteira Grill pelo bem das relações Brasil-Alemanhã.

Vale a pena registrar que foi eleito o primeiro prefeito gay numa grande cidade do mundo. Bertrand Delanoé do Partido Socialista quebrou a tradição parisiense que dava vitória à direita há 130 anos. Isto será bom para São Paulo. Marta estava no comício de Dalenoe, dando apoio e fazendo até um pequeno discurso em francês. A cooperação entre São Paulo e Paris pode ser interessante, sobretudo nesse momento em que São Paulo, devastada pela corrupção, precisa de tudo.

Vou parar por aqui. No livro do professor Pieroni há duas ciganas que foram condenadas ao degredo porque reclamaram da chuva, dizendo que Deus estava urinando na cabeça delas. Deus, não digo, mas São Pedro.; bem São Pedro é chegado a um xixi sobre Brasília. Chove lá fora.

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